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Culpa de quê?

Qualquer mãe sente, pouca ou muita

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

Por Mônica Dallari, mãe de Bruno, João e Dalmo

Parece que não tem jeito mesmo, ela nasce junto com o bebê. Quando qualquer coisa não corre exatamente da maneira que a mãe idealizou, lá vem aquele sentimento. O filho levou um tombo fazendo piruetas no escorregador? Eu devia estar olhando, a culpa é minha. A criança chora de se acabar na hora em que você cruza a porta de casa? Sou eu que trabalho demais, pensa a mãe, mesmo que, um minuto depois, o inconsolável esteja brincando. Não adianta saber que todas as crianças normais se machucam e que o seu filho fica muito bem com a babá. No seu caso, tudo é diferente.  
Mãe que é mãe se sente 100% responsável pela felicidade dos filhos e por tudo o que acontece a eles. Por isso, o cargo pressupõe também assumir o seu lado mulher elástica. Senão, como conciliar crianças, casa, profissão, marido e um pouquinho de vida própria? Como se não bastasse essa sobrecarga, decidimos que precisamos ser perfeitas em tudo. E, na maioria das vezes, a culpa que a Sra. Perfeição sente tem muito mais a ver com a imagem que ela projeta do que seria a mãe ideal do que com as necessidades reais da criança. Por exemplo: às vezes, ficamos péssimas porque só vemos o filho de manhã e passamos o dia imaginando como a nossa falta está prejudicando o coitado. No outro extremo, tem mãe que é dona de casa e vive achando que não será um bom exemplo de emancipação feminina para as filhas. Enquanto isso, as crianças estão tranqüilas, nem aí para todas essas neuras.
“Quando acontece algo errado, mesmo que não seja nada relacionado comigo, acabo sempre assumindo a culpa, como se sempre tudo dependesse só de mim”, admite Claudia Nosralla Castanheira, mãe de Pedro, 11, Tiago, 8, e Daniela, de 1 ano, dedicada integralmente aos filhos. Helena Oliveira, mãe de Daniel, 8, Pedro, 6, e Otávio, 4, que trabalha em casa como tradutora, tem a mesma sensação. “Sinto que o tempo em que fico no computador deixo de dar atenção a eles.”

Psicologia distorcida

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Uma leitura torta de conceitos de psicologia e psicanálise acabou transformando os pais em culpados por todos os problemas que o filho venha a ter. E ainda precisamos participar, estimular, elogiar… Ser boa mãe virou sinônimo de acompanhar as crianças minuto a minuto. Para o sociólogo inglês Frank Furedi, professor da Universidade de Kent, a preocupação obsessiva dos pais provocou uma mudança fundamental. “Bons pais eram associados a orientação e apoio à socialização das crianças para que pudessem assumir cada vez mais a sua independência. Hoje, ser bom pai está ligado a monitorar suas atividades. As crianças nunca são deixadas sozinhas.” E, com a mãe na cola o tempo todo, fica difícil criar filhos que serão seguros e autônomos lá na frente.
Filhos criados, culpa dobrada. Esse parece ser o dilema de Ângela Emílio, mãe de Luís Antônio, 26, Luís Felipe, 22, e Anna Paula, 20. “Agora que sou uma mãe madura penso que a culpa só piora, já que você começa a se sentir também culpada por não ter feito diferente”, lamenta.
Como se não bastasse todo esse controle, os pais hoje se preocupam com as oportunidades futuras dos filhos. “O que está difícil é corresponder às exigências e aos ideais dos pais, que estão com dificuldade de olhar o presente, já que o mercado parece estabelecer a vida dos indivíduos daqui a 20 anos”, constata a psicanalista Claudia Mascarenhas, mãe de Pedro.
Para o psicanalista e pedagogo João Augusto Pompéia, da PUC de São Paulo, pai de Marina, Pedro e Paulo, os pais projetam nos filhos os adultos que querem que eles sejam. Isso provocou uma alteração radical na exigência que os pais fazem de si mesmos. “Antes, o modelo para educar os filhos eram os próprios pais”, explica. “Faço isso com os meus filhos porque meus pais fizeram comigo, ou faço isso porque eles não fizeram”, exemplifica. Porém, a mudança de objetivos foi tão grande que as referências não servem mais. Ser boa mãe virou sinônimo de sempre se exigir mais e mais, no limite do impossível.
“Nasci em uma família onde pai e mãe sempre trabalharam fora. Eles não tinham muito tempo para brincar com a gente, mas nunca achei que isto era problema. Por que hoje precisamos ser tão perfeitas?”, questiona Ângela Emílio. “Parece que mãe e culpa são para sempre”, Claudia Castanheira também ironiza.

Independência ou morte

A ironia é que, ao se tornar mais independentes, as mulheres criaram uma nova dependência: a do sentimento de culpa. Se voltarmos um pouco no tempo, vamos lembrar a época dos nossos avós, quando a autoridade era inquestionável. “Minha mãe criou 11 filhos, e eu nunca a vi sentir culpa de nada”, afirma a psicanalista Besita Suplicy, mãe de Roberto, Tereza, Paulo, Helena e Pedro.
Pressionados pela educação autoritária, os filhos se rebelaram. Veio então a geração dos pais amigos dos filhos, para a qual tudo era permitido em nome da maior liberdade e reprimir passou a ser sinônimo de autoritarismo. E isso acabou criando um equívoco: “Os pais podem ser amigos dos filhos, mas tem de haver uma diferenciação no papel de cada um, porque às vezes viram tão amigos que acabam perdendo o respeito e a autoridade perante eles”, afirma Besita.
A conseqüência foi o surgimento de jovens sem limites, com dificuldades de assumir responsabilidades. As regras de convívio social eram bem diferentes das vividas dentro da família, e os jovens passaram a enfrentar problemas para desenvolver projetos de vida. “Surgiu então nos adultos a preocupação de serem efetivamente bons pais”, constata Pompéia. Eles passaram assim a controlar mais as atitudes dos filhos, assumindo a autoridade. Porém, para lhes proporcionar tudo o que consideram essencial para que se tornem adultos de sucesso, aumentaram-se as exigências e o tempo ficou pequeno. Junto veio o estresse. Como ser rigoroso e controlar os filhos no pouco tempo que sobrou? Essa se tornou a fórmula que deu a cara da culpa aos nossos dias.
Na crônica “Aprendendo a Viver”, Clarice Lispector cita o filósofo americano Thoreau que, já no século 19, dizia: “A opinião pública é uma tirana débil, se comparada à opinião que temos de nó mesmo”. E recomendava “Tenha pena de si mesmo, seja menos duro consigo”. Então… Pratique.

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