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Ganhar e perder é parte da vida

Ricardo tinha uma família feliz, um dia o destino resolveu mudar tudo

Redação Pais&Filhos

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Como jornalista cobri acontecimentos trágicos: guerras civis, acidentes aeronáuticos ou ferroviários, incêndios, assassinatos coletivos, atentados, explosões e tudo isso que as pessoas assistem, ouvem e leem na mídia todos os dias, aqui e em qualquer parte do mundo. Mas, tenham certeza, o ser humano, por mais solidário que seja, diante desse tipo de fato, é egoísta. No fundo da sua alma, pontua um alívio porque aquela triste cena não está acontecendo com ele, seus familiares, seus amigos. Um “egoísmo natural”, a atávica, sincera luta pela sobrevivência.

Há cerca de 15 anos perdi um filho e uma neta em acidente de carro, na cidade de São Paulo. Ele aos 25 anos e ela com seis meses. Ricardo era casado e tinha três filhos. Mariana, que morreu com ele, era  caçula. Os irmãos, Juliana, na época tinha 7 anos, e Lucas, um ano. Éramos muito felizes, somando-se meu filho Felipe, de 3 anos. Embora as diferenças de idade, havia perfeito entrosamento. Ricardo Filho era desenhista e ilustrador para jornais, revistas e livros infantis. Ele amava a natureza e fazia trilhas pelas florestas, tomava banho nas cachoeiras encontradas nos caminhos, adorava orquídeas. Era um defensor do meio ambiente.

Naquela madrugada de 1996, ele, a mulher e os dois filhos menores, passaram pelo meu apartamento e não me encontraram. Ricardo deixou um bilhete sob a porta. Cheguei à meia-noite, li a mensagem e senti uma ponta de tristeza… Fui dormir. Ao apagar a luz do abajur, tocou o telefone. Atendi e uma voz informou que eu havia sofrido um grave acidente. Ricardo e eu tínhamos o mesmo nome. Pensei que era trote. Mas, aos poucos, fui percebendo que o repórter de tantas tragédias dos outros começava a viver a sua. Mas, ainda esperava o melhor. Apenas um susto com final feliz.    

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Morreu Ricardo Filho. Morreu Mariana. O irresponsável que descendo em alta velocidade uma rua, avançou o semáforo vermelho e matou os dois, fugiu sem prestar socorro às vítimas, desapareceu. Doei os órgãos do meu filho. Enterrei o futuro, contra a lei da natureza. Perseverei para cumprir a lei, sem nenhum sentimento de vingança ou busca de reparação financeira. Acreditei na Justiça do meu país. E depois de longos 15 anos, o criminoso foi encontrado, julgado e condenado a um ano e nove meses de prisão. Responde em liberdade.

Não me agrada a condição de vítima. Assim, sofri tudo o que era possível, cheguei ao fundo do poço, mas voltei, firme, em busca da vida. Quando eles morreram, escrevi um texto de solidariedade, esperança e amor. Eles eram isso. Escondi e só encontrei este ano. O texto, metáfora poética, trata com delicadeza de nossas perdas diárias. Foi ilustrado pelo artista plástico Rubens Matuck em papel de arroz chinês, com lápis de cor alemão. Um trabalho suave, belo. E virou um livro pela Editora Biruta. Porque viver vale a pena e é preciso compartilhar as emoções.

O Poeta e o Passarinho, de Ricardo Viveiros
Conta a história da amizade de um poeta com um passarinho que chegou frágil e molhado, foi acolhido e acabou se tornando esperto e bonito.
Ed. Biruta (editorabiruta.com.br), R$38

Ricardo Viveiros, pai de Ricardo, Felipe e Miguel, é escritor e jornalista. Já trabalhou em jornais, revistas, rádios e TVs, escreveu 23 livros para adultos e um infantil, O Poeta e o Passarinho, lançado em outubro.

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