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Ivan Cosenza de Souza, filho de Henfil

Redação Pais&Filhos

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Ivan Cosenza de Souza, pai de Jade e filho de Henfil e Gilda, é produtor cultural e presidente do Instituto Henfil, institutohenfil@gmail.com

Depois de passar a infância recebendo ilustrações do pai, Ivan decidiu publicar as histórias sobre o sapo que leva seu nome

Não tive tanto contato com o meu pai quanto gostaria. Meus pais se separaram quando eu tinha 2 anos e a cada hora ele estava em um lugar: São Paulo, Rio de Janeiro, Nova York, Natal… Era uma correria.

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Costumava ir muito a São Paulo para visitá-lo. Quando ele se mudou para os Estados Unidos, descobriu uma nova maneira de manter mais contato, mandando desenhos e histórias pelo correio. Muitas delas se transformaram na série de livros sobre o Sapo Ivan.

Minha mãe foi a incentivadora para publicar as histórias que meu pai me mandava. Tínhamos um bloco cheio delas, sem texto. Ficávamos ansiosos para nos encontrarmos e termos este momento com as historinhas, mas não sei se ele já vinha com elas prontas ou as criava na hora. Ele mandou a primeira história quando eu tinha uns 3 anos e continuou criando tramas para o Sapo Ivan até o fim dos anos 1970, quando eu tinha de 11 para 12 anos.

Não tínhamos o convívio das coisas do dia a dia, mas tínhamos um contato muito intenso quando eu ia para a casa dele. Saíamos bastante para comer ou assistíamos a filmes, que acabariam servindo de inspiração para o longa que ele fez, “Tanga – Deu no New York Times” (1987). Eu também o acompanhava muito em compromissos de trabalho.

A casa do meu pai era um albergue de cartunistas, que passavam por lá ou até mesmo moravam com ele. Conheci muito o pessoal dos cartuns de São Paulo, como Laerte, Angeli e Nilson, além dos estrangeiros.

Via sempre meu pai trabalhando, mas não participava. Um dos trabalhos dele que mais me marcou foi a abertura do programa Viva o Gordo, de Jô Soares: era um desenho com colagens e recortes, feito numa cartolina. Ele ficava muito concentrado quando trabalhava e eu ia assistir à TV ou o via desenhar.
Meu pai não falava muito sobre política quando estávamos juntos, mas contava passagens e conversas que tinha com o Lula, além de mostrar desenhos que fazia para as campanhas eleitorais. Lembro-me de um desenho da Graúna, que ela conjugava o verbo poder, que meu pai disse ter mostrado para o futuro presidente.

Acredito que a abertura política do governo Lula tenha alguma influência do meu pai. Ele dizia que todos deviam participar de um governo realmente democrático e o Lula não concordava algumas vezes.

Minha filha conhece as obras do avô, porque cresceu enquanto eu republicava as obras. Tento passar para ela algo que meu pai me ensinou: aprender a trabalhar com várias coisas. Ele brincava que estava desempregado de dois lugares, mas tinha outros três empregos.

Eu tinha 18 anos quando ele morreu (Henfil contraiu AIDS em uma transfusão de sangue e morreu em 1988). Ouvi a notícia pelo rádio, enquanto jogava sinuca com meu primo. Saímos de Maricá, pegamos o carro e fomos para o hospital no Rio.

Até há pouco tempo, o Sapo Ivan era apenas um monte de rascunhos, um bloco, algo da minha lembrança, uma história minha e dele. É um assunto diferente de mexer, de se transformar em livro. É um personagem especial. E espero que para os pequenos leitores também seja.  

Para saber mais


O sapo que queria beber leite, de Henfil
As histórias, ilustradas por Henfil para seu filho, contam as peripécias do sapo Ivan. Faz parte de uma série de 12 títulos, que serão publicados ao longo deste ano.
Ed. Nova Fronteira (www.novafronteira.com.br), R$ 19,90

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