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É preciso falar sobre sexo desde pequeno

Gustavo sempre conversou com os pais sobre todos os assuntos, só faltou um

Redação Pais&Filhos

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Meus pais me criaram para o mundo, eles não cansam de repetir. Respeitariam o “meu” espaço, os meus ideais e decisões, desde que eu cumprisse com as obrigações com o estudo e com os valores de um ser humano ético. Nunca impuseram crença, credo, opiniões. Não invadiram meu computador, e tampouco espionaram meu quarto. Acompanhavam minha vida, porém sem inquéritos – acho que nunca dei trabalho.

Por outro lado, debatiam todo assunto que eu trouxesse à tona, não havia tabus: religião, vida, morte, política, qualquer um! Havia um tema, no entanto, que eu não alcançava, e sobre o qual eu não me permitia falar com eles: sexo.
 
Meus amigos já entendiam de sexo bem antes de mim. Na 6ª série já era matéria entre os meninos algo que para mim só seria natural a partir dos 20 anos… Acho que, se fui precoce para discutir política, deixei-me, em parte, ignorado durante um bom tempo, por não saber como agir.
 
A primeira vez que beijei na boca foi no 1º colegial, uma coisa meio armada pelos amigos. Eu era o único da minha turma que jamais havia beijado! Eu mal entendia o que estava acontecendo, eu não gostava da menina, mas o pânico do que pensariam os outros era ainda maior. Nunca havia falado absolutamente nada sobre beijo ou sexo com meus pais. No máximo sobre amor, e tudo muito romantizado. Eram pensamentos abstratos e expectativas, nenhuma ação. A poesia era minha amante e as musas iam passando sempre pelas páginas e nunca pelas minhas mãos.
 
Deixava meus pais bem longe desses meus pensamentos: se eles jamais tinham conversado sobre sexo com os pais deles, não acreditavam que seria importante fazer o mesmo com os próprios filhos. Não os culpo, mas penso se teria sido mais fácil se eles tivessem aberto essa porta para o diálogo ainda na minha infância.
 
Achei na internet boa parte das respostas que procurava e das minhas primeiras aventuras sexuais. Ser tímido ali não me atrapalhava. Minhas incertezas ali não me bloqueavam. As possibilidades foram nascendo e fui conhecendo melhor aquela parte de mim com a qual antes eu não sabia lidar. Hoje parece tudo tão distante que não consigo deixar de rir daquele menino inseguro…
 
Há alguns anos conversei com minha mãe sobre tudo isso, sobre como foi difícil para mim lidar com todas aquelas dúvidas e receios. Quando terminei de falar, ela olhou em meus olhos e disse: “Eu estava lá de olho em você o tempo todo, eu sabia. Se você me procurasse, eu te ajudaria. Mas se você não pediu auxílio, era porque precisava vencer esse desafio sozinho, e eu sabia que conseguiria.”
 
Eu sorri e compreendi: deve ser duro ver o filho aprendendo a andar na bicicleta sem rodinhas, vê-lo cair, mas lutar contra o desejo de acudi-lo a cada vez. Deve ser gratificante vê-lo crescer com a coragem de vencer os próprios medos. Mas é preciso falar sobre a bicicleta desde criança. E sobre sexo. 
 
Gustavo Braun, filho de Cássia e Sergio, é pós-graduado em marketing e apresentador. Virou celebridade na Internet com o perfil da @Nair Bello no Twitter e o Tumblr Fica Vai Ter Bolo, ambos de sua autoria. 

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