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Desabafo sobre amamentação

Sílvia SantAna fala da pressão da sociedade quando o assunto é amamentar

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

28/09/2012

Sílvia Sant’Ana de Oliveira, mãe de Davi.

“Bom, eu já estou querendo escrever sobre isso há algum tempo. Mas agora o negócio brotou na minha mente de um jeito que eu não posso deixar essa inspiração passar.
Ainda na faculdade de Psicologia, quando eu não estava nem perto de ser mãe, estudei e li vários textos (principalmente de autores ligados à Psicanálise e às áreas ligadas ao desenvolvimento infantil em geral) falando sobre a relação mãe – bebê. Aspectos psicológicos ligados à gestação, amamentação e maternidade em geral sempre me interessaram porque eu queria fazer carreira com crianças / famílias e, além disso, sempre quis ser mãe.
Venho pensando, especificamente sobre amamentação muito antes de ser mãe. Acompanhei várias amigas mães, li sobre o assunto e agora que eu sou mãe, tive a minha experiência e cheguei a uma conclusão.
E a minha conclusão é: no fim de tudo, ninguém, ou quase ninguém, consegue enxergar a mãe como sujeito nesse processo. A mãe é só o peito, o leite. Diz a ‘lenda’ que amamentar é um ato de amor. A mídia, a maior parte dos médicos e várias pessoas ‘comuns’ dizem que você tem de amamentar, custe o que custar, doa o que doer. Porque se você não amamenta, você deixa de ter uma vinculação fundamental com seu filho. Se você não amamenta, você não ama seu filho. Não importa se o seu peito está extremamente machucado, não deixe de amamentar! Não importa se o seu bebê fica 40 minutos em cada mama e você passa o dia super cansada e o bebê continua a chorar de fome. Não tire o leite com a bomba, faça a ordenha da maneira mais demorada. Não coloque o seu leite numa mamadeira para que alguém (o pai, por exemplo) possa te ajudar nos dias em que você estiver mais cansada ou machucada. Adote a livre demanda, ou seja, deixe o seu bebê mamar o tempo inteiro, quando quiser. São essas e outras que a gente ouve o tempo todo.
Não estou diminuindo a importância da amamentação (e no caso, da amamentação exclusiva). É claro que eu entendo que o leite materno é ótimo, rico em nutrientes necessários ao crescimento e desenvolvimento do bebê. E é claro que incentivar essa prática é bom e até necessário. A minha questão aqui é a pressão louca e desnecessária que é feita em cima disso.
Meu bebê tem quase 2 meses e está se alimentando de leite artificial. É claro que eu queria que ele se fartasse com o meu leite, mas o meu leite era pouquíssimo. Ele ficava mais de 40 minutos em cada mama e continuava a chorar de fome. Eu estava toda machucada, dormindo pouco e nada disso estava adiantando. O leite artificial entrou como complemento, mas como ele tinha (e ainda tem) muita fome logo o peito passou a ser o complemento. Meu marido e eu entendemos que era mais importante que o nosso filho estivesse alimentado, independente dos meios. Em pouco tempo o meu leite secou. E eu ainda tive que ouvir coisas do tipo: “é… o leite secou porque não estimulou né?” com aquele olhar condenador. Entretanto, nenhum dos meus “condenadores” veio passar um dia comigo para ver a angústia do meu bebê faminto tentando sugar um leite que não vinha, ou vinha em gotas.
Querendo ou não, lá no fundo a gente fica numa situação de conflito interno por conta de toda essa pressão. O terrorismo em torno das mamadeiras, das fórmulas de leite artificial e a piração com a amamentação é tão grande que tem de ser muito ‘zen’ ou completamente descolada pra não se sentir ‘contra a parede’, principalmente quando se é mãe de primeira viagem. A maior parte dos pediatras e os ‘radicais fundamentalistas’ em geral da amamentação querem pular no seu pescoço quando você diz que está dando mamadeira. Mas eles não param para te perguntar como você está se sentindo, quais são as dificuldades, e quando você fala, geralmente é interrompida pelas frases: “é, mas tem que insistir. Não pode parar de amamentar.” Será que é difícil perceber que quem está ali não é um ‘peito falante’ e sim uma pessoa?
E pensando desta forma, minha lógica me leva a crer que vários casos de Depressão Pós-Parto, Desordens de Humor ou de Ansiedade de mães podem ter seu estopim aí. Tem mãe que absorve tanto os ‘dogmas da maternidade perfeita’ que acaba ‘pirando’ porque realmente acredita que não será uma boa mãe se não amamentar o bebê com seu leite, por exemplo.
Depois de ligar as ideias e refletir, eu entendi o seguinte: amamentar NÃO é um ato de amor. É o ato de alimentar o seu filho, como outro qualquer. A vinculação fundamental com o bebê não depende do aleitamento materno. Você e seu bebê não vão se amar mais só porque o seu peito está na boca dele. Eu sei que tem um monte de mães ‘dando o sangue’ para manter seus bebês exclusivamente no peito, mas elas passam seus dias exaustas e o momento de amamentar, assim como qualquer outro, não se torna especial em nada.
Meu bebê mama na mamadeira, mas quando ele está mamando nós temos um momento especial. Ele se aconchega no meu colo, segura meu dedo, nós olhamos nos olhos um do outro, eu faço carinho nele, converso com ele…às vezes ele até adormece como um anjinho. E o meu marido também tem a oportunidade de viver esse momento com nosso filho, já que a mamadeira não é um “privilégio” só meu. Ele tem prazer em poder dar de mamar ao nosso filho nas madrugadas dos fins de semana para que eu possa ganhar umas horinhas a mais de sono.
E tem mais: vínculo com o bebê se faz ao longo dos dias, não só na alimentação. Amor, a gente demonstra de várias formas. O vínculo é feito no toque, nos olhares, na voz. Quando meu bebê está acordado eu tenho um tempo de qualidade com ele. Embora ele seja pequeno ainda, eu paro pra brincar, cantar pra ele, conversar, dar beijinhos, prestar atenção nas coisas novas que ele aprende e faz a cada dia.
Nós não precisamos ser mães perfeitas. Precisamos ser mães suficientemente boas, como diria Winnicott. Nossos filhos precisam de nós como pessoas inteiras, não só do nosso peito. Então minha querida, se você, como eu, não consegue ou não pode amamentar, relaxe, curta sua maternidade, ame seu bebê e, quando ele tiver fome, ofereça o que for possível e apropriado”.
 

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