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Bebê fora do útero

Viviana teve uma coisa rara durante a gravidez: seu útero rompeu.

Redação Pais&Filhos

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Há dois anos, descobri que tinha endometriose e tive que fazer uma cirurgia para retirar uma das trompas e parte do intestino. A cirurgia foi bastante profunda e fazia parte do meu tratamento para engravidar, que já durava algum tempo. No total, foram seis anos de tentativas, inclusive com a fertilização In Vitro, até que eu engravidasse naturalmente da Maria Luiza, do nada.

Os sete primeiros meses de gestação foram tranquilos, mas, na 29ª semana, tive contrações e fui internada. No hospital, fizeram alguns exames para tentar descobrir o que havia causado as dores. Tudo indicava que o problema era um cisto, dentro do útero. Os médicos disseram que o parto deveria ser por cesárea, para que fosse possível retirar o cisto após o nascimento do bebê. Mas, naquele momento, eu poderia ir para casa, ficar de repouso e esperar a data prevista para o nascimento da minha filha, que seria em setembro deste ano.

Depois de dez dias desta internação, senti uma forte dor do lado direito da barriga e voltei correndo para o hospital. Os médicos desconfiaram que eu estivesse com um cálculo renal ou apendicite e começaram a bateria de exames. Foi durante o ultrassom que o problema se revelou bem maior do que esperávamos: eu poderia ter útero bicorno (quando uma membrana divide o órgão em dois) ou, então, o meu útero teria se rompido.
Minha obstetra, doutora Alessandra, pediu para que eu fizesse uma ressonância magnética e me tranquilizou: se meu útero estivesse realmente rompido, eu e minha filha estaríamos mortas. Fui fazer o exame sozinha, já bastante debilitada, por volta do meio-dia e os médicos descobriram o pior: meu útero estava realmente rompido. Minha filha estava segura apenas pela bolsa amniótica, dentro do meu corpo. A única parte do corpo dela que ainda estava segura dentro do órgão era a cabeça.A dor que eu sentia era causada pelos braços e pernas dela, em contato com meus outros órgãos.

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Doutora Alessandra chegou e avisou que o parto seria naquele dia, antes das 15h. Pedi para o Rodrigo, meu marido, que pegasse as malas em casa e fui para o quarto. Lá, começaram os preparativos para o parto. Como estava na 31ª semana, me deram a injeção para fortalecer o pulmão da minha filha. Fui informada de que poderia perder o útero durante o procedimento. A única coisa de que me lembro antes de entrar na sala cirúrgica foi segurar a mão do meu marido.

O parto da Malu foi assistido e filmado por uma grande equipe de médicos, já que sou a única mulher do Brasil que conseguiu dar à luz um bebê depois do rompimento do útero (e estar viva). Os médicos tiveram que recolocá-la dentro do órgão para depois puxá-la. A minha filha não chorou e foi direto para a incubadora, com o lado direito do corpo cheio de hematomas. Só pedi para que o Rodrigo tirasse uma foto dela, já que não pude vê-la e não sabia o que estava acontecendo. Meu útero foi costurado, já que as chances de uma hemorragia grave durante a retirada total do órgão eram grandes.

Malu ficou 22 dias na UTI neonatal, e precisou de duas transfusões sanguíneas, mas respondeu bem ao tratamento. Faz um mês que ela está em casa. Minha médica disse que o nascimento dela é um milagre: nós duas não ficamos com sequelas graves. Não posso mais ter filhos e me tornei objeto de estudo: os médicos não sabem por que meu útero estava tão debilitado. Segundo eles, o estado dele era como se eu já tivesse feito outras nove cesáreas: e a Malu é minha primeira filha!

Sinto que nasci de novo. Tenho que comemorar meu aniversário junto com o dela, e nossa ligação é muito forte. Nós duas estarmos vivas, e bem, não tem lógica médica.

Viviana Maurman Motta, mãe de Maria Luiza, é publicitária.

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