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O Eterno Companheiro

A colunista e embaixadora Ana Castelo Branco explica por que não quer que seu filho Mateus seja o tal "eterno companheiro"

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

Este é mais um texto da série “Frases Que Ouvimos Com Frequência Quando Temos um Filho Down”. E esta é mais uma delas: ele será seu eterno companheiro. Mais uma frase dita com a melhor das intenções, mas com um sentido totalmente equivocado. Desculpe se, por acaso, você é uma das pessoas que me falou isso. Quero deixar claro que você não me ofendeu, nem entrou para a minha lista negra. Compreendo perfeitamente a dificuldade em encontrar as palavras certas para demonstrar apoio em uma situação nova, totalmente desconhecida. Mas esta frase é realmente ruim, faz eu sentir uma pontinha de tristeza.

Quando alguém diz que o Mateus será meu eterno companheiro, está traçando todo o futuro do meu filho. A pessoa mostra ter certeza que ele não vai sair de casa para fazer faculdade em outra cidade ou para se casar. Mochilão pela Europa, então, nem pensar. Uma conhecida, certa vez, não só disse a tal frase como acrescentou: “Você é que tem sorte. Nunca vai passar pela síndrome do ninho vazio”. Como se ter um filho dependente de mim pelo resto da vida fosse uma benção. Engoli os palavrões que pensei como resposta e apenas disse que meu nível de carência não é tão alto assim.

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Sonho em ter um quebra pau com o Mateus aos 15 anos porque ele quer passar o carnaval em Porto Seguro com os amigos e eu ainda acho que ele é novo demais para isso. Também quero reclamar para o meu marido que o Mateus nunca mais veio almoçar com a gente no domingo ou que não me liga há uma semana. Quero ter que fingir um mal estar para ver se ele finalmente lembra que tem mãe e vem me ver. Quero drama, confusão e gritaria. Mas não quero vê-lo grudado em mim pelo resto da vida.

Cada vez que levo o Mateus para a terapia ocupacional, para a fisioterapia e para a fono, é nisso que estou pensando: que ele não seja meu eterno companheiro. Que ele seja capaz de tocar a vida com independência, que possa tentar realizar seus sonhos. Digo “tentar” porque nem sempre conseguimos. Ninguém passa pela vida realizando todos os seus sonhos. Mas ter a capacidade de tentar é fundamental. E frustração também faz parte.

Para garantir um eterno companheiro, eu não aconselho ter filhos. Aconselho ter um bom casamento. E, se não der certo de primeira, casar-se de novo e de novo e de novo. Caso os caras certos não apareçam assim em fila, aconselho cultivar bons amigos. Porque filho, com ou sem síndrome de down, não foi feito para ser companhia. Marido e amigos sim.