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Brincadeira não tem gênero

Não importa se é carrinho ou boneca, o que vale é integrar todos na brincadeira

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

Por Nivia de Souza, filha de Tânia e Renato

No início deste ano, a Lego lançou uma linha de brinquedos chamada Friends. Nela, podemos ver cenários de jardins, piscinas, palcos, laboratórios de ciência, estúdio de moda, salão de beleza, cafeterias, clínicas veterinárias e casas. O público-alvo da linha a gente identifica fácil: as meninas. A temática do conjunto incomodou um grupo de ativistas norte-americanos, que acusaram a marca de sexismo e também de estereotipação do universo feminino. 

O porta-voz da Lego no Brasil, Robério Esteves, filho de Claudete e José, informa que a linha Friends, em questão de desenvolvimento, foi uma das mais demoradas. “Fizemos pesquisas com cerca de 800 meninas e mães, para saber quais eram suas expectativas para um brinquedo Lego”, conta. Ele ainda diz que havia uma demanda clara por esta linha dita “mais feminina”. Podemos ter nossas dúvidas se essa divisão de brinquedos entre os gêneros ainda existe ou se deve existir. Porém, não podemos ter receio de afirmar que o que mais importa é vermos as crianças felizes.   
 
                                 
 
Iguais, porém diferentes 
O gênero é a primeira definição que recebemos ao nascer. Ele também é o responsável por boa parte das influências e escolhas que faremos e que farão por nós. Nossa cultura é marcada pelo masculino e pelo feminino. E isso é inegável em qualquer camada social. Quando oferecemos a um menino um carrinho e uma boneca para a menina, não estamos apenas repetindo e repassando um hábito. Estamos reforçando as diferenças biológicas entre homens e mulheres, que existem sim e não devem ser usadas como justificativas para determinar papéis para cada um. 
 
Sempre existiu uma definição sobre o que era de cada um e, agora, estamos vivenciando uma mudança. “Não existe mais nada que interesse só a um gênero. Isso é importante porque é uma pré-disposição para uma sociedade de parceria”, justifica a psicanalista e escritora Regina Navarro Lins, mãe de Taísa e Deni.  
É claro que existe apelo de marketing nos produtos infantis. Assim como a sociedade, ele se apoia nas preferências naturais de meninos e meninas, que possuem fundamentos biológicos.
 
“Há evidências que o desenvolvimento do cérebro é diferente”, afirma o neurologista pediátrico José Albino da Paz, pai de Isabela. O contraste, talvez, pareça ainda maior porque as crianças, principalmente entre os 7 e 12 anos, costumam se agrupar e brincar juntas dividindo-se pelo gênero.              
Elas até costumam dizer que se odeiam e que não gostam de se misturar. “Não é que elas se odeiam, elas não se identificam”, comenta a psicopedagoga Maria Cecília Gasparin, avó de Cauê e Izabella. 
 
É brincar, não estereotipar
Nossa colunista Juliana Cadiz nos contou que sua filha Olívia, de 6 anos, não curte os brinquedos com a temática e as “cores de princesas”, por exemplo. A menina prefere brincar com objetos relacionados a animais, como dinossauros e cachorros. “Aqui em casa sempre teve ‘brinquedos de meninos’, mesmo eu só tendo uma menina”, fala Juliana. É comum vermos nossas filhas se interessando por carrinhos e bolas e meninos curiosos com as bonecas e seus acessórios. E não existe problema nenhum nisso, pois demonstra que as crianças têm interesses diversos. Toda essa preocupação de ser bom ou não é fruto da nossa angústia e ansiedade como pais. Ficamos preocupados com possíveis discriminações, preconceitos e sofrimentos. 
 
Em geral, essa curiosidade aparece entre os 3 e 5 anos de idade. Segundo o pediatra José Martins, pai de Graziella e Fábio, a questão da escolha dos brinquedos tem muito mais a ver com a idade dos nossos filhos do que com as predisposições constitucionais. Respeitar as vontades e a individualidade dos nossos filhos é essencial. E isso vai acontecendo de acordo com o crescimento deles. “Não se deve forçar a barra. Use essas preferências para entender o que está sendo demonstrado e explicitado pelo ato de brincar“, avalia Martins. 
As pessoas têm que ser percebidas pelos seus aspectos individuais e não por se enquadrar em masculino e feminino. “É importante desenvolver todos os aspectos da personalidade”, completa a psicanalista Regina Navarro Lins. 
 
Problemas irão existir quando uma criança, independente do sexo, passa a insistir e repetir sempre os mesmos brinquedos, independente do público-alvo dos mesmos. “Se elas crescerem e ficarem somente naquilo, aí é hora de cuidar”, alerta a terapeuta familiar Nívea Fabrício, avó de Gabriela e Ricardo, que complementa e tranquiliza os pais com filhos com gostos diferentes. “É normal. Os pais não devem fazer disso um drama. O que cria problema são os estigmas”.  
 
Existem diferenças, entretanto, que independem do sexo. Cada criança é um indivíduo diferente e que vai ter seus próprios gostos, preferências e escolhas, independentemente do sexo. Por exemplo, as crianças hiperativas vão mesmo preferir os brinquedos e brincadeiras mais dinâmicas e que exijam mais fisicamente. Por isso, é melhor escolhê-los de acordo com as características distintas dos nossos filhos e com a faixa etária deles, do que pensando se seu pequeno ser humano é uma menina ou um menino. 
 
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Meninos x Meninas
 
Meninos
São desafiadores, competitivos, e acabam lidando com dificuldade com a frustração. Assim, se identificam com jogos de correr, de bola, de contato físico. Têm mais aptidão para  organização do espaço – o que justifica o gosto por quebra-cabeças.
 
Meninas
São mais dengosas, têm uma atenção mais concentrada, compartilham mais e são mais maternais. Isso explica a preferência das garotas por bonecas e brincadeiras que utilizam a linguagem e a comunicação.

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Voz da Natureza
 
• Os seres humanos têm 46 cromossomos, que são agrupados em 23 pares. Um desses pares é de cromossomos sexuais;
 
• Os meninos nascem com dois cromossomos sexuais distintos, o X e Y. Já as meninas, têm dois X;
 
• Isso resulta em produção hormonal diferenciada, que influencia o desenvolvimento e maturação do cérebro, dos tecidos e dos órgãos genitais;
 
• Acredita-se que o cérebro humano sofra ações de sinais produzidos desde o período fetal e que isso leva às diferenças significativas entre os gêneros.
 
Questão de Opinião
 
Uma pré-escola sueca contratou um pedagogo de diversidade sexual para ajudar a eliminar da escola todas as referências aos sexos. Durante as conversas, os pronomes que definem o ele (han) e o ela (hon) foram substituídos por um neutro (hen), que é usado no país pelas feministas e homossexuais. Os alunos são tratados usando a palavra “amigo”. O acervo de livros da escola conta com obras que falam sobre duplas homossexuais, mães solteiras, adoção. Os brinquedos de montar e os brinquedos de utensílios de cozinha estão sempre próximos, evitando que algum papel sexual seja preterido. A psicanalista Regina Navarro Lins acha a iniciativa radical. “Sempre vai existir o macho e a fêmea. Homem pode chorar e liberar suas emoções e muitos não conseguem. E isso afeta tudo. Todos os conceitos atrapalham a vida de homens e mulheres.”
 
Consultoria: José Albino da Paz, pai de Isabela, é neurologista do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas de São Paulo; José Martins Filho, pai de Graziella e Fábio, é escritor, pediatra e professor titular aposentado da Faculdade de Ciências Médicas (FCM); Maria Cecília Gasparin, avó de Cauê e Izabella, é psicopedagoga; Nívea Fabrício, avó de Gabriela e Ricardo, é terapeuta familiar, diretora pedagógica do Colégio Graphen e presidente da Associação Nacional de Dificuldade de Ensino e Aprendizagem (ANDEA); Regina Navarro Lins, mãe de Taísa e Deni, é psicanalista e escritora; robério Esteves, filho de Claudete e José, é porta-voz da Lego no Brasil. Dra. Karina de Ferran, filha de Ledir e Axel, é endocrinologista do Hospital Rios D’Or.
 
 

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