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Cesárea: 9 razões para desmarcar

leia nossa matéria e repense a escolha pelo parto cirúrgico

Redação Pais&Filhos

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Se você já agendou o parto cirúrgico, leia essa reportagem e pense de novo. Pode ser que você mude de ideia

Por Paula Montefusco, neta de Florinda, Mario, Maria e Ângelo

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No Brasil, quando alguém pergunta para uma grávida quando nasce o bebê, muito provavelmente vai ouvir mês, dia e hora. O Brasil está entre os recordistas mundiais em cesárea. Em 2006, registramos uma taxa de 80,7% de partos cesarianos na rede particular. O SUS, responsável por 80% dos partos realizados em território nacional, teve 30% de cesarianas, quando o recomendado pela Organização Mundial da Saúde é de, no máximo, 15%. Ao todo, 40% dos partos realizados no Brasil são cirúrgicos, por uma série de motivos que já discutimos aqui: a baixa remuneração dada pelos convênios, comodidade dos médicos e, sim, preferência de muitas das mães, que querem ter controle sobre a data de nascimento do filho e pensam também evitar a dor. Entre as consequências está o aumento de bebês prematuros, com todos os problemas decorrentes, entre eles necessidade de internação na UTI. Um estudo da Unifesp revelou que, no Brasil em média 60% dos nascimentos acontecem por volta da 37ª ou 38ª semana de gestação. Convencida?

Se ainda está na dúvida, reunimos nove motivos para você desmarcar a cesárea e considerar o parto normal, mesmo que seja o induzido, quando são usados medicamentos que simulam os hormônios liberados no trabalho de parto. Ele pode ser melhor do que a cesárea porque mãe e filho passam pelo trabalho de parto, juntos. No caso de gestações de alto risco, como as de mulheres que têm pré-eclampsia ou diabetes gestacional é possível fazer o parto normal sem problemas, contanto que as doenças estejam sob controle. Caso seu problema com o parto normal seja medo da dor, lembre-se de que, na cesárea ela também existe, não durante, mas depois: a recuperação é mais longa e dolorosa.

Para ativista do parto humanizado britânica Janet Balaskas, autora do livro Parto Ativo, o parto normal não precisa ser uma experiência dolorosa. Segundo Janet, a mulher deve tomar as rédeas de seu próprio parto. Para isso, ela trabalha com exercícios e posições baseados na yoga, em que a grávida mentaliza a criança e como o processo está sendo realizado pelo seu ponto de vista. É uma tentativa de se colocar no lugar do outro para percorrer o trajeto do trabalho de parto em vez de apenas sofrer com as contrações. Mas, para quem não está tão centrada assim, sempre dá para pedir ajuda ao anestesista. E se você não mudar de ideia, tudo bem, a gente faz coro com a obstetra Luciana Taliberti que resume tudo: “O melhor parto é o que seja bom para mãe e bebê, o importante é que ele nasça com saúde e que o parto tenha um resultado feliz."

1 – Você não precisa dela
“Em 90% das vezes a mulher não precisa de cesárea, ela pode parir sem ela. Então para que marcar a cirurgia?”, questiona a obstetra Andrea Campos. Segundo a médica, os principais motivos para considerar fazer uma cesárea acontecem durante o trabalho de parto e não podem ser previstos com antecedência, como a dificuldade de o bebê descer pelo canal de parto. Outras indicações comumente usadas para justificar a cesárea geralmente podem ser contornadas, como circular de cordão (quando o cordão fica enrolado em torno do pescoço do bebê), que acontece em 30% dos casos. A ausência de dilatação, justificativa usada em grande parte das situações pode ser explicada pela falta de contrações regulares. Se a mulher está sem dilatação, provavelmente ainda não entrou em trabalho de parto, pois, para haver dilatação, é necessário haver contrações. Caso a mulher não entre em trabalho de parto, ainda é possível induzir as contrações com uso de hormônios injetados na veia ou com ruptura da bolsa, que pode estimular o início das contrações nas primeiras 24 horas.

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2 – O bebê tem de estar pronto para sair
É muito comum acontecer um erro de cálculo e o bebê nascer com a idade gestacional abaixo do esperado. O médico pode achar que está tirando uma criança com 39 semanas e ela ainda tem 37 ou 38, por exemplo. Por mais que os ultrassons atuais sejam bastante precisos, isso ainda pode acontecer. O problema é que, se você fizer a cesárea antes que o bebê esteja pronto, os pulmões dele podem não estar prontos. Como os pulmões são os últimos órgãos a se formar, pode acontecer de eles não estarem maduros o suficiente para uma vida extrauterina. Aí podem acontecer casos de desconforto pulmonar: o bebê tem dificuldade de respirar e pode precisar da ajuda de aparelhos ou, ainda ter de passar um tempo na UTI. Segundo Laura Gutman, autora do livro A Maternidade e o Encontro com a Própria Sombra, o conceito de data provável de parto não pode ser levado ao pé da letra porque se trata de uma estimativa: “Realizar uma cesárea antes do início do trabalho de parto é uma prática perigosa, na maioria dos casos irá nascer um bebê prematuro."

3 – Se o bebê não passa pelo canal vaginal da mãe ele deixa de receber bactérias importantes para a formação de seu sistema imunológico
Quando ele passa pelo canal sua pele é colonizada pelas bactérias da mãe. Esse contato é importante para a defesa do organismo porque, logo que vier ao mundo, já vai ter de lidar com bactérias estranhas ao seu organismo, como as do próprio hospital. Mas cuidado, esse contato pode também expor a criança a doenças transmissíveis pelo contato com a genitália da mãe como a hepatite B e C, HPV, herpes genital e HIV.  Se a mãe fez o pré-natal direitinho, as chances de que o bebê contraia doenças desse tipo é muito menor. Uma das teorias é que o contato com as bactérias maternas seria um fator protetor contra alergias. Um estudo finlandês publicado no Journal of Allergy and Clinical Imunology mostrou que pessoas que nasceram de cesárea são três vezes mais suscetíveis a manifestar asma.

Outra pesquisa, feita na Alemanha e publicada no Pediatric Allergy and Immunology, descobriu que bebês que nascem por cesariana têm mais chances de desenvolver alergias alimentares até os dois anos de idade. Já um estudo feito em 2008, e que acompanhou crianças desde o nascimento até os 9 anos verificou que crianças nascidas por cesárea com pais que tinham alergia ou asma tinham duas vezes mais chances de desenvolver alergia e rinite alérgica. Uma pesquisa da USP levantou que, em crianças que nascem de cesárea, as chances de desenvolver um quadro de obesidade ao longo da vida aumenta em 58%.

O estudo acompanhou 2.057 pessoas do dia do nascimento aos 25 anos e descobriu que 15,2% dos bebês nascidos por cesariana estavam com o Índice de Massa Corpórea acima de 30 – o que indica obesidade. Entre aqueles que nasceram de parto normal, apenas 10% eram obesos. Outra doença mais comum entre pessoas que nascem de cesárea é a diabetes tipo 1. É isso o que diz um estudo da Queen’s University, no Canadá. Segundo a pesquisa, bebês nascidos por cesariana têm 20% mais chances de desenvolverem diabetes tipo 1.

Outro risco é de desenvolver doença celíaca, caracterizada pelo “autoataque” do organismo ao intestino delgado quando são ingeridos alimentos que contém glúten como trigo, centeio, cevada, aveia e malte. De acordo com uma pesquisa desenvolvida pela Universidade de Medicina de Hannover, na Alemanha, a probabilidade de ter a doença celíaca é 80% mais alta em crianças que nascem por cesárea.

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4 – Quem tem que decidir a hora de sair é o bebê
“Quando o bebê está pronto, ele dá o ‘start’ para o trabalho de parto”, defende a obstetra Andrea Campos. Durante o trabalho de parto, o bebê sofre influência de uma cascata hormonal, com as contrações ele recebe a massagem intrauterina e é avisado de que vai nascer e pode se preparar até que finalmente nasça. “E, para passar pela bacia, o bebê ajeita sua cabeça, descendo de uma maneira ativa pelo canal de parto. Na cesárea isso não acontece, o bebê nasce de maneira passiva porque é retirado do útero”, completa.

5 – Se ele não recebe a massagem nos pulmões ao sair, o risco de desconforto respiratório aumenta
No parto normal, a passagem pelo canal vaginal comprime o tórax do bebê e estimula a saída do líquido amniótico para que o ar possa entrar. Se isso não acontece, o bebê fica com dificuldade para respirar e tem de receber oxigênio artificialmente ou ser entubado. Os casos de desconforto respiratório correspondem a 60% das internações na UTI Neonatal. “Aproximadamente 12% dos bebês que nascem de cesariana eletiva (a cesárea marcada) vão para a UTI. No caso dos bebês que nascem de parto normal, o número cai para 3%”, conta Renato Kalil, ginecologista, obstetra e especialista em reprodução humana.

Segundo dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), fetos de 37 a 38 semanas de gestação possuem 120 vezes mais chances de apresentarem desconforto respiratório desta ordem em comparação aos fetos com mais de 39 semanas.

6 – No pós-parto a recuperação é mais lenta e dolorosa
O tempo de internação do parto normal é de 48 horas após o nascimento, para a cesárea este número sobe para 72 horas. E, enquanto depois do parto normal já dá para retomar as atividades de rotina no dia seguinte, na cesárea o tempo para realizar tarefas simples como dirigir podem levar até dez dias. O corte da cesárea atinge sete camadas de pele, tecido e músculo até chegar ao bebê. São eles: pele, gordura, fáscia muscular, músculo, peritônio parietal, peritônio visceral e útero. Depois de retirar a criança, cada camada é costurada separadamente. Ao todo são cerca de 75 pontos. O abdômen fica distendido e a mulher sente dor por duas ou três semanas.

7 – A cesárea oferece maior risco de complicações maternas
Sendo uma cirurgia de médio porte, a cesárea oferece todos os riscos de uma cirurgia, seja durante a operação em si, durante o período de analgesia ou no pós-operatório. Como em todas as cirurgias, existe o risco de sangramentos, complicações e infecções. Na cesárea a mulher perde cerca de um litro de sangue, o dobro do parto normal. Dados divulgados pela ANS atestam que a mortalidade materna é 2,8 vezes maior nas cesarianas eletivas sem emergência do que no parto vaginal.

8 – A cesárea aumenta os riscos de complicações na próxima gravidez
Se a mulher já fez uma cesárea há o risco de que ela tenha placenta prévia, que é a fixação da placenta em um lugar indevido da parede uterina causando maior risco de hemorragia (por vezes ela se aloja no colo do útero e a mãe precisa ficar em repouso absoluto) e prematuridade. Entram para a lista de riscos a placenta acreta, que é quando a placenta se fixa à parede do útero intensamente, provocando hemorragia ao sair. A mãe pode precisar de transfusões sanguíneas e ter ruptura uterina ou até precisar retirar o útero, impossibilitando-a de ter mais filhos.

Insistir na cesárea é algo comum, não é à toa que a gente ouve falar: "uma vez cesárea, sempre cesárea". Mas é possível, sim, fazer um parto vaginal depois de uma (duas, três…) cesárea(s). Apesar disso, nos Estados Unidos, a incidência de cesáreas recorrentes é de 92%. Em média, 66% das mulheres que fazem cesárea por lá poderiam ter tido o segundo filho por VBAC, sigla para Vaginal Birth After Caesarean (parto vaginal depois de cesárea), mas a maioria escolhe a cesariana novamente.

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9 – O leite demora mais para descer
A ocitocina, um dos hormônios que provocam as contrações também é responsável pela descida do leite, razão pela qual a taxa de sucesso na amamentação é maior nas mulheres que tiveram parto normal. Depois do parto normal já é possível colocar o bebê sobre o corpo da mãe, sugando o peito. Na cesárea isso não é possível porque o abdômen da mãe está aberto e tem que ser fechado depois da saída do bebê.

A Organização Mundial da Saúde aconselha que o bebê mame já na primeira hora de vida e isso acontece com maior freqüência com crianças que nascem de parto normal. Segundo estudo da Fiocruz isso acontece com 22,4% dos bebês que nasceram por parto normal contra 5,8% dos bebês que nasceram por parto cesariano. Ainda de acordo com o estudo, a primeira mamada pós-parto demora em média quatro horas para mães que fizeram parto normal e dez horas para aquelas mães que tiveram seus bebês por cesárea. Sem contar que, caso o bebê nasça prematuro por erro de cálculo na data ideal de nascimento, pode ainda não conseguir sugar o seio e precisar receber alimentação artificialmente. Claro que muitas mulheres que fizeram cesárea amamentam sem problema, mas que é um fator desfavorável a mais, isso é.

Quando a cesárea pode ser uma boa opção (ou não)
Aqui a cesárea não é obrigatória, mas talvez seja uma boa opção. Converse com seu médico e veja o que ele tem a dizer caso você se encaixe em uma destas situações

Gravidez gemelar  
O trabalho de parto pode se estender e a oxigenação dos bebês pode ficar comprometida

Bebê pélvico ou transverso
Existem manobras para colocar a criança na posição certa para nascer. Quando elas não dão certo, não tem jeito, tem que ser cesárea

Criança com circular de cordão
Dependendo do lugar em que elas estão e da quantidade, a cesárea pode ser o mais recomendado

Bebê prematuro
Quando o bebê é muito novo pode ser considerado muito sensível para passar pelo canal vaginal

Quando a cesárea é necessária?
Às vezes optar pela cesariana é uma questão de vida ou morte, mãe ou bebê podem estar em perigo e é preciso fazer o parto rápido. Fique de olho para estas condições

Desproporção cefalo-pélvica
A cabeça da criança é muito grande em comparação à bacia da mãe. Mas isso só pode ser constata do uma vez que a mulher está com dilatação total. Então, mesmo se você faz o tipo mignon não se preocupe antes da hora

Sofrimento fetal
E isso não quer dizer, necessariamente, mecônio no líquido amniótico (as primeiras fezes do bebê, que tingem o líquido de verde). O médico vai analisar os sinais vitais da criança e a progressão do trabalho de parto para ver se o parto normal é viável ou não

Eclâmpsia
Quadro de hipertensão característico à gravidez, nela, a mãe apresenta convulsões, inchaço e pressão alta. Para evitar que o quadro se agrave e a mãe morra, a solução é fazer o parto assim que a criança puder sobreviver fora do útero

Placenta prévia total
Quadro em que a placenta é fixada na saída do canal vaginal, impedindo a passagem da criança

Para saber mais
 


Como vai ser meu Parto, Doutor?, de Jorge Hodick
O livro é curto, mas explica como vai ser o parto e pós-parto, bem rapidinho, só com o que interessa. Ed. Mercuryo (www.mercuryo.com.br), R$ 28


Parto Ativo, de Janet Balaskas
Tem dicas de exercícios que fazem com que o parto transcorra com o mínimo de intervenções. Ed. Ground (www.ground.com.br), R$ 45


A Maternidade e o Encontro com a Própria Sombra, de Laura Gutman
A autora convida a mãe a descobrir o lado menos cor-de-rosa da maternidade e a influência que a criação de um filho teve sobre sua maneira de ser. Ed. Best Seller (www.record.com.br), R$ 39,90

Consultoria: Ana Cristina Duarte, mãe de Julia e Henrique, obstetriz, www.maternidadeativa.com.br  Andrea Campos, filha Maria Ester e Homero, ginecologista obstetra e médica antroposófica, www.casamoara.com.br, tel.: (11) 5096-2318  Carlos Eduardo (Cacá) Correa, filho Sylma e Victor, pediatra neonatologista, tel.: (11) 3672-6561  Carlos Eduardo Czeresnia, pai de Debora, Liora, Diana, Jonathan, Ricardo, obstetra, www.celulamater.com.br, tel.: (11) 3067-6700  Catia Chuba, mãe de Gustavo e Beatriz, ginecologista obstetra antroposófica, mestre pela USP, www.clinicatobias.com.br, tel.: (11) 5687-3799  Laura Gutman, mãe de Micaël, Maïara e Gaia, psicoterapeuta familiar e escritora, www.lauragutman.com.ar  Luciana Taliberti, mãe de Eduardo, ginecologista obstetra do Hospital São Luiz, tel.: (11) 3044-0020  Mariana Nudelman, filha de Victor e Cristina, pediatra, tel.: (11) 3256-1818  Renato Kalil, pai de Beatriz, Carolina e Isadora, ginecologista obstetra dos Hospitais Albert Eistein, Sírio Libanês e São Luiz, e especialista em reprodução humana, www.renatokalil.com.br

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