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Doce veneno

O açúcar está por toda parte, até onde você nem imagina

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

por Sally Kuzemchak
Tradução de Julia Rabahie, filha de Marina e Gilberto

Cecília cresceu sem comer balas e chicletes, porque sua mãe não deixava. Parece traumático, né? Mas não foi. Tanto que ela fez exatamente a mesma coisa com suas filhas. Karina, de 7 anos, e  Silvia, de 11, não comem alimentos muito açucarados. Sobremesa, só de vez em quando. Até aí, você deve conhecer algumas famílias que fazem o mesmo. Afinal, todo mundo sabe que não é nada bom exagerar no açúcar. A novidade, agora, é que apenas banir os doces pode não ser mais o suficiente.


Barrinhas de cereais, por exemplo, são opções de lanchinhos mais saudáveis, certo? Mais ou menos. Esse tipo de comida também contém açúcar. Pesquisadores da Universidade de Calgary, nos Estados Unidos, analisaram iogurtes e cereais feitos especialmente para crianças e descobriram que, em mais da metade deles, 20% das calorias eram compostas por açúcar.

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Tudo açucarado
Como existe, desde a década de 90, uma tendência a ingerir alimentos com baixos índices de gordura, os fabricantes começaram a substituir a gordura por açúcar. É por isso que você o encontra em alimentos que nunca imaginou serem adoçados, como molho de salada, bolachas salgadas, alguns pães e até salgadinhos.


“O açúcar está sendo consumido em quantidades massivas pelas crianças”, diz David Ludwig, pediatra e diretor do Centro de Prevenção à Obesidade, no Hospital das Crianças de Boston. Enquanto muitas crianças consomem níveis baixos dos nutrientes necessários para um crescimento saudável, como cálcio, ferro, vitamina D e potássio, o consumo de açúcares adicionados – aqueles colocados nos alimentos – alcançou níveis alarmantes. Calma: não é que não seja bom para as crianças consumirem o produto, na verdade o organismo precisa dele. Porém, especialistas recomendam não mais que cinco colheres de chá de açúcar adicionado, por dia.

Comidas com muito açúcar ou com muitas calorias contribuem para a obesidade, o que pode resultar em sérios problemas de saúde, até mesmo durante a infância. De acordo com a Associação Americana do Coração, dietas ricas em açúcar podem desencadear em aumento nos triglicérides, que é a medida das gorduras armazenadas em nosso organismo.  

A verdade nada doce
Açúcar é açúcar. Apesar de os fabricantes usarem mais de uma dúzia de diferentes tipos, o corpo não sabe a diferença entre eles. Cerca de 80% dos alimentos encontrados no mercado são adoçados com sacarose (aquele açúcar que usamos em casa), ou com xarope de milho rico em frutose, um líquido adoçante mais barato. Apesar de o xarope ter sido classificado como um “vilão nutricional” e o açúcar comum como uma opção mais saudável para o nosso metabolismo, a diferença entre eles é mínima. “Ambos os tipos, ao atingir o intestino, se quebram em duas moléculas: glicose e frutose”, diz Robert Lusting, professor de pediatria na Universidade da Califórnia.

O mesmo acontece com mel, melaço e açúcar cristalizado, por exemplo. Todos se transformam em moléculas de glicose e frutose no sistema digestivo e contribuem para calorias a mais na dieta da criança. Apesar de muitos pais procurarem alimentos menos processados, todos os tipos de açúcar sofrem processamento industrial, em algum nível.


O fator frutose
Robert lembra, ainda, que a maneira como a frutose é metabolizada pelo fígado é semelhante à forma como o álcool é processado. “Uma lata de refrigerante e uma lata de cerveja têm o mesmo impacto no fígado”, diz. “Frutose é álcool sem a tontura que este último provoca”. Ambos fazem o fígado desencadear uma produção de gordura que pode elevar os níveis de colesterol e gordura acumulada na barriga, além do consumo excessivo de comida. E, isso, para pessoas de qualquer sexo, até para animais! Em estudos feitos com macacos, a frutose não desencadeou a liberação do hormônio que avisa ao nosso cérebro qual é a hora de parar de comer. Quando acontece isso, a fome não passa e queremos mais comida, criando um círculo vicioso. Felizmente, o açúcar encontrado naturalmente na fruta – e, em menores quantidades, em vegetais – não é um problema, já que contêm fibras e saciam rapidamente quem está comendo.
Três maçãs pequenas é o que uma pessoa teria que comer para obter a quantidade de frutose contida numa lata de refrigerante. Além disso, as fibras nas frutas e nos vegetais desaceleram a digestão, o que faz com que o fígado não fique sobrecarregado com uma grande quantidade de frutose de uma vez só. “Crianças podem comer quantas frutas quiserem”, diz o doutor Robert. Mas cuidado com os sucos, que não funcionam bem assim.

O que você pode fazer
É difícil e desnecessário tirar todos os alimentos que contêm açúcar adicionado da dieta das crianças. Todas as dietas alimentares, inclusive as das crianças, devem incluir certa quantidade de açúcar.

Incentive atividades físicas
As crianças que praticam exercícios podem comer uma dose maior de açúcar, pois precisam de mais energia para gastar. É importante lembrar, também, que atividades físicas diminuem a velocidade com que o fígado converte a frutose em gordura. Assim, menos gordura entra na corrente sanguínea.

Repense a sobremesa
“Eu recomendo que as crianças comam sobremesa todos os dias, porque dá a sensação de a refeição ter chegado ao fim e, assim, ajuda na sensação de satisfação”, explica Robert. Frutas e pequenas porções de docinhos são uma boa opção nessa hora. Mas é sempre bom consultar o nutricionista para tirar dúvidas mais específicas.

Seja flexível
“Ser muito duro no controle de doces com os filhos só irá produzir efeitos negativos, porque eles vão desejar cada vez mais as guloseimas”, aponta Raquel. Há momentos em que saber ser flexível é muito importante. Então, é perfeitamente normal relaxar com algumas regras em eventos especiais, como festas de aniversário. “O que você compra para deixar em casa e os padrões de alimentação que você desenvolve junto com sua família são as coisas que mais importam”, diz a médica. Açúcar é uma delícia e a gente sabe que é difícil olhar para um doce e dizer não. Mas encontrando o equilíbrio, ele fica mais gostoso ainda.


Leia as letrinhas pequenas das embalagens
É importante olhar a tabela nutricional e os ingredientes de cada produto, checando a quantidade de açúcar que eles contêm. Os rótulos dificilmente distinguem o açúcar adicionado do “natural”, mas você pode usar a seguinte regra para medir o açúcar dos alimentos processados, como cereais e bolachas: cada 4 gramas de açúcar equivalem a uma colher de chá.

Regule bebidas adoçadas
Refrigerantes normais e sucos com muito açúcar adicionado devem ser encarados como uma regalia. Não devem ser consumidos diariamente. Se seu filho está tomando muitas bebidas com açúcar, uma opção é escolher bebidas com adoçante. Incentivar as crianças a tomarem mais água também é fundamental.

Use o açúcar estrategicamente
Se seu filho for comer açúcar, pense em alimentos mais saudáveis e menos calóricos para dar a ele, como iogurte, cereais e leite. Segundo Raquel Johnson, professora de nutrição na Universidade de Vermont, nos Estados Unidos, é importante considerar em que tipo de comida o açúcar vem. “É melhor que as crianças comam cereal do que balas ou refrigerante”. 

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