Gravidez

Gravidez sob pressão

A eclâmpsia afeta, em média, 50 mil mulheres por ano

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

No primeiro capítulo da novela das 21h da Globo, Amor à Vida, a personagem Luana, vivida por Gabriela Duarte, morre no parto e ainda perde a criança. Logo no início da gravidez, ela havia recebido o diagnóstico de pressão alta, um dos sintomas da doença. A gravidez foi considerada de risco, com indicação de repouso. A personagem não segue as recomendações entra em trabalho de parto (normal). E morre.

Luana muito provavelmente teve eclâmpsia. O termo complicado esconde uma doença infelizmente bem comum, que representa uma das maiores causas de morte entre as grávidas no Brasil e no mundo.

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A média é de 50 mil mulheres por ano em todo o planeta, mas acontece com maior frequência nos países subdesenvolvidos. Isso porque, muitas vezes, não é detectada a tempo, culpa dos pré-natais deficientes ou inexistentes das regiões mais pobres. Eclâmpsia vem do grego e significa “luz brilhante”. Nos estágios mais graves da doença, a gestante enxerga pontos luminosos. A causa exata ainda é desconhecida. O que já se sabe é que ocorre uma reação imunológica na gravidez, sendo que na pré-eclâmpsia, o corpo da mãe passa a “estranhar” as células da placenta e do feto. É como se o bebê fosse visto como um ser invasor pelo organismo. A “cura” é radical: dar à luz o bebê. Com o nascimento, na maioria dos casos o mal se resolve. Os sintomas mais graves podem ser confundidos pela gestante com outros problemas mais corriqueiros: inchaço, dor de cabeça, dores no estômago e alterações de visão (que podem ser acompanhadas por crises de dor de cabeça). Se você está fazendo um bom pré-natal, as alterações serão percebidas pelo médico, que vai checar a pressão, verificando o quadro de hipertensão e pedir um exame de urina para confirmar se há presença de proteína.

Caso o quadro de pré-eclâmpsia moderada evolua para uma pré-eclâmpsia grave, fígado e rins podem ser afetados. Se você experimentou algum dos sintomas descritos, conte para o seu médico o mais rápido possível. Melhor pecar pelo excesso de zelo. Outro problema desencadeado pela doença é a diminuição do volume de plaquetas, que são as células responsáveis pela coagulação sanguínea. Em casos gravíssimos de pré-eclâmpsia ou eclâmpsia existe o risco de rompimento do fígado e acidente vascular cerebral (AVC). Quando a pré-eclâmpsia grave evolui para a eclâmpsia a mulher tem convulsões e pode até entrar em coma. Um dos sinais de que a pré-eclâmpsia pode virar eclâmpsia é exatamente quando ela enxerga pontinhos luminosos, a tal luz brilhante. Isso significa que o sistema nervoso central, que controla tudo o que acontece  no corpo, está irritado. Alerta máximo: as convulsões estão chegando.

Período crítico

Os sintomas costumam aparecer a partir da 20ª semana de gravidez, mas podem vir antes se a mulher já for hipertensa. Neste caso, podemos falar em hipertensão agravada pela gravidez. No caso das que nunca tiveram pressão alta antes, a hipertensão pode ser induzida pela gestação. Mas a pré-eclâmpsia se configura se existirem os três fatores ao mesmo tempo: hipertensão, inchaço e perda de proteína pela urina. Mesmo assim, é possível que uma crise hipertensiva evolua para pré-eclâmpsia ou até mesmo para eclâmpsia sem passar pelo estágio mais moderado da doença. Preste atenção e anote: se a pressão arterial está acima de 16 por 11 por mais de seis horas o quadro já é grave.

Grupo de risco A pré-eclâmpsia se manifesta em em 7% a 10% das gestantes e a eclâmpsia, em 1% a 2% das pré-eclampticas. O quadro é mais frequente em mulheres que esperam o primeiro filho, são hipertensas, obesas ou diabéticas, têm histórico da doença na família, doença renal crônica, engravidaram antes dos 18 anos ou depois dos 40, esperam gêmeos ou bebês muito grandes (mais de 4 kg). Quando a doença atinge um estágio grave a taxa de mortalidade materna chega a 30% – para o bebê,  fica entre 5% e 11%. A hora de engravidar novamente deve ser pensada: quanto mais grave o caso da doença, maior a chance de que ela se repita. Alguns dos sintomas da pré-eclâmpsia são muito comuns na gravidez, como o inchaço, que aparece em 50% das gestantes. Como saber se o simples inchaço dos pés não está mostrando que algo não vai bem? É que o inchaço decorrente da pré-eclâmpsia é um pouco diferente do edema normal da gravidez: fique atenta se ele vier de manhã e atingir a região lombar, o rosto, pernas e braços e provocar um súbito aumento de peso.

Como prevenir Mulheres que têm casos da doença na família devem tomar cuidado redobrado e começar a se tratar antes mesmo da gravidez. Isso inclui ficar de olho na dieta e, se preciso, controlar a pressão com medicamentos anti-hipertensivos. O aumento do cálcio na dieta também é recomendável. Os exames devem estar em dia e podem ajudar a detectar a possibilidade de pré-eclâmpsia antes mesmo que ela apareça. Exames de sangue, urina e o exame de fundo de olho irão dizer se está tudo ok com a mulher. Depois de engravidar, exames que medem o fluxo sanguíneo entre mãe e bebê vão garantir que a criança está recebendo os nutrientes necessários para crescer. Os exames previstos no pré-natal são importantes para fazer o controle da vitalidade fetal.

Como tratar Quanto antes a pré-eclâmpsia ou eclâmpsia aparecer, pior. Isso porque a medida mais eficaz para tratar a doença é fazer o parto. A partir de 37 semanas de gestação o feto é considerado maduro, mas muitas vezes precisamos fazer o parto antes desta data para salvar a mãe e o bebê. Antes disso, é preciso analisar a situação de saúde do feto e da mãe, a possibilidade de evolução do quadro de pré-eclâmpsia para eclâmpsia e o risco de complicações, especialmente nos órgãos-alvo da mulher: cérebro, coração e rins. Enquanto o bebê ainda não está pronto para sair, seus sinais vitais são vigiados de perto pelos médicos; a mãe, dependendo da gravidade do caso, pode ficar internada na UTI, sob observação constante.

Muitas vezes é necessário que ela tome medicamentos anti-hipertensivos, além de corticoides, que vão acelerar o amadurecimento dos pulmões da criança. Outra medida é a redução do sal na dieta e o repouso, embora o último seja controverso, já que alguns médicos defendem que a atividade física leve favorece as gestantes cardíacas. Apesar de configurar gravidez de risco, a doença não exclui totalmente a possibilidade de parto normal, desde que a mulher tenha hipertensão sob controle e boa dilatação.

E depois do parto? Se estiver acima do peso, a mulher pode desenvolver uma síndrome metabólica, que vai dificultar ainda mais a eliminação do peso ganho com a gravidez. Em 25% dos casos a eclâmpsia ocorre no pós-parto. Por isso, é importante que a nova mãe fique em observação. Se ela está vendo pontos brilhantes ou está com dor abdominal forte, atenção.

Quando a mulher não é hipertensa crônica,  a pressão arterial se normaliza em seis ou sete semanas e ela consegue levar a vida normalmente até decidir ter o próximo filho, que deve ser planejado. O pré-natal deve ser cuidadoso e o recomendável é esperar no mínimo dois anos entre o mais velho e o segundo filho.

O que acontece com a mãe

  •  Descolamento de placenta
  • Insuficiência renal
  • Rompimento do fígado
  • Hemorragia cerebral

O que acontece com o bebê

  • Diminuição do líquido amniótico e parto prematuro
  • Retardo de crescimento intrauterino
  • Sofrimento e morte fetal

Consultoria: Álvaro Nagib Atallah, pai de Alexandre e Marina, professor titular de medicina de urgência da Unifesp, nefrologista e diretor do Centro Cochrane do Brasil, tel.: (11) 5571-4721  Cleyton Angelelli, pai de Mariana e Rodrigo, pediatra do serviço de atendimento domiciliar do hospITAL israelita albert einstein, tel.: (11) 2151-1233  Cristiane Fadel, mãe de Marina e Lara, ginecologista obstetra do grupo Santa Joana e especialista em gestação de alto risco, tel.: (11) 2694-1433   Eduardo Cordioli, filho de Gerson e Elisabete, coordenador médico da maternidade do Hospital Israelita Albert Einstein, tel.: (11) 2151-1233  José Bento de Souza, pai de Fernanda e Débora, ginecologista obstetra e especialista em Reprodução Humana, tel.: (11) 3027-1500  Soubhi Kahhale, pai de Pedro, Paulo e Raphael, ginecologista obstetra, professor da FMUSP e coordenador da obstetrícia do Hospital São Luiz