Bebês

Eduardo Chaveut e Érica de Paula

Conversamos com o diretor e a roteirista e produtora do documentário O Renascimento do Parto, que estreia dia 9 de agosto

Redação Pais&Filhos

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“Qual o futuro da humanidade nascida por cirurgia cesariana, pela ocitocina sintética?”. Esta é a pergunta feita pelo médico francês, símbolo do parto normal, Michel Odent, que participa do documentário O Renascimento do Parto, e resume a filosofia defendida no longa-metragem que tem lançamento em várias cidades do país na sexta-feira, 9 de agosto.

Conversamos com o diretor do filme Eduardo Chaveut e a roteirista e produtora Érica de Paula. 

Sobre o longa-metragem, leia nossa matéria aqui.

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1- Como e por que surgiu a ideia de fazer o filme com este tema? Quais suas expectativas em relação à divulgação do filme?

A idéia de realizar esse documentário surgiu no início de 2011, quando percebemos a enorme carência de informações de qualidade sobre o assunto “parto e nascimento” no cenário brasileiro. O filme foi possível pela nossa profissão (Érica é doula e educadora perinatal, Eduardo é produtor audiovisual) e aos poucos fomos agregando diversos parceiros ao projeto, que foram fundamentais para viabilizar a produção da obra sem nenhum recurso externo num primeiro momento (como, por exemplo, o nosso diretor de fotografia Rafael Morbeck).  Esperamos que dê informações de qualidade para que as mulheres possam optar por um parto mais respeitoso, melhor para ela e o bebê.

2- A OMS diz que o melhor lugar para a mulher dar à luz é o lugar onde ela se sente mais segura. Desde quando em nosso país este lugar passou a ser o hospital? E por que algumas mulheres hoje escolhem fazer o parto em casa – indo contra a ideia de segurança e conforto que construímos em torno dos hospitais?

Antigamente, o parto domiciliar (que não deve ser confundido com parto humanizado) era realizado por falta de opção, em lugares remotos, sem estrutura adequada para emergências e por parteiras da comunidade (como ainda acontece no interior do Brasil). Com o acesso cada vez maior das pessoas aos hospitais e com o desenvolvimento da tecnologia, passou-se para o outro extremo, onde tanto o profissional quanto a sociedade começaram a acreditar que necessariamente a tecnologia e a intervenção eram superiores ao processo fisiológico ao qual o nosso corpo foi preparado durante milhares de anos. Hoje, nós propomos um meio termo, ou seja, o respeito à fisiologia na maior parte dos casos e a intervenção apenas quando for necessária (o que pode ser feito tanto no hospital quando em domicílio).

3- Como médicos, planos de saúde, hospitais e grávidas enxergam os partos normais?

As restrições de algumas instituições e profissionais quanto ao parto humanizado se deve a um desconhecimento do que seja essa proposta (que é comprovadamente mais segura e melhor para o binômio mãe/bebê e respaldada pelas evidências científicas) e aos interesses corporativistas e financeiros por trás da indústria que foi criada em torno do nascimento. Para o hospital não interessa a gestante de parto normal, que gasta apenas sua  hotelaria, além de poucas e eventuais intervenções. Para o médico, é muito mais cômodo realizar uma cesariana agendada do que aguardar por um processo tão imprevisível quanto é um parto natural. Sobre as gestantes, muitos mitos ainda imperam quando se trata da via de parto, levando-as a acreditar que a dor do parto é insuportável, que vão ficar com a vagina larga, que o parto normal é arriscado.

4- Sabemos que a cesariana tem uma taxa alta no Brasil (quase 90% das mulheres em hospitais privados realizam a cirurgia). Como é vista em outros países?

Há pesquisas que indicam que até 80% das mulheres no início da gestação relatam preferir o parto normal. Essa idéia vai mudando ao longo da gestação. Elas são induzidas a acreditar que a cesárea é mais controlada, que não há riscos, que é a melhor via de nascimento por oferecer maior comodidade, menos dor etc. Essas crenças são disseminadas nas consultas de pré-natal. Na maior parte dos países desenvolvidos (na Europa, no Japão, no Canadá), a cesárea é evitada ao máximo, só sendo realizada mediante indicações médicas reais. Existem grupos de apoio às mulheres que precisaram passar por uma cesariana, para que possam lidar melhor com esse fato (que para elas costuma ser bastante indesejado). Já em países latino-americanos (como México, por exemplo) a realidade é bastante semelhante à brasileira.

5- Por que o parto no Brasil tem que “renascer”?

Porque fomos levados a acreditar que a mulher não é mais capaz de dar à luz naturalmente, que seus corpos são falhos e necessitam intervenção salvadora em quase todos os casos, que a tecnologia está acima de qualquer coisa. É preciso redescobrir a importância e a beleza do parto natural.  Estamos acostumadas a ter o controle de tudo, e a possibilidade de vivenciar um momento no qual precisamos perder o controle e nos entregar parece realmente algo assustador. Mas, se conseguirmos ultrapassar a barreira do medo, vivenciaremos uma experiência de absoluta plenitude e conexão com algo maior. Um parto que respeita o protagonismo feminino pode ser a experiência mais empoderadora da vida de uma mulher. Algo como: “se meu corpo deu conta de gerar e parir uma criança, significa que eu sou capaz de fazer qualquer coisa

6- “Para mudar o mundo, primeiro é preciso mudar a forma de nascer.” (Michel Odent)

Para vocês, qual é a melhor forma de nascer, para termos um mundo melhor?

O parto humanizado permite que o acolhimento ao recém nascido seja extremamente suave e respeitoso. Primeiro, o trabalho de parto promove no corpo da mulher um verdadeiro coquetel de hormônios hoje conhecidos como “hormônios do amor”, que facilitam o vínculo imediato entre mãe e bebê e dão uma sensação de bem-estar. O bebê não sofre procedimentos invasivos desnecessários e pode ser conduzido da experiência intra-uterina para o mundo externo de forma gradativa, esperando o cordão parar de pulsar para então ter a obrigação de respirar sozinho etc. Sem contar que passar por esse lindo ritual de passagem também promove transformações profundas e muito positivas na mulher e em toda a família ali presente.

7- “Plano de hospitais não se interessam por mães de parto normal”. Será mesmo que este o principal motivo pela preferência de muitos ginecologistas pela cesariana, será que não é pela escolha das mulheres?

Embora existam mulheres que escolhem a cesariana, estas são minoria, de acordo com as pesquisas. Ainda assim, essa é escolha não é feita de forma totalmente consciente (com acesso à todos os dados e informações acerca dos prós e contras de cada decisão). Se as mulheres fossem devidamente orientadas sobre os benefícios do parto normal e os riscos de uma cirurgia desnecessária, certamente pouquíssimas escolheriam uma cirurgia de grande porte como via de nascimento. No Brasil, é bastante evidente que tanto os hospitais quanto os médicos não possuem o menor interesse pelo parto normal (embora para o plano de saúde este seja mais vantajoso, uma vez que custa muito menos).

8 – Todas as mulheres têm a competência de fazer parto normal? Quando, de acordo com o ponto de vista do filme e médico, é necessária uma cesariana?

Estima-se que apenas 15% dos nascimentos devam ocorrer pela cesariana. Esse dado surgiu de estudos nos países em que a cesariana era feita numa proporção inferior a essa número. Existem poucas indicações absolutas de cesariana, que são: placenta prévia, descolamento de placenta, herpes genital com lesão ativa na hora do parto, prolapso de cordão, bebê em posição transversa e ruptura de vasa praevia. Outras situações também podem indicar uma cesariana, mas devem ser avaliados caso a caso pelo profissional, em conjunto com o desejo da mulher.

9- “A capacidade de amar é em grande parte, organizada e construída durante o período em torno do nascimento”. Como o filme ilustra, demonstra e/ou (prova?) esta afirmação? Quais os benefícios reais do parto normal?

Essa afirmação tem relação com os estudos que apontam a importância da ocitocina como hormônio que está presente em boa parte das situações de vínculo e amor (por exemplo: no orgasmo, no beijo, na amamentação, no nascimento, etc). Há evidências da relação entre a ocitocina e o nosso comportamento social (compaixão, confiança, empatia, generosidade). No entanto, não somos apenas uma máquina biológica. É evidente que os hormônios são importantes, mas não é isso que define o amor e os cuidados maternos. Não queremos que as mulheres que passaram por uma cesariana ou tiveram seus filhos através de inter- venções se sintam acusadas de serem menos mães ou de não amarem seus filhos. Não é disso que se trata o filme. Não estamos abordando casos individuais, mas o futuro de uma civilização inteira nascida sem esses hormônios do amor.

 

Érica de Paula, roteirista e produtora do filme, filha de Arlene de Paula e Durval Cavalcante, e Eduardo, diretor do filme, filho de Muriel e Gilberto Chauvet.

 

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