Família

O mundo é preconceituoso

A cantora Claudia Dorei, que é casada com uma mulher, conta a sensação de viver num mundo em que um garoto foi espancado e morreu por ter pais gays

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

“Aos 16 anos me apaixonei por uma menina. Até então, já tinha namorado vários meninos, todos queridos e gentis, mas essa menina mexeu comigo. Quando ela me beijou fiquei toda vermelha e fugi da casa dela. Meu rosto pegava fogo. Eu achava que o porteiro, só de me olhar, saberia. Mas eu não conseguia parar de pensar nela.

Na escola eu fazia de tudo pra disfarçar. Morria de medo de alguém descobrir.

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Quando minha mãe soube, não foi nada fácil. Nem pra mim, nem pra ela. Estávamos na primeira sessão de terapia familiar, e ao responder que a Bruna era sim o que ela desconfiava – minha namorada (!) ela não aguentou e disse: “não olha mais na minha cara”. Foi a primeira e última sessão de terapia familiar.

Meu pai, por outro lado, mais velho que a minha mãe 15 anos, me chamou pra conversar. Frio na barriga. Ele sempre foi grande e assustador! Ariano, socorro!!!

“Quero te dizer duas coisas: o mundo é bissexual, alguns escolhem explorar isso e outros não, mas só lembra de uma coisa: o mundo é muito preconceituoso.”

Saí achando meu pai o máximo, mas também achando que ele era um pouco velho de achar que o mundo era preconceituoso.

20 anos se passaram.

Hoje sou casada com uma mulher e tenho uma filha de 10 anos. Somos uma família feliz e muito amorosa. Sempre fiz questão de não esconder nada da minha filha, nem da sociedade, nem dos amigos dela, nem dos pais de amigos, nem mesmo do porteiro. Só que semana passada percebi que ela estava aflita.

Morávamos em São Paulo e mudamos para o Rio de Janeiro – escola nova, amigos novos, novos pais, tudo de novo no quesito aceitação…

– O que foi filha?

Ela começou a chorar e disse que uma amiga dela que veio aqui em casa estava contando pros outros amigos que eu era gay e isso a deixava com muito medo porque o jeito que uma criança xingava a outra nessa escola era chamando de gay, e que ela queria contar aos poucos, depois que as crianças me conhecessem etc.

Enquanto nos abraçávamos e eu tentava formular a melhor resposta do mundo, minha cabeça foi inundada de memórias – piadas homofóbicas que finjo não ouvir, amigos que não podem se assumir porque trabalham em empresas caretas ou são atores/atrizes e tem medo de perder o emprego, o jeito quase carinhoso (só que não) de chamar o outro de bichinha que corre por todos os lados, o meu próprio medo, 20 anos atrás, de me assumir, os skinheads, o Bolsonaro, uma amiga dizendo que eu ser gay tudo bem, não tinha problema nenhum, mas se a filha dela virasse gay ela não ia gostar e tantas outras coisas… Só que tudo ficou muito pequeno diante do fato de que a pessoa mais importante da minha vida estava sofrendo na escola por uma escolha que eu fiz.

Fui dormir chorando.

Desde a época do meu pai eu tinha certeza de que o mundo tinha evoluído, afinal, nunca sofri preconceito desde que me assumi, tenho muitos amigos gays, não gays, gays com filhos e por aí vai. Acordei, abri o Facebook e me deparei com a notícia de que um menino de 14 anos foi espancado na escola por ser filho de um casal gay e estava internado em coma.

Marquei reunião na escola. Preciso proteger minha filha.

Depois leio que o menino morreu.

Sinto medo.

Meu pai não estava tão velho assim.

Fechei o computador e fui pegar minha filha na escola: ‘mãe, a Pillar me disse que o menino que apanhou morreu. Que horror, mãe! Fiquei com medo que acontecesse comigo, mas a Pillar disse que não vai acontecer, que não vai deixar, que morreria por mim’.”