Gravidez

Mães de cesárea

Quem faz cesariana muitas vezes sofre com o julgamento de outras mulheres

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

Nasce a mãe, e com ela a culpa. Essa máxima parece pegar ainda mais com quem teve filho por meio de cesárea. Além de lidar com o próprio julgamento, as mulheres que passaram por cesariana sofrem com o julgamento alheio. No Twitter, o perfil @maedecesarea tem a seguinte descrição: “Mãe desnaturada, que esquece criança na escola, deixa jantar pizza (às vezes) e finge que não escuta choro na madrugada. A culpa? É da cesárea!”. A autora, espécie de heroína das mães que se sentem julgadas pela cicatriz no abdome, prefere manter sua identidade secreta. Ela se diz partidária do movimento “culpa free”. Estamos com ela. A gente defende que mãe e culpa não precisam ser sinônimos, tenha você dado à luz por cesárea ou parto normal. Embora o parto seja um momento fundador, sim, você tem a vida inteira para construir essa relação. Se ela nasceu de parto natural sem anestesia ou de parto cirúrgico, não tem diferença. Também queremos deixar claro que somos contra os médicos que empurram as mulheres para a cesárea contra a vontade delas. Assim como somos contra médicos que tentam empurrar uma mulher que decidiu pela cesárea para um parto natural em casa, por exemplo. Na nossa opinião, a decisão tem de ser sua, sem culpa. 

Nossa geração de mães é marcada pela cesárea, escolhida ou empurrada. Entre as mulheres que entrevistamos, uma lista das que passaram por cesariana quando queriam parto normal: Cintia Sarmento, três filhos, dois planos para partos normais e uma indicação de cesárea. Resultado: três cesáreas. Elaine Gomes, dois filhos, queria cesárea. Resultado: duas cesáreas. Telma Pessoa, três filhos, três cesáreas. Marina Mecca, dois filhos, duas cesáreas. Patrícia di Pierri, dois filhos, duas cesáreas. Camila Alves, dois filhos, uma cesárea e, agora, a espera por um um parto normal. Karolina Martins, grávida do primeiro filho e esperando ter um parto normal. Com atual supervalorização do parto humanizado, também somos uma geração marcada pela culpa, tão desnecessária como a famosa “desnecesárea” criticada pelas ativistas do parto natural.
É certo que muitas mulheres optam pela cesárea conscientemente: por razões médicas ou por medo da dor, para poder se sentir mais no controle, porque sim e pronto. É verdade que a cesárea é uma cirurgia de grande porte, que deveria ser indicada em caso de necessidade estritamente médica, mas na prática trata-se de uma escolha. 
Mesmo que, em tese, um parto agendado sem motivo médico seja crime, ninguém é punido no Brasil por isso (veja texto na próxima página). Quem escolhe, não costuma sentir culpa, e é ótimo que seja assim. “Sempre fui um pouquinho medrosa e, pelo fato de minha mãe ter tido três cesáreas num curto espaço de tempo e só ter elogios, me fez ter certeza desta opção”, conta Camila Serrano, mãe de Milena. 
O sentimento bate forte mesmo para quem se preparou psicologicamente (e fisicamente) para um parto normal e acabou se deparando com o primeiro tapa na cara da maternidade: na prática a teoria é outra, nem tudo sai como planejamos, nem tudo depende só de nós e da nossa vontade. Mesmo assim, somos contra a culpa que se instalou entre as mães que não conseguem ter o parto com que sonharam. Porque o que vale é a relação que você vai ter com seu filho agora que ele chegou, de um jeito ou de outro. 
Sim, existem médicos que usam argumentos furados para convencer a futura mãe de que o parto cirúrgico é a única solução. Sim, os convênios remuneram mal o parto. Sim, tudo isso contribui para que o Brasil seja o campeão mundial de cesáreas, com índices que tangenciam os 100% em alguns hospitais particulares. O recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) é de 15%. Segundo a Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, no ano de 2011, foram realizados 607.329 partos no estado, o mais populoso do Brasil. Destes partos, 364.465 foram cesarianos. Ou seja, apenas 40% aconteceram via vaginal. 
Discutimos a explosão de cesarianas no país em diversas reportagens. Porém, nesta, nós queremos falar da culpa que a mãe sente quando acabou passando pelo procedimento.  
É muito injusto que, por causa de diversos fatores fora do seu controle individual, você não consiga ter o parto com que sonhou. Se serve de consolo, nem todas as mulheres que pariram sem precisar de cirurgia ficam plenamente satisfeitas: muitas vezes se decepcionam por terem recorrido a anestesia ou precisado de alguma intervenção que não combina com um parto 100% natural. Tudo isso porque a realidade é sempre diferente da idealização, em maior ou menor grau. Se você sentiu culpa porque o parto não foi como você sonhava, é hora de se livrar dela. Não é saudável se martirizar porque o parto não foi exatamente como você imaginava. “Se a mãe está ciente do que aconteceu durante o trabalho de parto e as razões que levaram o médico a indicar a cesárea, não precisa se sentir culpada, pois estava protegendo o bebê”, diz a psicanalista Claudia Mascarenhas, mãe de Pedro. 
 
Em busca do parto perfeito
 
Todo processo da gestação e do nascimento envolve muita idealização, diz a psicanalista Patrícia Cardoso de Mello, filha de Lilia e João Manuel. O “ser mãe” é uma fantasia que começa quando ainda somos meninas e ganhamos nossas primeiras bonecas. Acontece que, hoje, parece haver uma lente de aumento sobre tudo, inclusive a gravidez 
e o parto. De um lado, maternidades abrigam salões de beleza, equipes de filmagem, permitem que os familiares assistam ao parto. De outro, mulheres contratam doulas e equipes médicas para conseguir parir naturalmente em casa, sem anestésicos. Em comum, uma grande e incessante busca pelo parto “perfeito”. 
Telma Pessoa, mãe de Pedro, Emanuelle e Danielle, conta que já se sentiu muito culpada, incapaz e não realizada como mulher por causa das três cesarianas. Os partos de Pedro e Emanuelle tiveram indicação médica de cirurgia, por motivos diferentes. Da terceira vez, o parto normal nem apareceu como opção, por causa do temor de uma ruptura uterina. Entre se manter fiel a seu sonho de parto e garantir a segurança do filho não há dúvida. O que costuma gerar a malfadada culpa é não ter certeza de que a cirurgia era realmente indicada. Isso só reforça a importância de um bom relacionamento com o obstetra.
Para a psicanalista Patrícia Cardoso de Mello, passar pela cesárea não é grave. “É simples e necessário em alguns casos”, afirma. É verdade que existe um índice alto de mulheres com medo do parto normal e das dores. “Elas não querem passar pela dor física e psíquica. É natural ter um certo medo. É uma experiência violenta”. Algumas mulheres interpretam essa violência como algo positivo. Outras se sentem aterrorizadas. O parto é um momento fundador, emocionante, intraduzível. Não é afeito a meios-termos, seja ele normal ou não. Treino é treino e jogo é jogo. No treino, imaginamos que a partida vá seguir um certo roteiro. Mas a emoção do jogo é essa mesma: nem tudo pode ser previsto.
Cintia Sarmento, mãe de Deborah, Rodrigo e Henrique, preparou-se diariamente nas duas primeiras gestações para dar à luz de forma natural. Na hora de Deborah vir ao mundo, após nove horas de trabalho de parto, o médico indicou a cesariana por falta de dilatação. “Me senti muito mal, incapaz de dar à luz naturalmente. Cobrei muito de mim, da minha natureza e me perguntava se eu poderia ter feito mais exercícios, esperado mais”, lamenta-se. Se isso acontecer com você, lembre-se: você fez o que estava a seu alcance naquele momento. E tudo bem. 
Certamente, um parto normal é a melhor opção do ponto de vista médico. Ninguém está discutindo isso. Mas o ser humano é mais complexo que sua dimensão biológica. Seria saudável obrigar uma mãe que tem pânico de parto normal a passar pelo trabalho de parto? A resposta não é simples. Os médicos atribuem a opção pela cesariana à imagem criada pela TV e filmes de que parir naturalmente é parir com – muita – dor. “Embora o parto normal pareça mais difícil, com dor e sofrimento, a mãe logo fica bem para cuidar do bebê. No caso da cesárea, o casal marca a hora, vai para o hospital tranquilamente, parece mágico” , diz o neuropediatra Saul Cypel, pai de Marcela, Irina, Eleonora e Bruna. 
Se você optou pela cesárea, não precisa ter culpa, mas se você quer um parto normal e não conseguiu, também não. “Infelizmente, eu não tinha quadro clínico para passar pelo normal e fui obrigada a aceitar as duas cesáreas”, conta Patrícia di Pierri, mãe de Miguel e Ludmyla, que, hoje, não se sente culpada. 
“Apesar de ser uma projeção do futuro, a gravidez é carregada de passado”, comenta Patrícia Cardoso de Mello. Mas, com o filho nos braços, é hora de viver o presente. Uma das preocupações das mães é relacionada ao vínculo com o filho após a cesárea. Segundo Claudia Mascarenhas, o vínculo é feito a partir de tantos fatores que o tipo de parto, de longe, é a influência menos importante. “Não me sinto menos mãe por ter feito cesárea. Ser mãe é o ato de todo dia, inclusive em decidir a melhor maneira (para o momento) de seu filho nascer, para o bem dele”, diz Marina Mecca, mãe de Pedro e Cora. Mãe de cesárea, dirão as más línguas. A gente diz apenas mãe. E ponto.  
 
Como é a cirurgia
 
ENTREVISTA COM O ANESTESISTA: 
 
A cesárea é um procedimento cirúrgico. Antes da operação, existem vários procedimentos que devem ser seguidos, como uma entrevista com o anestesiologista. “É importante que sejam anotados todos os dados do pré-natal, principalmente o grupo sanguíneo da gestante, os resultados das sorologias para rubéola, toxoplasmose, citomegalovírus, HIV, hepatites A, B e C”, diz o obstetra Thomaz Gollop, pai de Nicholas. No Brasil, a anestesia é a raquidiana, para que a mãe fique acordada no momento em que o bebê nasce.
O CORTE: de acordo com Gollop, desde 2003 é usada uma técnica “minimamente invasiva”, que “corta” quatro camadas do abdome em vez de sete, como era antigamente. É feito um corte que vai de 10 cm a 15 cm. O procedimento dura entre 40 e 60 minutos.Sempre cesárea: a máxima “uma vez cesárea, sempre cesárea” não precisa ser uma sentença: “Indicamos uma espera de um a dois anos para um parto normal”, diz o obstetra Vinícius Breda, pai de Bruno e Ana Luisa. Embora alguns médicos realizem o parto normal após mais de uma cesárea, o médico não recomenda. “A cada vez que você abre e costura o útero, ele cicatriza. Num novo procedimento, essa cicatriz pode abrir durante o trabalho de parto”, explica.
PÓS-PARTO: a recuperação de uma cesárea é mais lenta do que do natural. “As suturas são mais doloridas e a parte interna se recupera fisiologicamente”, comenta Breda. Saul Cypel afirma que, além dos riscos de uma cirurgia qualquer – com dores na região do corte –, o funcionamento intestinal se reduz por causa do manuseio dos órgãos durante o procedimento. “A mãe pode sentir mal-estar, náuseas, enjoos.”
 
O QUE LEVA A UMA CESÁREA: Principais motivos que levam a uma indicação médica de cesárea:
• idade da mãe;
• partos complicados; 
• cesáreas anteriores;
• posição do bebê no útero;
• mãe de primeira viagem 
com bebê sentado;
• sofrimento fetal agudo;
• deslocamento prematuro de placenta;
• eclâmpsia e pré-eclâmpsia;
• desproporção céfalo-pélvica, quando o bebê é maior que a passagem do canal vaginal.
 
Consultoria
 
Claudia Mascarenhas, mãe de Pedro, é psicóloga, psicanalista e presidente do Instituto Viva Infância, vivainfancia.org.br; patrícia Cardoso de Melo, filha de João Manuel e Lilia, é psicanalista; Saul Cypel, pai de Marcela, Irina, Eleonora e Bruna, é colunista da Pais & Filhos e neuropediatra e consultor do programa de desenvolvimento infantil da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, fmcsv.org.br;. Thomaz Gollop, pai de Nicholas, é ginecologista e obstetra do Hospital Israelita Albert Einstein, Tel.: (11) 2151-1233, einstein.br ; Vinícius Breda, pai de Bruno e Ana Luisa, é ginecologista e obstetra do Hospital e Maternidade Leonor Mendes de Barros, Tel.: (11) 2292-4188.