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Garoto enxaqueca

Você sabia que as crianças também sofrem de enxaqueca?

Redação Pais&Filhos

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Dor de cabeça não é só coisa de gente grande. Estima-se que de 4% a 8% de crianças sofram de enxaqueca, doença que tem a dor como sintoma, mas também vômitos e tontura. Saiba por que isso acontece

Por Noelly Russo, neta de Isaura, Miro, Lourdes e Stephano

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Nos anos 90, faziam sucesso na MTV vinhetas em preto-e-branco com um personagem mal humorado, o Garoto Enxaqueca, criado pelo cartunista americano Greg Fiering. Numa das mais clássicas, a amiguinha o convoca a pensar positivo. O garoto mentaliza, e a cabeça da amiga explode. “Funcionou!”, comemora. Na vida real, a doença não tem a menor graça. E a cabeça que parece explodir é a do próprio garoto ou garota afetado por ela, da qual a dor de cabeça é apenas um dos sintomas.  

Quando a gente tem dor de cabeça, culpamos os suspeitos de sempre: excesso de trabalho, contas demais, dinheiro de menos… Mas o que explica a dor chata e insistente que incomoda seu filho pequeno, como se tivesse um peso em sua cabeça? Bom, pode ser estresse, sim, mas também pode ser culpa da baixa umidade no ar, das frituras que ele comeu no almoço, do excesso de luz ou até do suco de laranja do lanche. Pois é, todos esses fatores podem ser o gatilho para uma crise de enxaqueca, um mal que atinge de 4% a 8% das crianças, segundo o neurologista Abouch Krymchantowski, autor do site dordecabeca.com.br. Quase um quarto das crianças que procuram os neurologistas em busca de alívio para dores de cabeça sai com esse diagnóstico.

A síndrome pode ser acionada por inúmeros fatores, que incluem causas ambientais, como alimentos, ar seco ou mesmo estresse. Pense na agenda sobrecarregada das crianças de hoje: dormem tarde, acordam cedo, mais de 12 horas fora de casa, tempo parado no trânsito, no carro ou no transporte escolar, karatê, balé, robótica, musicalização, xadrez… A genética também é culpada: uma criança que sofre de enxaqueca certamente tem histórico na família.

Felizmente, nem toda dor cabeça é uma enxaqueca. “Na verdade, a enxaqueca é uma doença, que tem entre seus sintomas a dor de cabeça. Às vezes nem é o mais grave. Há crianças que sofrem tonturas e vomitam”, explica o neurologista infantil Paulo Plaggert, filho de Jan e Lourdes, do hospital infantil Darcy Vargas e do Instituto da Criança do HC em São Paulo.

A boa notícia é que 70% dos casos têm causa no ambiente. A má notícia é a dificuldade de identificar exatamente qual. “O gatilho para uma crise pode ser quase qualquer coisa. Já atendi uma criança que tinha crises quando tomava suco de laranja. Os pais têm de se munir de paciência para pesquisar a causa e eliminá-la”, explica o neurologista. Em alguns casos, as crises podem ter origem hormonal ou mesmo ser fruto de pré-disposição genética.

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Cefaleia X Enxaqueca

Segundo o neurologista, a dor de cabeça comum – a tal da cefaleia – também tem causas variadas e não é difícil identificar a diferença entre ela e a enxaqueca. “Uma gripe ou uma inflamação podem dar dor de cabeça. Mas ela passa rápido e não é recorrente. Um analgésico comum, específico para crianças, pode ajudar, mas às vezes ele nem é necessário, basta um pouco de repouso e fica tudo bem.” Os analgésicos comuns são vendidos sem receita, mas, antes de sair comprando, peça orientação ao médico de seu filho.

Já a enxaqueca pode se manifestar com uma dor mais forte: a cabeça fica latejando, parece que vai explodir. Ou ela pode estar localizada em um único lado da cabeça. Normalmente,  vem acompanhada de outros sintomas, como náusea, fotofobia (intolerância a luz) e tontura.

“É difícil para os pais identificarem quando o caso é de enxaqueca. O diagnóstico correto leva em conta uma série de fatores”, diz ele.

A dor de cabeça ainda pode ser sintoma de outras doenças mais graves. “Dependendo das características, poderá corresponder a um problema banal, como uma gripe, ou estar relacionada a doenças de maior gravidade, como uma meningite, por exemplo”, explica o neuropediatra e nosso colunista Saul Cypel, pai de Marcela, Irina, Eleonora e Bruna. Tudo vai depender do tipo de dor o pequeno está sentindo, desde quando a ela está presente, se existe febre e alterações visuais, entre outros.

Quando procurar o médico

Para o dr. Paulo Plaggert, os pais devem recorrer primeiro ao pediatra, que acompanha a criança e a conhece bem. “O pediatra pode indicar ou não o especialista. Mas, se as dores persistirem ou se a criança apresentar sintomas graves, como desmaios e vômitos, uma visita ao neurologista deve ser agendada”, explica Plaggert.

A partir da consulta, o neurologista pode pedir exames de imagem e sangue que o ajudarão a definir o diagnóstico. Se a conclusão é que a criança sofre de enxaqueca, o próximo passo é descobrir o que causa as crises. E aí, os fatores são virtualmente infinitos.

Mas não precisa se desesperar, há medicamentos que ajudam as crianças a passarem pelos momentos mais agudos das crises. “Só em casos extremos as crianças são tratadas com analgésicos intravenosos”, diz Plaggert. Quando a dor é demais, a gente agradece por poder usar esse recurso.

Que o diga a designer Luciana Vaz Guimarães, mãe de Mateus, hoje com 15 anos. O menino foi um frequentador de pronto-socorros por conta de crises fortíssimas da doença. “Tentei de tudo. Tirei chocolate, chá, gordura… Não o deixava ficar no sol, tomar gelado… Enfim, fiz de tudo. Mas o fato é que as crises eram fortíssimas. Ele ia parar no hospital com vômitos e tontura. Hoje, felizmente, as crises diminuíram, mas estou sempre atenta”, conta.

As crises de enxaqueca podem ser aliviadas com descanso em um ambiente silencioso e escurinho, além de um pouco de água fria no rosto. Tratamentos alternativos, como acupuntura, homeopatia e massagens também podem ajudar, principalmente se a dor de cabeça estiver relacionada a fatores emocionais, como estresse ou cansaço, as chamadas cefaleias tensionais. Em alguns casos, as crises acabam ao chegar a puberdade, mas com as meninas a situação pode piorar, por causa dos hormônios. Aí, é uma nova dor de cabeça…

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Sinais de alerta

Alguns avisos que o corpo dá de que uma crise de enxaqueca está para chegar
– Desconforto na cabeça;
– Bocejos frequentes;
– Irritabilidade;
– Perda da capacidade de concentração ou raciocínio;
– Diarreia;
– Desejo exagerado por algum tipo de alimento ou aversão total;
– Desconforto abdominal;
– Palidez (muito frequente em crianças);
– Dormência ou diminuição da força muscular em um lado ou parte do corpo;
– Pontos ou raios luminosos ou brilhantes e perda total ou parcial de uma parte do campo de visão.

Como reconhecer a enxaqueca?
– Dor pulsátil ou latejante na fronte e têmpora;
– A dor se apresenta mais de um lado da cabeça (em 40% dos pacientes é dos dois lados);
– Pode limitar a criança para as suas atividades normais;
– Inicia-se leve e progressiva;
– Piora com esforços ou atividades físicas;
– Duram em média de 4 a 72 horas, geralmente terminando de forma gradual;
– Associada a enjoo ou vômitos;
– Intolerância à claridade ou a ruídos.

Confira a lista dos alimentos relacionados à enxaqueca
– Refrigerantes à base de cola
– Embutidos
– Achocolatados
– Queijos amarelos
– Café ou chá preto
– Frituras

É verdade que…

…Chocolate pode causar enxaqueca?
Sim. Mas não em todos os casos.

…Cafeína e refrigerantes à base de cola ajudam a acalmar?
Não necessariamente. Em alguns casos, o gatilho pode ser exatamente esses componentes.

…Sol dá enxaqueca?
Na verdade, a doença está mais relacionada à baixa umidade do ar. É mais comum o sol em excesso causar dores de cabeça por insolação.

…As enxaquecas somem na puberdade?
Não necessariamente. Embora exista um grande número de crianças que deixe de sofrer a síndrome ao chegar à puberdade, há outro tanto que tem seu quadro agravado.

…Meninas têm mais enxaquecas do que meninos?
Sim, na pós-puberdade, por causa das mudanças hormonais. Antes disso, não há diferença entre meninos e meninas.

Outros fatores relacionados à enxaqueca
– Baixa umidade do ar e poluição
– Privação de sono (ou sono excessivo)
– Jejum
– Ruídos
– Odores fortes

Para aliviar
– Leve seu filho para um ambiente silencioso e escurinho
– Jogue um pouco de água fria no rosto
– Deixe-o descansar, com o mínimo de estímulos possível

Consultoria: Abouch Krymchantowski, pai de Paulo Felipe e Ana Gabriela, é neurologista e autor do site dordecabeca.com.br  Paulo Plaggert, filho de Jan e Lourdes, é neurologista infantil do hospital infantil Darcy Vargas e do Instituto da Criança do HC em São Paulo  Saul Cypel, pai de Marcela, Irina, Eleonora e Bruna, é neuropediatra, professor de Neurologia Infantil e nosso colunista.

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