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Entrevista com Pamela Druckerman

Jornalista e autora do livro Crianças Francesas Não Fazem Manha é uma das palestrantesdo 1º Seminário de Mães, realizado pela Pais&Filhos em julho

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

Pamela se mudou para Paris depois de se casar. A autora do best seller Crianças Francesas Não fazem Manha, lançado em 20 países, era uma jornalista que vivia nos Estados Unidos e escrevia para publicações como Wall Street Journal, The New York Times, The Washington Post e revista Marie Claire. Já na França, ela passou a observar como as crianças de lá são diferentes em alguns aspectos e, principalmente, como a relação dos pais com os filhos muda de um país para o outro. Foi assim que, por anos, Pamela se dedicou a pesquisar e ouvir o que os pais franceses faziam para que, por exemplo, as crianças se comportassem na hora do jantar e comessem de tudo. Ela é também nossa convidada para o 1º Seminário Internacional de Mães, que será realizado em Belo Horizonte, em julho. Conversamos com a autora para saber quais são os segredos das famílias francesas e qual sua visão sobre criar uma criança nos dias de hoje.

P&F: No seu livro Crianças Francesas Não Fazem Manha você diz que os pais franceses não são autoritários, mas têm autoridade sobre seus filhos. Qual a diferença entre esses dois conceitos?

Pamela Druckerman: Autoritarismo significa que você está assustando as crianças para que elas te obedeçam. Pais com autoridade significa que, enquanto você é o chefe, você mantém muita comunicação e respeito mútuo. Pais franceses tentam dar a suas crianças uma combinação de liberdade e limites. Eles veem as duas coisas como cruciais

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P&F: Como é possível dar liberdade e limites ao mesmo tempo?

Pamela: Os pais que eu conheço na França acham que é crucial ouvir com atenção seus filhos e dizer “sim” a eles sempre que possível. Mas eles também acreditam que é importante ser rigoroso em relação a algumas coisas que são chaves para as demais. Por exemplo, na hora de dormir, algumas vezes os pais vão dizer para as crianças que elas devem ficar em seus próprios quartos. Isso não é negociável. Mas, uma vez que elas estejam em seus quartos, elas podem fazer o que bem entenderem. Então, existe a parte da liberdade também, o que faz com que a criança se sinta autônoma e respeitada.

P&F: O que você aprendeu nos Estados Unidos sobre educação que você descartou depois que se mudou para a França?

Pamela: Eu costumava acreditar que, quanto mais você se sacrificava pelos seus filhos, melhor mãe você seria. Os franceses são muito céticos em relação a isso, mas não apenas por uma questão de egoísmo. Eles acham que, se a criança pensa que a vida de sua mãe gira em torno dela, isso colocará muita pressão sobre a criança. As mães francesas que eu conheço são muito amorosas e atenciosas, mas elas não se sentem culpadas por terem empregos e momentos de prazer que nada têm a ver com seus filhos. Pelo contrário, esses momentos as deixam mais descansadas e pacientes para lidar com seus filhos.

P&F: Nos seus livros, você descreve as mães francesas como sensíveis e sensatas. Por que as mulheres de outras partes do mundo não são como elas? 

Pamela:  Eu comecei como uma típica mãe americana, que lê todos os livros sobre ser mãe que eu conseguia. E, quanto mais eu lia, mas preocupada, ficava. Muitos deles dão conselhos que brigam entre si. Eu sentia que eu precisava escolher uma determinada filosofia sobre ser mãe. Mas, se alguma coisa não funcionasse, eu teria que trocar para outra filosofia. Demorou um pouco para eu perceber que as mães francesas não sentiam o mesmo pânico. Elas eram muito boas em se aperfeiçoar em técnicas que dão certo e continuar usando essas técnicas.

P&F: Como funciona isso? Parece óbvio, mas com a quantidade de informação que temos disponível, às vezes persistir na mesma técnica pode ser difícil.

Pamela: A França é um lugar tradicionalmente conservador. As pessoas aqui não estão sempre buscando um novo grande estudo ou livro para aplicar na educação dos filhos.  Claro,  a cultura parental evoluiu muito ao longo do tempo. Mas quando um método funciona – por exemplo, como fazer um bebê dormir a noite toda ou como ensinar as crianças a comer todos os tipos de comida – as pessoas continuam praticando aquele método e estão bem confiantes quanto a isso. É um jeito calmo de levar as coisas. 

P&F: Por que as mães americanas não conseguem estabelecer uma relação com suas crianças como as mães francesas fazem?

Pamela: Eu acho que elas podem, mas isso requer um pouco de prática, um pouco de ênfase na mudança. Por exemplo, mães francesas geralmente acreditam que, quando você está tomando uma decisão para seu filho, é perfeitamente razoável você medir o quanto essa decisão vai impactar na sua própria vida. Elas enxergam que uma mãe que passa todo seu tempo livre levando seus filhos para diversas atividades – como aulas de piano e ballet – estão perdendo completamente o equilíbrio. Elas dizem – e pesquisas neurocientíficas recentes também – que é muito importante para as crianças terem muito tempo livre, um tempo apenas para brincar.

P&F: E quanto aos outros membros da família? Como eles podem ajudar a educar as crianças?

Pamela: Nos Estados Unidos, algumas vezes você ouve que as únicas pessoas capazes de criar adequadamente uma criança são os próprios pais. Até mesmo os avós não são confiáveis por muito tempo. Os franceses passam bastante tempo com seus filhos, mas eles consideram saudável passar um tempo separados também. As férias na França mal começaram, e muitas crianças foram mandadas para passar uma semana ou mais com seus avós. 

P&F: Os pais franceses deixam seus filhos serem crianças? Ou eles crescem mais rápido por causa da disciplina rigorosa que recebem?

Pamela: Existe um ditado popular famoso na França: você não pode dançar mais rápido do que a música. Os pais franceses acreditam que devem fornecer suporte e encorajar seus filhos, com muito amor, mas sem transformar a infância em um campo de treinamento! Eles acreditam que você deve incentivar as crianças de acordo com o estágio de desenvolvimento que ela se encontra: eles vão aprender a fazer muitas coisas em seu próprio tempo. Os pais franceses buscam deixar as crianças serem crianças e terem o tempo delas.

P&F: Você poderia nos dar um exemplo?

Pamela: Aprender a ler é um bom exemplo. Nos Estados Unidos, nós achamos que, se a criança começa a ler cedo, ela vai se dar bem na vida. Os franceses não concordam com isso (nem as últimas pesquisas que falam sobre o tema). Eles acham que ensinar uma criança de 3 anos a ler ocupa um tempo que deveria estar sendo usado para ensiná-la coisas de acordo com aquela idade, como cooperação, organização e empatia. 

P&F: Por que os pais franceses prezam por esse tempo sem as crianças por perto?

Pamela: Isso dá aos pais um descanso e dá às crianças uma mudança de cenário. A ideia é que todo mundo volte descansado e feliz em se reunir novamente. Uma psiquiatra infantil francesa, escrevendo sobre crianças, disse que, depois de algum tempo longe, você vai encontrar seu filho “mudado, ele terá aprendido a se comportar como um mocinho. Ele vai ganhar em independência”.

P&F: As crianças francesas são reprimidas? Como você pode observar isso?

Pamela: É verdade que as escolas francesas são muito rigorosas na questão disciplinar e de horários, por exemplo. Mas os franceses também acreditam que, se uma criança acha que tudo é negociável, isso vai tornar a própria criança e toda a família infeliz. Eles acham que aprender a lidar com frustrações é uma importante habilidade para toda a vida, afinal a vida também pode ser frustrante. O resultado disso tudo, de acordo com as minhas experiências, são menos birras e manhas e mais tempo livre e calmo para brincar. Quando eu pergunto para pais franceses o que eles mais querem para suas crianças, é sempre alguma coisa como “se sentir confortável na própria pele”, o que me parece ser um objetivo que vale muito a pena. 

P&F: Você poderia nos dar um exemplo?

Pamela: Aprender a ler é um bom exemplo. Nos Estados Unidos, nós achamos que, se a criança começa a ler cedo, ela vai se dar bem na vida. Os franceses não concordam com isso (nem as últimas pesquisas que falam sobre o tema). Eles acham que ensinar uma criança de 3 anos a ler ocupa um tempo que deveria estar sendo usado para ensiná-la coisas de acordo com aquela idade, como cooperação, organização e empatia. 

P&F: O que as mães de outras partes do mundo podem aprender com as mães francesas, levando em conta as diferentes realidades?

Pamela: Mães de qualquer lugar podem ensinar aos seus filhos paciência. Eu sempre imaginei que paciência era uma coisa que ou você nascia com ou não nascia. Mas os franceses acham que paciência é uma habilidade que você deve ensinar para as crianças, assim como você ensina o alfabeto ou a andar de bicicleta. Os franceses acreditam que as crianças são mais felizes quando não estão à mercê de suas próprias vontades. Os cientistas descobriram que os franceses estão certos: paciência é como um músculo, fica mais forte quando é praticada.

P&F: Como os franceses ensinam as crianças a terem paciência?

Pamela: Eles ensinam as crianças a terem paciência em detalhes do dia a dia. Por exemplo, se a criança tenta interromper, eles vão dizer para que ela espere. Mas isso vale para o outro lado também: se a criança está feliz, brincando, seus pais também não vão interromper. Eu acho que essas pequenas regras explicam por que as famílias francesas parecem ser mais calmas.

P&F: Por que é tão importante para os pais continuarem a fazer coisas juntos, sem seus filhos, como ir ao cinema, sair para jantar…?

Pamela: Os psicólogos franceses dizem que o casal é o fundamento da família,  então você deve mantê-lo sempre forte. Nos primeiros meses depois que o bebê nasceu, os pais dão a ele toda a atenção. Mas também precisam ir arrumando espaço para si. Uma revista francesa afirmou que, se a libido do casal não voltou entre quatro e seis meses depois do nascimento do filho, o melhor é procurar ajuda profissional! 

P&F: Para a Pais&Filhos, família é tudo. E para você? 

Pamela: Para mim, família é muito importante. Minha definição de família são pessoas às quais você pertence e que pertencem a você, não importa o que aconteça.

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