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Estimular sem estressar

Desencane e siga seus instintos

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

por Samantha Melo, filha de Sandra e Tião

Logo depois de dar à luz a Maria Clara e chegar em casa da maternidade, a arquiteta Teresa Rolim foi bombardeada com conselhos. Enquanto se desdobrava para cuidar do bebê, ouvia sobre amamentação, cólica, sono e milhares de dicas sobre todo tipo de assunto. Mas um deles a deixou realmente preocupada: diziam que a sua filha não se desenvolveria bem se não fosse estimulada corretamente. “Na hora, fiquei estática, sem entender nada. O que significava aquilo? O que eles queriam dizer com estimular? Ninguém nunca tinha me dito que se eu não fizesse certas coisas, o desenvolvimento da minha filha seria prejudicado. Entrei em pânico!”, lembra Teresa.

O desespero de Teresa é justo. Quem não se sentiria assim? Afinal, hoje o que não faltam são livros, matérias, artigos e mesmo médicos que apontam métodos para instigar o desenvolvimento cognitivo das crianças. As “incríveis” técnicas garantem ativar mais cedo a fala ou até transformá-los em geninhos da matemática no futuro.
 
De fato, existem momentos mais sensíveis para uma criança aprender determinadas funções, e que se não forem desenvolvidas, podem ter prejuízo no futuro, já que por volta de 50% do desenvolvimento do cérebro ocorre no primeiro ano de vida. Mas não há motivo de pânico. Mesmo.
 
A notícia é que estimular demais também não é bom. Ambientes com muitos estímulos, como supermercados, feiras e shopping centers trazem tantas informações ao mesmo tempo – cores, cheiros, sons e pessoas –, que podem confundir os sentidos das crianças muito novas. 
 
“É preciso estimular desde que a criança nasce, sim. É nessa fase que os estímulos adequados aguçam a percepção e a inteligência. Mas isso não quer dizer que você precisa encanar e sobrecarregá-la. Uma criança superestimulada também pode ter o seu desenvolvimento prejudicado”, aponta o nosso colunista Saul Cypel, neuropediatra e pai de Marcela, Irina, Eleonora e Bruna. 
 
A melhor forma de se estimular uma criança é, antes de mais nada, amá-la, respeitar as suas individualidades e não estressá-la. Não é preciso nenhuma técnica mirabolante e sofisticada. Ufa! A maioria delas a gente já faz naturalmente, sem perceber, quase por instinto.
 
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Primeiros passos
Uma das coisas que mais preocupam os pais são as habilidades motoras dos filhos. Queremos muito vê-los sentarem, ficarem de pé e andarem o mais rápido possível. “Mas é preciso cautela. Qualquer criança normal conquista seu corpo e seus movimentos, passo a passo, cada um no seu tempo, desde que proporcionemos a ela um espaço adequado e uma relação de confiança”, diz o pediatra antroposófico Antonio Carlos de Souza Aranha, pai de Tarsila, Lara e Thiago.
 
Paciência é a palavra-chave. Você vai, sim, achar que seu filho já deveria ter andado ou que deveria ter feito alguma coisa que não fez, normal. Mas muitas vezes o grande estímulo é não fazer nada e esperar o tempo dele. 
No primeiro ano de vida, quase todas as funções motoras necessárias são desenvolvidas. Até os 3 meses, o bebê começa a sorrir e imitar algumas expressões faciais dos adultos. Nesse caso, tudo o que você precisa fazer é ter um contato próximo com o seu filho e sorrir muito. O que com certeza já faz…
 
Os bebês costumam sentar entre os 4 e 8 meses, quando as células nervosas estão sendo recobertas por uma membrana chamada mielina e o pescoço finalmente vai ser capaz de sustentar o peso da cabeça. A partir dos 4 meses, você pode segurar o bebê pelas axilas, quando ele está no seu colo. Isso ajuda a treinar o equilíbrio e, se você balançá-lo para baixo e para cima (sabe aquela brincadeira de serra-serra?), ele provavelmente vai tentar se manter ereto firmando o pescoço. 
 
Logo depois, ele vai aprender a enrijecer os braços e manter o tronco reto. Seu papel é estar ali do lado, incentivando e deixando-o num lugar fofo para o caso dele se desequilibrar. Um bom estímulo são os móbiles ou outros brinquedos em cima do berço. Para tocá-los, o seu filho vai tentar levantar o tronco. 
 
Depois, a criança sente a necessidade de se mover por conta própria. Nesse momento, o segredo é estender um cobertor no chão e espalhar os brinquedos que ela mais gosta. Seu filho vai engatinhar rapidinho. Entre 7 e 10 meses, a criança começa a aprender a sustentar o próprio peso de pé, apoiada, então use a mesma técnica dos brinquedos, mas coloque-os em cima do sofá. A maioria dos especialistas concorda que o andador não deve ser usado, porque nem sempre a musculatura já está preparada para isso.
 
A empresária Cecília Freitas não via a hora do filho Francisco andar, e seguia todas as dicas que ouvia – tentou até o andador quando ele fez 6 meses. Mas foi se sentindo cada vez mais frustrada quando os meses foram passando e ele não conseguia andar sozinho. 
 
“Percebi que ele foi ficando preguiçoso e quando estava fora do andador nem tentava levantar. Resolvi esquecer os conselhos que tanto pedia pra outras mães, e deixei o andador de lado. No quarto dia, o Chico já tentava andar pra pegar os brinquedos. Até hoje que ele tem 4 anos, tento incentivá-lo a fazer as coisas sozinho.”
Cada criança tem seu próprio limite. “Os pais devem ficar atentos para que o estímulo seja prazeroso e sentir até que ponto aquilo está sendo agradável”, explica a fisioterapeuta pediátrica Fernanda Davi, filha de Roberto e Elizabeth.
 
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“A estimulação deve acontecer desde a gestação, com a mãe conversando com o bebê na barriga. Através da voz, a relação da mãe com o filho é favorecida e ativa os canais sensoriais do bebê”, aponta a psicoterapeuta Triana Portal, mãe de Michaela. 
 
Conversar. Esse é o maior bem que você pode fazer pelo seu filho. Mas falar sobre o quê? Sobre tudo. Sobre como foi seu dia, como ele foi esperado, como a mamãe e o papai se conheceram, sobre o que vai ter para o jantar. “Nos primeiros meses, o assunto não importa, o que a criança vai captar é o tom da voz, a sonoridade das palavras e começar a fazer associações”, aponta Dr. Saul.
 
A assistente financeira Kawana Costa foi mãe aos 19 anos, nos Estados Unidos, e ficou impressionada com a relação que os americanos têm com os bebês. “Eu estava acostumada com aquele jeito frio e distante deles. Quando tive a Sophie, comecei a reparar que eles são completamente diferentes no contato com os filhos pequenos. Fazem de tudo para estimulá-los, até nas creches.” Kawana percebeu que quando ela conversava com Sophie à noite antes de dormir, a menina não só dormia melhor, como acordava mais ativa e querendo mais conversa.
 
Esse vínculo estabelecido com os pais no início da vida do bebê dá suporte para cada fase de seu desenvolvimento. Mesmo uma canção de ninar pode estimular os bebês, porque eles registram elementos da voz da mãe e isso favorece o desenvolvimento da linguagem.
 
“Procure falar com voz carinhosa, encorajando o bebê a participar ativamente da hora de trocar a fralda, alimentar-se ou banhar-se. É importante que você demonstre que está interessado numa interação com ele,” ensina o Dr. Aranha. Ele pode até não entender o que você está dizendo, mas pedir a colaboração do bebê nesse tipo de atividade desenvolve o interesse mútuo entre pai e filho. 
 
E não pense que são só as conversas “positivas” que têm efeitos sobre os nossos filhos. O “não” também tem grande participação no desenvolvimento do raciocínio. “Regras e limites ajudam a criança a entender como as coisas funcionam, de uma forma simples, e podem ser estabelecidos desde cedo”, diz o Dr. Saul.
 
Senta que lá vem história
Todo mundo sabe, mas não custa repetir. Os benefícios da relação com os livros desde cedo são inúmeros. O bebê pode até não estar entendendo nada da história, mas ele está ouvindo palavras, o que não só contribui para o desenvolvimento da linguagem daqui a alguns meses, mas também para a alfabetização daqui a alguns anos. 
Além disso, segurar o livro na frente dele, deixá-lo mexer, cutucar, faz com que seu filho comece a se familiarizar com o objeto e encarar como algo interessante, talvez até um brinquedo.
 
Outro ponto importante é que a leitura aproxima você do seu filho, de uma maneira que a maioria das brincadeiras não faz. Isso porque a história pode ser contada com ele no seu colo, sendo abraçado. Assim ele pode sentir seu cheiro e sua calma, o que cria um vínculo que o deixa seguro.
 
E sabe aquele tom mais alto e pausado que você adota com o seu bebê, e que parece ridículo? Ele também serve como estímulo. Isso porque a criança não só escuta melhor, como consegue prestar mais atenção na história contada, ou melhor, nos sons que você emite, o que garante que daqui a alguns meses ela consiga imitá-los. Só não esqueça de modular a voz e baixar um pouco o tom quando chegar a hora de dormir, assim ele entende que o dia está terminando.
 
Os livros infantis também têm o recurso da interatividade. Imagens, sons, luzes, texturas e pop-ups são ótimos elementos para despertar o interesse dos bebês. Deixe que ele toque o livro, morda, rasgue, não tem problema nenhum, pelo contrário. Nesse momento, encará-lo como brinquedo, como algo fascinante, é muito importante para criar a relação com a leitura de forma natural. 
 
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Brincadeira de criança
Não há nada que ative mais os sentidos das crianças do que a brincadeira. Brincar é fonte de estímulo para o desenvolvimento cognitivo, social e afetivo. A brincadeira não só desenvolve habilidades, como instiga os sentidos. 
 
“Seu primeiro “brinquedo” provavelmente vai ser a própria mão, que ela começa a descobrir por volta dos 2 meses. Ela exercita ali a coordenação motora entre o olhar e a mão, e descobre aos poucos que essa mão é dela”, ensina o Dr Aranha.
 
Quando ela aprender a virar de lado, você pode colocar algum brinquedo daqueles fofos perto do berço. Se você acha que brinquedos modernos, daqueles que acendem luzes e tocam música, são os mais estimulantes, esqueça! Eles são educativos, claro, mas o que mais faz diferença é que a idade do seu filho seja respeitada e que haja interação: entre você e ele e entre ele e o brinquedo.
 
Quando Diego tinha poucos meses, ganhou de sua madrinha um daqueles volantes cheios de botões. A mãe, Soraia Oliveira, ficou encantada, e achou que o filho adoraria o presente. O brinquedo foi ignorado solenemente, e deixado de lado. Passados alguns dias, Diego descobriu a caixa em que ele veio embrulhado, e se pôs a batucá-la com os pés. 
 
“Percebi que ele ainda era muito novo para os brinquedos mirabolantes que eu sempre sonhei que ele brincasse. O Diego descobriu naquele dia que tinha pés, e que eles podiam chutar, e isso virou o brinquedo preferido dele. O que eu fiz? Comprei meias coloridas e divertidas”, comemora Soraia.
 
E como fazer isso? Deixe o seu filho livre para escolher a brincadeira que mais lhe atrair, seja o seu próprio pé, uma caixa, cubos para empilhar, um chocalho improvisado com arroz… 
 
Musicando
Você com certeza já ouviu falar de pais que fazem os bebês ouvirem música clássica em busca de aumentarem o seu Q.I. O hoje chamado efeito Mozart tem sido muito comentado e o que não faltam são CDs com esse tipo de música adaptados para as crianças. Porém, não há nenhuma evidência comprovada cientificamente que crianças que escutam música clássica terão alguma melhora em suas habilidades cognitivas no futuro. 
 
De acordo com uma pesquisa da Universidade Northwestern publicada pela Proceedings, a música estimula áreas do cérebro envolvidas na aprendizagem da linguagem, por isso, canções com repetições são as que mais fazem sucesso, e mais tem eficácia. “A música, quando adequada, é lúdica, calmante e trabalha o cérebro. Ela também promove funções como a concentração e a memória”, completa a Dra. Triana. 
 
Os pediatras recomendam as cantigas infantis, como as das bandas Palavra Cantada e Pequeno Cidadão ou mesmo as mais antigas. “Estilos pesados podem estressar e assustar a criança. Além disso, o som muito alto pode afetar o sistema auditivo e fazer o seu filho se retrair.”
 
Entre iguais
Por mais que você queira que o seu filho seja só seu, principalmente nos primeiros anos de vida, a sociabilização com outras crianças é muito importante para que ele consiga se situar no mundo. “Esse contato expande o repertório linguístico, permite o brincar e a parte lúdica que não consegue ser suprida pelo adulto”, aponta a Dra. Triana.
 
Ninguém está dizendo para você sair da maternidade direto para o parquinho. Não tem porque levar a criança para passear antes que ela entenda o que está acontecendo e consiga absorver ao menos algumas coisas, lá pelos 4 meses. Mas depois disso, pequenas voltas de carrinho são um excelente estímulo que vão prepará-lo para mais tarde brincar de fato com outros bebês.
 
Criança adora criança. Você já deve ter percebido que, quando o seu filho vê outro bebê, ele automaticamente sorri. É até engraçado: crianças um pouquinho mais velhas, com 2 ou 3 anos, se acham enormes e sentem a necessidade de proteger os bebês mais novos. Isso é importantíssimo para que elas comecem a desenvolver sua independência.
 
Uma criança que brinca com outras, seja na pracinha, na escola, ou mesmo com irmãos, aprende a dividir, se comunicar, entender as regras de convivência, respeitar e impor suas vontades. O convívio também ensina os diferentes papéis.
 
Mas não adianta levar o filho no parque se você demonstrar insegurança e prendê-lo do seu lado. As crianças sentem quando os pais estão tensos e ficam também, não conseguindo interagir direito com as outras. E se ele for tímido e não estiver a fim de socializar, também não esquenta a cabeça. Cada um tem seu tempo.
E sabe qual é o maior estímulo de todos? Deixar nossos filhos descobrirem o mundo, por suas próprias mãos, olhos, nariz, boca, ouvidos… 
 
Os melhores livros para cada idade

• 0 – 6 meses 
Nessa idade, os livros devem ter imagens grandes e coloridas, texturas e sons. Mas o que importa mesmo é que você conte a história de maneira divertida com um tom alto e claro.
 
• 7 – 12 meses
Os livros podem começar a ter palavras do cotidiano do seu filho, como "mamãe", "papai", "cachorro", e é importante que você as aponte sempre. Tente achar histórias com poucos personagens ou apenas um, pois o bebê está na fase do “eu”. 
 
• 1 ano – 1 ano e meio
Interpretar os personagens é o jeito mais fácil de prender a atenção do seu filho nessa idade, por isso, livros com bichos são os ideais.
 
• 1 ano e meio – 2 anos 
Prepare-se para ter que contar a mesma história infinitas vezes e ver o seu filho se apaixonar ainda mais por ela a cada vez. Tenha paciência e comece de novo, sempre. Inconscientemente, ele está começando a fixar palavras novas ao vocabulário. 
 
Olha a feira
Você sabia que ambientes com estímulos demais podem ser prejudiciais ao bebê? Lugares como supermercado, feiras e shopping centers podem confundir os sentidos das crianças muito novas e retraí-las. As cores, odores, sons e pessoas, todas juntas, são informações demais para processar. Mas isso não quer dizer que você vai ter que deixar o seu filho em casa toda vez que for a algum desses locais. “O ideal é não frequentar esses locais em horários que costumam lotar, permanecer por pouco tempo e evitar outros passeios no mesmo dia”, recomenda o Dr. Saul.
 
Amigo cão
Uma pesquisa da Universidade de Illinois apontou que crianças com contato direto e diário com animais respondem de forma significativa a estímulos e testes de raciocínio. De acordo com o estudo, 66% das crianças menores de 3 anos que tinham animais em casa, apresentaram o desenvolvimento considerado acima do esperado.
 
“O bicho promove segurança, autoestima e diverte a criança. A troca com o animal é valiosíssima em termos afetivos e físicos,” diz Triana. Além disso, os especialistas apontam que ter um animal reduz o estresse das crianças e mantém a frequência cardíaca e a pressão arterial mais baixas, principalmente quando elas têm que vivenciar experiências novas, como entrar na escola ou ganhar um irmão.

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Consultoria: Abram Topczewski, pai de Fabio, Thomaz Eduardo e Gilberto, é neuropediatra do Hospital Albert Einstein e Vice-Presidente da Associação Brasileira de Dislexia. tel.: (11) 2151-1233, einstein.br; Antônio Carlos de Souza Aranha, pai de Tarsila, Lara e Thiago, é pediatra antroposófico, fundador da Associação Brasileira de Médicos Antroposóficos e terapeuta familiar. tel.: (11) 5687-3799, clinicatobias.com.br; Fernanda Davi, filha de Roberto e Elizabeth, é fisioterapeuta pediátrica e neonatal. tel.: (11) 6740-9569, fisioterapiapediatrica.com; Saul Cypel, pai de Marcela, Irina, Eleonora e Bruna, é neuropediatra e diretor do Instituto de desenvolvimento Integrado (INDI). tel.: (31) 3915-2866, indi.mg.gov.br e Triana Portal, mãe de Michaela, é psicoterapeuta e psicóloga clínica. tel.:(11) 3739-3140, trianaportal.com.br.
 
 

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