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O espaço da depressão

Nanna Pretto conta das frestas pelas quais via a depressão se aproximar

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

 

Ser mãe em São Paulo não foi nada fácil. Fiquei, durante meses, na linha tênue entre a felicidade e o desespero. A família longe me fazia pensar constantemente em como ser mãe sozinha é uma barra. Me inflo de orgulho das amigas que seguram a bucha de encarar a maternidade sozinha. Clap, clap, clap!

Não, eu não passei por isso. Mas amarelei várias vezes e achei que poderia acontecer. Por fragilidade, por achar que “ah, beleza, não tá a afim eu seguro a barra”. Por querer ser a fo%&na da relação. Ah, vá. No dos outros é refresco, bem se fala lá na Bahia.

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Mas a gravidez veio no susto e o morar junto também. Quando menos me dei conta o apartamento dazamigas tinha um berço, brinquedinhos de bebê e um namorado. E o meu armário tinha camisas sociais. E o barbeador (nunca consegui lidar com isso) estava na pia do banheiro.

E aí que bateu o pânico: você está aqui por mim ou pelo bebê? Um pânico que hoje até falamos com naturalidade, mas ele tinha razão para existir, porque, na verdade, nenhum dos dois sabia a resposta. E enquanto o bebê estava na barriga, a corrida, a bike e o monte de atividades físicas que preenchiam o meu tempo, liberava endorfina suficiente para eu até sentir medo, mas achar a maternidade linda.

Depois do parto… OK,  continuei achando a maternidade linda e estava completamente realizada por aquele filho que fomos capazes de fazer. Mas foi facinho, facinho achar um espaço para a depressão. Era ela a responsável pelo excesso de peso, pelo choro sem hora, pela saudade dos pais. A minha vida, naquele momento, fazia sentido por estar e amamentar Gabriel. Todo o resto podia explodir (leia-se casa, marido e trabalho). Era um turbilhão de emoções que eu nunca soube definir. O amor daquilo, daquela relação, era tamanho que até doía. Hora de se tratar.

“Quando eu via a luz no fim do túnel, era o trem vindo de frente”. É assim que eu e o marido avaliamos as minhas reações emocionais dos meses após parto. Recorri à terapia, aos conselhos do pai e li muito. Daí nasceu o blog, entre outras razões, para ficar mais próxima da família baiana e não me sentir tão só em Sampa. E aí veio a volta aos treinos. A primeira corrida de 5km me fez um bem, mas um bem TÃO GRANDE que eu consigo sentir a mesma sensação daquele dia, só fechando os olhos. Cruzei a linha de chegada no jóquei, vi Gabriel e o abracei. Suada, molhada e feliz. Pulei uma mamada, pensei. Mas tudo bem. Eu precisava daquilo. Eu precisava voltar a ser eu. E parar de usar uma depressão (ou as possíveis causas dela) como desculpas. Eu precisava parar de me boicotar.

Quatro meses após Gabriel nascer eu voltei aos treinos. O meu leite não secou, não amargou por conta do ácido lático, eu não fiquei mais cansada, nem menos tempo com o filho. Me tornei mais mãe, mais esposa e mais feliz. Resgatei algo meu, um momento meu, sem me culpar por isso. E me fazendo valer do bom e velho clichê das pistas de corrida: Endorfina é melhor do que antidepressivo.

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