Gravidez

Todo parto é normal

Toda forma de nascer, dar à luz, é normal, seja ela humanizada, natural, cesariana ou qual mais existir pelo mundo afora

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

Vamos começar com calma. Primeiro, abaixe todas as suas bandeiras para poder ler esta matéria sem preconceito, podendo, se não aceitar, ao menos entender por que não é só naquilo em que acreditamos que a vida se faz – ou seja, o certo e o errado. Afinal, seres humanos fazem escolhas e este é um direito na sociedade em que vivemos. Defendemos que está mais do que na hora de respeitarmos as diferenças. Mães costumam criticar a maneira como outras mães agem — seja por dar ou não de mamar, pela forma de educar, pelo que dão para comer, pela rotina (ou falta dela) e, sim, até pela escolha do parto. Assim, julgamos e nos intrometemos na vida de outra família como se tivéssemos direito. Podemos (e devemos) ajudar, aconselhar e informar, mas nunca apontar o dedo. Afinal, cada um sabe melhor do que ninguém onde a água “bate mais forte”. Certo?

Para ficar claro: o mais importante é a vida que geramos dentro do nosso corpo — a vida que cresce, nasce e pede para viver. A maneira de vir ao mundo é um meio – e não deve ser alvo de julgamentos. Claro, óbvio, que (sim!) a Pais&Filhos apoia e defende o parto normal, no qual se respeita o tempo certo da criança nascer e que se venera a natureza como forma de dar à luz. Mas a cesariana está aí, existe como evolução natural da ciência e da medicina — e muitas vezes pode, e deve, ser uma escolha.  

Parto x Parir
“Depois da chegada vem sempre a partida/Porque não há nada sem separação”, canta a música de Vinicius de Moraes. O trecho me vem à cabeça enquanto penso sobre parto. Por quê? Talvez seja pelo fato de que a separação da mãe e do bebê, neste momento, possibilita uma vida cheia de histórias a ser escritas, ou também seja porque me sinto intrigada com a palavra “parto” e seu significado: afinal, será que vem de “partir”? Pois, parir é dar continuidade à vida que teve início dentro de nós. Parir é deixar partir. Parir é trazer uma vida à Terra, é deixá-la chegar (de dentro) e partir (para fora). Apesar de parecerem, as raízes das duas palavras não têm ligação, mas não há como negar: estar no mundo exige várias partidas – e sair do útero de nossa mãe é a primeira delas.

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FECHAR

“Tecnicamente falando, o parto é a expulsão do feto do útero. Porém, é muito mais. É o momento mais importante do nosso ciclo de vida. É a continuação da vida que começou no útero. É quando a criança começa a ter seus direitos”, define a coordenadora do Programa de Sobrevivência & Desenvolvimento Infantil do Unicef, Cristina Albuquerque, mãe de Rafael Henrique, André Luiz e Arthur.  Apesar da leveza da frase da música do poeta, da alegria certa que vem com o momento do parto e da possibilidade de poder participar da mais linda viagem de uma pessoa, o assunto pode vir rodeado de polêmica, medo e dúvidas. De alguns sentimentos contraditórios à beleza do ato, porém reais e importantes.

OS PARTOS

O vaginal
pontaneamente em trabalho de parto, caracterizado pelo início da modificação do colo uterino. Geralmente, o trabalho de parto na primeira gravidez pode ser mais demorado, durando, em média, entre 10 e 12 horas, com a dilatação evoluindo a cada uma hora. Enquanto isso, o feto vai se ajustando no canal de parto. “O sucesso do parto vaginal dependerá da boa evolução desses fatores associados: a contração uterina, a dilatação do colo e a progressão fetal”, explica a médica obstetra Tathiana Parmigiano, filha de Francisco e Rosangela, coordenadora do Setor de Ginecologia do Esporte pelo Departamento de Ginecologia e pela Disciplina de Medicina Esportiva da EPM/UNIFESP. 

Entre o normal e o natural, uma das coisas que os difere é a opção de anestesia. “Apesar de opcional, é de direito da gestante. Também pode ocorrer a realização de episiotomia (corte), amniotomia artificial (rompimento da bolsa pelo médico) e uso de medicações que regularizem as contrações. Esses passos não são obrigatórios e devem ser discutidos com a gestante durante o pré-natal, utilizando-os, caso seja necessário, durante o trabalho de parto”, afirma. 

Algumas vantagens do parto normal são a rápida recuperação da mãe, o que lhe proporciona segurança e tranquilidade, a facilidade para o aleitamento e o retorno mais rápido às atividades habituais. Além disso, o parto vaginal costuma sangrar menos e apresentar um menor risco de infecção pós-parto, principal causa de mortalidade materna, que é 2,5% maior em partos cirúrgicos. Do ponto de vista da mãe, o parto normal pode apresentar algumas dificuldades, como a dor das contrações (o que atualmente pode ser controlado pela analgesia), a dor perineal sentida por algumas mulheres (períneo é a região que fica entre a parte de baixo da vulva e o ânus), a possibilidade de lesões e distensão excessiva do assoalho pélvico (o que pode levar a casos de incontinência urinária), a duração variável do trabalho de parto (que para algumas mulheres pode ser cansativo) e a incerteza da data de ocorrência do parto (pois depende do início espontâneo do trabalho).

“Muitas mulheres ficam ansiosas no finalzinho da gestação, quando o desconforto causado pelo inchaço e peso da barriga é grande. Muitas não têm paciência para aguardar o início espontâneo do trabalho de parto”, diz o médico obstetra do Hospital São Luiz, membro da equipe responsável pelas gestações de alto risco, Igor Padovesi, pai da Beatriz. Por causa disso, Igor lembra que é necessária a conversa entre médico e grávida durante o pré-natal, para não haver dúvidas e estimular a espera.

Humanização do parto
Se você está grávida, provavelmente, já ouviu falar no parto humanizado. Ele é uma tentativa de tornar o processo mais natural e com menos intervenções médicas — o que é muito positivo, desde que dentro de certos limites de segurança, claro. Tem-se como objetivo dar à mulher ampla autonomia durante o parto e minimizar as intervenções, focando no acolhimento da mãe, dando direito para a grávida de escolher o acompanhante durante o trabalho de parto — o que é um direito assegurado no Sistema Único de Saúde (SUS)  e poucos sabem —, decidir qual a posição para dar à luz, local e a qualidade do ambiente. “O parto humanizado não está exatamente relacionado à sua técnica, mas sim ao acolhimento da gestante”, afirma Cristina Albuquerque.

A cesariana
O parto cesárea ou cesariana é realizado através de um corte de, mais ou menos, 12 cm no abdômen, abaixo da linha dos pelos pubianos. Embora muito comum, é uma cirurgia de médio porte e não deve ser menosprezada. Para a retirada do bebê, são abertas sete camadas de tecidos, que depois são costuradas, uma a uma. Neste tipo de parto a paciente está sempre anestesiada. As principais indicações para o parto cirúrgico são quando o bebê está sentado (apresentação pélvica), quando a mãe já teve duas ou mais cesáreas anteriores, quando o feto tem peso estimado (pelo ultrassom) superior a 4 kg, em casos de malformações fetais e em algumas situações de doenças relacionadas à gestação, como, por exemplo, a hipertensão materna.

A cesariana apresenta algumas vantagens para a mulher, como a possibilidade de não sentir as contrações dolorosas do trabalho de parto, a liberdade da escolha de uma data para o parto, menor duração (a cesárea dura cerca de 40 a 60 minutos, enquanto um trabalho de parto pode durar até mais de 12 horas) e proteção do períneo e assoalho pélvico. Contudo, sendo uma cirurgia, apresenta riscos. Além disso, a recuperação pós-parto é mais dolorida nos primeiros dias do que no parto normal, podendo haver dificuldade de cicatrização, maior sangramento e ocorrência de infecções (mas, com a modernização de técnicas cirúrgicas e anestésicas e de fios cirúrgicos, observa-se menor incidência destas complicações).

A taxa indicada como ideal para a realização de cesárea pela Organização Mundial da Saúde (OMS) é de 15%. No Brasil, é uma das mais altas do mundo e chega a 56% – podendo ultrapassar 90% em algumas maternidades privadas. Porém, não é só em nosso país que o número cresce, mas também em países como a Turquia e outros europeus mais desenvolvidos. “Para invertermos essa cultura instalada no Brasil, as futuras mães precisam se informar sobre os benefícios do parto normal”, diz Cristina Albuquerque.

O parto fórcipe
Este tipo de procedimento é pouco realizado atualmente, pois, na maioria das vezes em que o parto normal não transcorre bem, os médicos optam pela cesárea. O fórcipe é um instrumento de metal (como se fossem duas colheres grandes) que permite ao obstetra puxar a cabeça do bebê, quando a mãe já não consegue fazer mais força e o período final do parto (chamado de expulsivo) já se prolongou demais. Para a aplicação do fórcipe, é sempre necessária a episiotomia (corte). Esse procedimento não traz grandes problemas, ajuda o nascimento quando já começam a aparecer sinais de sofrimento fetal, mas existe um risco pequeno de lesões no bebê e no canal de parto”, explica Igor.

Pelo mundo afora
Há mais de 7 mil línguas reconhecidas e, em cada uma delas, existe uma expressão para “mãe”. Apesar de diferentes palavras, todas as mães do planeta compartilham o desejo de ter uma gravidez saudável e garantir ao bebê um nascimento seguro. Cada cultura tem seus costumes.
Na Holanda, o parto natural é o mais buscado e raramente inclui analgesia. Caso ocorra tudo bem durante o parto, mãe e filho são encaminhados para casa em duas horas. Durante uma semana, a mulher recebe cuidados em casa de uma enfermeira – que, além de cuidados médicos e instruções com o bebê, arruma o apartamento e a cozinha. Na Alemanha, elas escolhem uma doula para acompanhá-la durante a gravidez e o trabalho de parto (médicos, só em casos urgentes). Lá, as grávidas podem parar de trabalhar seis semanas antes do final da gestação e são proibidas de trabalhar durante oito semanas após o parto, recebendo seu salário integral, além de três anos de licença maternidade sem vencimento, sendo o terceiro um ano “flexível” (que pode ser tirado por qualquer um dos pais).

No Japão, elas têm filhos de parto natural, geralmente sem o uso de anestesias. O budismo influencia muito nesse momento da vida da mulher, que encara a dor como uma espécie de preparação para a maternidade. Porém, de uns anos para cá, os médicos têm recomendado a analgesia para as pacientes. Elas preferem dar à luz em hospitais, e os homens não têm o costume de acompanhá-las.

Na Turquia há grandes mudanças. Há 30 anos, a maioria era realizada por doulas, especialmente em áreas rurais. Os médicos atendiam mais em cidades metropolitanas, como a capital Ankara e Istambul. Porém, com o aumento no número de cursos de medicina e universidades, os obstetras, agora, dominam a realização dos partos. Com isso, a escolha por cesariana também aumentou no país, chegando a uma taxa de 75% em algumas maternidades.

A gente aqui
O parto normal é o mais indicado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) por ser o mecanismo fisiológico e por ser a escolha do próprio bebê de vir ao mundo – sendo um “sinal” de que ele está preparado para nascer. Cerca de 80% das mulheres chegam, ao final da gravidez, com condições físicas para tentar o parto vaginal. Mas é a grávida quem decide qual caminho irá seguir depois de ter contato com informações e ter suas dúvidas respondidas. O que vai pesar são as expectativas, os sonhos e, por fim, a escolha – se for possível realizá-la com segurança depois da avaliação do médico.

A ginecologista e obstetra do Hospital das Clínicas Fernanda Cristina Ferreira Mikami, mãe de Giuliana, lembra que as consultas durante a gravidez permitem não só a vigilância de doenças e complicações que podem se desenvolver ao longo da gestação, como também servem para que o obstetra conheça a paciente, seus medos, dificuldades e limitações, e lhe permita solucionar diversas dúvidas, principalmente as relacionadas ao parto.

“Mulheres têm dúvidas sobre os tipos de parto, qual o local mais adequado para ser realizado, se vai sentir dor, se a recuperação é rápida, como é o preparo para a amamentação, quando poderão voltar a realizar as atividades habituais ou a voltar a ter vida sexual ativa. O ideal é solucionar as angústias ao longo da gestação, nas consultas. E esclarecer que parto ‘anormal’ é aquele que não é seguro para mãe e bebê”, diz Fernanda.  

A frustração não deve ser parte de um momento tão bonito, mas ela pode acontecer caso não estejamos preparadas para acontecimentos que nos levam a ter de seguir pelo “plano B”. Por isso, evite surpresas: conversar com seu médico de confiança e combinar quais serão as “cartas na manga”, pode preparar melhor o psicológico para um parto diferente do planejado, mas que, com certeza, não será menos emocionante e bonito. 

O obstetra Igor Padovesi conta que entre 60 e 70% das suas pacientes dão à luz por parto normal, em ambiente hospitalar, com acompanhamento de enfermeira obstetriz (personagem importante durante o parto normal). “Incentivo todas durante o pré-natal para que se preparem física e psicologicamente para parir naturalmente, mas sem esse peso de que o parto normal é a coisa mais importante de tudo”, diz. Igor considera que há um exagero na discussão sobre o parto natural, colocando uma grande pressão sobre a mulher. “Há uma ideia de que a mulher precisa, necessariamente, ter a experiência do parto normal, como se aquelas que escolhem a cesárea fossem inferiores, menos femininas. Com isso, algumas mães que, pelos mais variados motivos, acabam não conseguindo ou optando por não parir naturalmente carregam um grande peso”, diz.

“Deprimidas, algumas fazem terapia e tomam remédios por frustração. Ideias muito radicais colocam a realização do parto normal a qualquer custo. É como se quisessem ter um parto mais do que ter um bebê. Parto normal é ótimo, devemos incentivá-lo. Mas quando não der certo, quando a mãe ou o bebê correm risco ou simplesmente quando for a opção da mulher, optamos pela cesárea. Simples assim”, finaliza.