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Agora eu era o herói

Redação Pais&Filhos

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Usar fantasias pode ser muito divertido. Mas melhor ainda se forem inventadas – experimente criar o próprio personagem com uma mistura de panos e acessórios

Por Mariana Setubal, filha de Cidinha e Paulo

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FECHAR

Flecha tem apenas 10 anos e é o menino mais rápido do mundo. Sua irmã é invisível e seus pais são um super-herói e uma mulher-elástica. Além de ter uma família incrível, Flecha ganha todas as competições de atletismo da escola. Que criança não gostaria de ser como ele?

A história da animação da Disney Pixar Os Incríveis é como outra qualquer de super-heróis – ok, mais divertida e original, talvez. As crianças adoram as aventuras desses personagens e já, antes da estreia do filme, eles estão em todos os lugares, de cadernos a fantasias. Vestir-se como um deles é como incorporar todos aqueles superpoderes e viver coisas que não existem na vida real. E a brincadeira é o único momento em que a criança pode ser e fazer o que quiser, sem obedecer a regras.

Vivenciar a invisibilidade, a imortalidade e a onipotência dos super-heróis também as ajuda a lidar com seus medos e angústias de maneira lúdica. A criança costuma elaborar, na brincadeira, suas experiências passadas. “O brincar possibilita que a criança viva de forma ativa algo que ela experimentou passivamente”, explica a psicóloga clínica Marina Diuana, filha de Ângela e Sergio. Traduzindo: se ontem ela levou uma bronca do pai, hoje ela dá uma bronca no ursinho de pelúcia.

Contos de fadas

Os contos de fadas são histórias riquíssimas para inspirar essas brincadeiras, já que normalmente trazem questões que fazem parte das angústias vividas pelas crianças. A clássica Cinderela, por exemplo, fala das relações familiares e dos papéis atribuídos à mãe. Já Cachinhos Dourados, que não se encaixa bem na cadeira pequena nem na cadeira grande, da família dos ursos, remete ao papel do irmão do meio de uma família.

“Os contos de fada resgatam algo da subjetividade da criança. Algum aspecto do personagem tem a ver com o momento pelo qual ela está passando”, completa Marina.

Claro, isso também vale para as fantasias de médico, bailarina, índio… A psicóloga conta que as pacientes do hospital em que clinicava gostavam de se fantasiar de enfermeiras, e isso as ajudava a lidar com suas doenças. “Os contos de fada exploram as provações e dificuldades familiares e as capacidades humanas para a ganância, a solidão e a coragem diante de situações opressoras”, escreve a escritora Susan Linn, em seu livro “Em Defesa do Faz de Conta”.

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Sem fórmula pronta

Quem tem filho em casa sabe: personagens como a Princesa Ariel ou a Bela povoam a imaginação das meninas, assim como Ben 10 frequenta as lancheiras, mochilas e brincadeiras dos meninos. É quase impossível escapar. O cinema e a TV são a nossa mitologia moderna, formam um repertório comum de imagens, situações e, claro, personagens. O que não é  legal é deixá-los engessar a imaginação infantil, já que estão prontinhos, com seus trajes, falas e trejeitos predefinidos por talentosos roteiristas, diretores e desenhistas… Uma fantasia de Homem-Aranha, por exemplo, determina toda a brincadeira: ele não poderá voar, apenas soltar suas teias em direção às paredes…

Quando os elementos são mais neutros, como uma capa (uma qualquer, não a do Super-Homem) ou um vestido de princesa (um “genérico”, não o da Cinderela), a criança pode criar seu próprio personagem – assim, sua imaginação é muito mais estimulada.

“As brincadeiras de super-herói e Homem-Aranha se esgotam em si mesmas. Se você recebeu tudo pronto, o que você vai fazer?”, resume a educadora Waldorf Nina Veiga, mãe de Verônica e Uli.

Para ela, o aconselhável é fornecer o material para que a criança crie o próprio personagem, evitando, assim, que fique aprisionada por um enredo pré-definido. Panos, arcos, chapéus e espadas são elementos que deixam o caminho mais livre para a fantasia. “Ao dar pouco para a criança, ela tem espaço para dar de si”, explica. Um retalho de pano pode ser capa, avental, toalha de mesa…

Mesmo entre as fantasias prontas, existem diferenças. Uma princesa genérica pode ser qualquer princesa, assim como um pirata ou um astronauta. Nesses casos, não existe uma caricatura. Já as princesas das animações impõem uma série de características. “Quando os contos de fada se tornam versões visuais dos valores de outra pessoa – assistidos inúmeras vezes e vendidos associados a tiaras, joias, vestidos de baile e castelos e repletos de imagens de princesas específicas com fisionomias específicas -, eles trancam a criança em um roteiro estabelecido de brincadeira do qual é muito difícil se desviar”, escreve Susan Linn.
 
A gente sabe que as crianças adoram assistir, repetidas vezes, aos mesmos filmes e desenhos, acabam decorando falas e cenas e, na hora de brincar, muitas vezes não saem muito do que já veio formatado. Por isso, prefira ler para as crianças as histórias dos contos de fada a mostrá-las em DVD. Os livros deixam espaço para a criança imaginar o cenário, o figurino, as feições…

Claro, uma criança saudável vai acabar criando em cima de qualquer coisa. Afinal, o Senhor Incrível também pode ter uma espada, o Flecha pode ficar invisível e até Zezé, o bebê da família, pode voar.

Para saber mais

A Psicanálise na Terra do Nunca, de Diana L. Corso e Mário Corso   
Como as nossas histórias favoritas influenciam no que nos tornamos.
Ed. Penso (www.artmed.com.br), R$79

Fadas no Divã, de Diana L. Corso e Mário Corso
Os contos de fada do ponto de vista psicanalítico.
Ed. Artmed (www.artmed.com.br), R$82

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Objetos que estimulam a imaginação

Varinha mágica da fada, Nina Veiga, R$ 38 / www.ninaveiga.com.br

Coroa Menino Rei, Nina Veiga, R$ 42

Coroa Menina Rainha, Nina Veiga, R$ 42

Capa, Nina Veiga, R$ 40

Espada, Nina Veiga, R$ 44


Consultoria: Marina Diuana, filha de Ângela e Sergio, é psicóloga clínica, marinadiuana@ig.com.br 
Nina Veiga, mãe de Uli e Verônica, é educadora Waldorf, psicopedagoga, mestre em cultura em linguagem e doutoranda em educação, www.ninaveiga.com.br

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