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Cada vez mais espertas

Em 1968, as crianças achavam que os pais sabiam tudo. Hoje, elas sabem mais que a gente sobre muita coisa: smart TVs, smartphones, tablets...

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

“Pai, o que é aliás?”, perguntava o menino na reportagem publicada pela Pais & Filhos em 1968. A chamada de capa para a matéria, que tratava da fase dos porquês,era “Meu filho pensa que eu sei tudo”. Na época, os pais se viravam para responder consultando…a enciclopédia. Toda casa que se prezava tinha uma. Quem engravidava começava imediatamentea colecionar. Tratava-se de bem familiar, atualizado, no máximo, de geração em geração.

Hoje, quem tem filho quer ter smartphone, tablete, smart TV. Calcula-se que 40% das TVs no país já sejam smart e que, em dois anos, todos os aparelhos brasileiros terão a tecnologia, que traz conteúdo 3D, permite acessar a internet e vem com uma série de apps, como games infantis, YouTube, Skype e Netflix. Assistir TV e postar comentários em redes sociais, a chamada SegundaTela, já é um hábito de 73% dos brasileiros.

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Família unida

Quando parecia que a tecnologia iria isolar cada membro da família com seu gadget pessoal, eis que a TV volta a ser o ponto central da casa, reunindo o clã. Um dos aplicativos mais populares entre as famílias é o Skype, que permite fazer ligações gratuitas em vídeo e já tem 22 milhões de usuários no país, 43% via Smart TV. Ainda é menos que no celular (59%), mas com vantagem, pois dá para reunir todo mundo no sofá e ver os outros familiares na telona.

“Começamos a usar quando estávamos em Recife, para falar com a família que morava em São Paulo. Hoje, usamos para falar com amigos que moram em outras cidades”, conta a blogueira Loreta Berezutchi, mãe de Pedro e Catarina, do blog Bagagem de Mãe (bagagemdemae.com.br). Já Catarina, filha de outra blogueira, Nívea Salgado, do Mil Dicas de Mãe (mildicasdemae.com.br),acessa o Netflix e escolhe os desenhos que quer ver pelo app do iPad.

Segundo pesquisa realizada pela LG em maio deste ano, 53% dos usuários de smart TV têm filhos, sendo que 79% até 14 anos. Depois da própria pessoa que respondeu a pesquisa, quem mais usa o aparelho são as crianças. A LG desenvolveu um controle sensível ao movimento do corpo, como o do videogame Wii, com menos botões e que atende a comandos de voz. Com a vantagem que a smart TV é um ambiente seguro, em que os pais podem controlar o que os filhos acessam.

Pergunte ao Google

Hoje, as crianças já sabem que os pais não sabem tudo. Aliás, perto da imensidão de informação na internet, elas já sacaram que a gente sabe muito pouco. Pesquisa feita pelo Birmingham ScienceCity mostra que, na dúvida, 54% dos entrevistados dos 6 aos 15 anos preferem perguntar ao Google do que aos pais ou professores. Só 25% das crianças recorrem aos pais em caso de dúvida. Enciclopédia? Quase metade das crianças (45%) nunca usou uma.

Os games, antes alvo de preconceito, hoje são usados até por grandes empresas para testar as habilidades dos candidatos a trainee. A intimidade com a tecnologia, antes vista com desconfiança, agora é encarada como positiva e, mais do que isso, necessária. “A facilidade que crianças cadavez menores têm em usar iPad, iPhone e similares vai ser fundamental na competição por trabalho no futuro: elas desenvolvem uma percepção diferentedo mundo e de sua velocidade”, afirma Mari Eva, mãe de Gael, colunista do site da Pais & Filhos e CEO do TV Square (tvsquare.com.br), rede social que reúne o que é discutido sobre televisão noTwitter e no Facebook, além de permitir ao usuáriointeragir com conteúdo ligado à programação.

Claro que não dá pra deixar a criança em frente à TV o dia todo, por mais smart que ela seja, nem permitir que o smartphone ou o tablet sejam seus únicos brinquedos. Crianças pequenas precisam desenvolver a chamada motricidade fina e a imaginação. Para isso, os brinquedos tradicionais ainda são fundamentais. “Os adultos se encantam com a habilidade das crianças. Claro, o exercício permanente dos games, desde o começo da vida, habilita as novas gerações a fazer o que para nós,adultos, é uma reaprendizagem. Por outro lado, a habilidade que nasce do rabisco, que vai desembocar na escrita e no desenho, começa a perder lugar”, diz a psicanalista Anna Veronica Mautnerem seu livro Ninguém Nasce Sabendo – Crônicas sobrea Educação no Século 21 (Summus Editorial).

Segundo ela, ao errar um comando num game, precisamos refazer a operação. Em um desenho, não basta refazer: é preciso retificar, corrigir, verificar e aperfeiçoar.

Geração touchscreen

Há quem diga que os bebês de hoje já nascem sabendo lidar com a tecnologia. É a geração touchscreen, para quem teclas não fazem sentido. “Meu filho de 1 ano não fala nenhuma palavra, mas já tem um gesto que ele inventou para identificar epedir o iPad”, conta Mari Eva.

Nossos filhos crescem em um ambiente em que o digital é o padrão. Segundo um novo ditado, se você não sabe usar alguma nova tecnologia, pergunte a alguém mais novo. Quando uma família adquire um novo gadget, quem aprende primeiro como funciona são as crianças. Na AppStore, loja de aplicativos da Apple, 80% dos apps são para crianças, sendo 60% para até 5 anos.

Se seu filho quiser saber o que significa “aliás”, provavelmente vai jogar no Google. Mas você pode explicar que, nesses casos, para uma resposta confiável, o melhor é acessar um dicionário online, como o Aulete. Aí ele vai aprender que “aliás” é “ou melhor; quer dizer; digo; a propósito; na verdade; de outra forma; além do mais; no entanto, não obstante, contudo…”. Aliás, a internet tem tudo, mas ainda não substitui a orientação que a gente precisa continuar dando para os filhos.