Família

Somos todos mestiços

Branco, preto, caboclo, índio, amarelo… a lista de tonalidades da pele do brasileiro é extensa. Ainda assim existe racismo e a gente não sabe lidar

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

Sim, somos um país, ainda em sua maioria, racista. Que tem preconceito contra a diferença de cor, que pouco se mistura, que pouco o tem no seu dia a dia. Uma diferença com que ainda não sabemos lidar e muitas vezes não temos nem propriedade para falar sobre ela. Discutir a cota racial está longe da nossa vã sabedoria. Nossa, digo, dos brancos. Que não sabem, e não vivem, o que isso realmente significa na realidade de um negro. A gente tem opinião. Busca conhecimento, mas não tem capacidade de avaliar com a alma. Ou de alma. 

Levantamos a bandeira nesta edição para que todos, em algum momento e de alguma forma, olhem para as pessoas que estão a sua volta (sociedade, eu digo) e pensem que todos fazem parte de um mesmo mundo. Somos todos mestiços. Somos todos brasileiros. Já dizia Gilberto Freyre, em Casa Grande & Senzala, que “todo brasileiro, mesmo alvo, de cabelo louro, traz na alma, quando não na alma e no corpo, a sombra, ou pelo menos a pinta do indígena e do negro”. A pluralidade étnica, cultural e social, que une características e traços de povos tão diferentes, é o que faz a identidade do povo brasileiro. Somos únicos porque somos um pouco de tudo. Isso deveria nos fazer bater no peito com orgulho, porém fazemos o contrário, batemos uns nos outros. Com racismo, injúria racial e, mais ainda, quando negamos a existência desses problemas. 

E se a gente quer deixar algum legado, algum ensinamento aos nossos filhos, certamente a forma de lidar com o outro, com as diferenças, deveria ser um deles. Afinal, em algum momento a criança vai se dar conta de que o outro tem a cor diferente da dela, vai questionar, vai apontar. E a forma com que ela vai se relacionar com essa diferença depende, exclusivamente, dos pais na infância. O exemplo dos pais vai fazer da relação entre raças algo positivo ou negativo. É aí que vai se estabelecer a primeira sementinha. Perguntarmo-nos o quanto temos a mistura de raça por perto, quais papéis eles ocupam, como os deixamos se relacionar com nossos filhos, como podemos proporcionar encontros igualitários e mais uma infinidade de outros poréns é o começo de um pensamento positivo, também. 

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Assumir o assunto racial como parte do seu dia a dia é tão importante quando defender a causa. Olhar o negro, o índio, o asiático ou o branco e conviver com ele sem julgamentos, sem racismo, deveria ser premissa básica. Porque é inadmissível pensar que num país onde, pelo menos, 50% da população é negra a gente ainda tenha dificuldades de lidar com o assunto. Já ultrapassamos a África e somos mais de 100 milhões de pessoas negras, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Por que só (digo “só” propositalmente aqui) uma cor de pele pode causar tanto alvoroço nas pessoas? Tantas diferenças e distâncias. Volto a repetir: deveríamos bater no peito com orgulho. Racismo é inadmissível, em qualquer instância. 

Quando as crianças reconhecem as diferenças

Muitos estudiosos se dedicam em pesquisar a partir de que idade as primeiras manifestações de racismo aparecem nas crianças. Uma pesquisa americana chamada de Other-Race-Effect (efeito da outra raça) (ORE) diz que a partir dos 6 meses os bebês já são capazes de diferenciar rostos e proximidade com seu grupo étnico-racial. No entanto, essa distinção nada tem a ver com preconceito, seria apenas percepção. Mas crianças não nascem preconceituosas – que fique bem claro! Quando observam diferenças, as crianças descobrem um mundo distinto do seu. O que acontece é que, com o passar do tempo, também vão assimilando que existe certa valorização social de algumas características. Quando ela reconhece um colega negro, por exemplo, fala “olha, como ele é preto!” Isso é apenas um ponto de vista. Não existe valor nenhum na constatação. Só que na sequência ela recebe como resposta do adulto algo como “Psiu, não fale assim dessa pessoa!” Fica subentendido que alguma coisa dita não foi aprovada. Depois ouve em algum lugar, por exemplo, “a coisa tá preta pro meu lado” e, desse modo, pode ir associando a imagem de pessoas negras (pretas) a fatos ruins, e assim por diante. E a sementinha do preconceito acaba de ser plantada. Agora é só germinar com o dia a dia.  

“A criança brinca com japoneses, negros, deficientes e brancos. Ela não faz daquilo um preconceito a princípio, pois o comportamento em relação às diferenças é aprendido: se ela vê o pai e a mãe, o professor ou alguém que ela admira, tratando o outro com preconceito, pode fazer o mesmo”, afirma a psicanalista infantil e pedagoga Cristina Silveira, mãe de Gabriel. O preconceito é cultural e transmitido. Ele não é intrínseco. “Uma família com valores éticos não vai criar uma criança com preconceitos. A criança é muito perceptiva! Por isso, o discurso não tem tanto peso quanto o comportamento. O exemplo conta”, defende Cristina. 

Sementinha do preconceito

Apesar de não nascerem preconceituosas, quando a sementinha do racismo é plantada, germina rápido. Segundo a Anti-Defamation League, organização sem fins lucrativos dos EUA e referência em pesquisas sobre preconceito e ódio, quase metade das crianças apresenta atitudes preconceituosas até os 6 anos de idade (aqui, incluindo qualquer tipo de preconceito). 

A parte boa é que essa árvore do preconceito pode ser facilmente podada. Isso porque crianças são muito flexíveis e, provavelmente, se o seu filho teve alguma atitude dessas, pode ter cometido apenas uma manifestação – e não um comportamento permanente. “Como estudiosa da infância e da diversidade étnico-racial não acredito na existência de crianças racistas. Prefiro dizer que as crianças podem apresentar comportamentos preconceituosos e discriminatórios muito cedo. O racismo é uma ideologia sustentada na crença da inferioridade de um determinado tipo humano. Crianças estão construindo sua compreensão do mundo, por isso, podem ter comportamentos que são, por vezes, orientados por essa ideologia, mas não é permanente”, afirma a professora-doutora do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da Universidade Federal do Paraná, autora do livro infantil Cada Um É De Um Jeito, Cada Jeito É De Um, Lucimar Rosa Dias, mãe de Fabiano.

A diversidade na escola

A estudante Bolaji Alves tem 16 anos, cabelos cacheados, soltos, livres. E a pele preta. Linda. É filha de Juarez Xavier e Patrícia, que sempre a ajudaram a lidar com o preconceito na escola.  O pai, jornalista e docente da Unesp de Bauru, afirma que o trabalho realizado com a filha em casa chega a ser cansativo, mas é libertador.  “Todos os negros passam por essa experiência do preconceito, marcada pela violência – física ou subjetiva – e a segregação. Talvez por isso, nós, pais afrodescendentes procuramos blindar os nossos filhos em relação às questões raciais. Nós optamos pelo caminho oposto: preferimos criá-la para o mundo, e não apenas para nós. Militantes que somos, consideramos que seria importante para ela identificar as agressões e respondê-las. Não se autovitimar, mas também não se alienar ante a violência”, conta. Assim, educaram Bolaji a observar o racismo, a problematizá-lo, refletir sobre ele, fazer sua crítica e, por fim, colocar em prática a superação. “Creio que o aprendizado – dela e o nosso, em relação ao racismo, segregação e preconceito – tem sido positivo. A recusa à desumanização provocada pelo racismo é a afirmação de nossa humanidade. E, por isso, vale a pena lutar, desde criança”, defende. 

O contato com o outro, a vivência em uma atmosfera heterogênea poderia, com certeza, diminuir o preconceito. A escola é, também, um caminho e uma das ferramentas pela luta antirracismo, pois muitas situações da infância acontecem por lá. Mas reforço: o papel principal é sempre da família.  Não há dúvidas, conviver é agregar. “O brasileiro é preconceituoso, mas canibaliza, sentindo o preconceito sem saber que tem. Por isso, acredito que a criança tem direito a ter contato com o diferente. Afinal, como consertar o preconceito quando já somos adultos?”, finaliza Erika Balbino, escritora, e filha de Neusa e Gasparini.