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Coruja no espelho

Redação Pais&Filhos

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De repente, você olha no espelho e pensa “você é pai de alguém”. Até agora, pai era o seu pai.
 
por Luís Mauro Sá Martino, pai de Lucas, é formado em comunicação, com doutorado em Ciências Sociais. É jornalista e professor na Faculdade Cásper Líbero. 
 
“Levanta que seu filho vai nascer.” 
Foi o que o médico disse na sala de parto, às 11h32 da manhã, do dia 14 de dezembro de 2011. Levantei da parte de trás do campo cirúrgico, onde estava com a Anna, e olhei. Apareceu um tufo de cabelos pretos, depois um par de ombros e, finalmente, um nenê. Ele estava um pouco azul. Por um décimo de segundo, fiquei em um infinito suspense. 
O obstetra fez um movimento final e ouvi 
a voz de meu filho pela primeira vez. 
Imediatamente, duas enfermeiras embrulharam o Lucas e o colocaram em um aparelho semelhante a uma chapa, dessas de padaria. (A comparação não é minha, porque o médico, já com um sorriso despreocupado, brincou: “Agora vão grelhar seu filho, até ficar na temperatura certa”). E trouxeram para segurar.
Instintivamente, segurei o Lucas na posição certa. Quando seu filho nasce, uma região do seu cérebro intitulada “Cuidar de Bebê” é destravada e, automaticamente, você descobre que sabia um monte de coisa – segurar, trocar fraldinhas, alimentar, brincar. O nível de paciência no sangue sobe uns 50% e você descobre que é possível viver quase sem dormir. E aprende a corujar. “Corujar” não está no dicionário, mas significa “curtir o filho”, “brincar com o garoto” ou “ficar olhando ele descobrir o mundo e achar o máximo”.
Não se vira pai de uma hora para outra. É aos poucos. Quando o exame de gravidez dá positivo a alegria é imensa, mas pouco muda. Depois, devagar, as coisas do bebê vão aparecendo e a casa, aos poucos, vai sendo colonizada por produtos infantis. 
É estranho levantar um dia, olhar no espelho e dizer para a figura que aparece “você é pai de alguém”. Afinal, até outro dia “pai” era o seu pai. A imagem no espelho continua a mesma, mas você é pai.
Um dia ele sorri para você. Varia de bebê para bebê. No caso do Lucas foi aos três meses e pouco. Vale mais do que medalha olímpica, prêmio, achar dinheiro na rua. Quanto mais o tempo passa, mais a gente interage. E vão sendo criados mais vínculos, mais laços. E há várias outras descobertas. 
Descobrir, por exemplo, o quanto falta para quebrar algumas ideias. Ao longo destes meses, em vários momentos, já recebi olhares esquisitos de homens quando me veem dando mamadeira, trocando ou simplesmente levando o Lucas no colo. Não é “coisa de homem” (que será que isso quer dizer hoje em dia?) para eles. Ou ouvir insinuações de que “cuidar do filho” é tarefa da mãe, o pai (como escutei uma vez) “tem que ser mais frio, mais distante”.
Mas é legal descobrir, por outro lado, que não sou o único a fazer isso. Um número cada vez maior de homens divide o cuidado dos filhos com a mãe – afinal, o projeto é em co-autoria. Saindo sozinho com o Lucas, geralmente encontro outros homens em voo solo com o filho. São trocadas dicas, estratégias e ideias. 
E ver que há solidariedade. Nos caixas de supermercado, atravessando a rua ou simplesmente passeando com ele, nota-se que há muita gente disposta a ajudar, seja dando passagem, seja tendo um segundo a mais de paciência no trânsito. 
A experiência é intensa. As coisas ganham novas proporções e tudo vira muito – muito cuidado, muita preocupação, muita alegria, muitas novidades. A vida fica mais intensa, e o tempo ganha novos contornos. E, de repente, ele está crescendo e o bebê que apareceu oito meses atrás ensaia engatinhar, tem dentes, pega objetos, brinca e, com um pouco de sorte, daqui a pouco vai brincar neste teclado.  

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