Criança

Negligência dos pais causa trauma nos filhos

Esses pais podem ter sido negligenciados também quando crianças ou ainda serem imaturos demais para a paternidade

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

Filhos não vêm com manual de instrução e até hoje não existe um curso, faculdade ou workshop que ensine a melhor forma de criá-los. O problema é que algumas atitudes (ou falta de atitude) podem resultar em uma negligência paterna, causando acidentes ou situações traumáticas que podem trazer sequelas de diferentes níveis na criança e também nos pais.

É triste dizer isso, mas são incontáveis as situações em que os filhos são expostos ao perigo por descuido dos adultos. Recentemente o caso de um menino de 11 anos que foi atacado por um tigre em um zoológico no Paraná e teve o braço dilacerado ganhou destaque.

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A psicanalista de crianças e adolescentes da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro, Ana Maria Sabrosa, explica que existem situações em que os pais deixam as crianças brincarem com o perigo e não conseguem calcular os limites entre o que é uma simples aventura e o que é uma exposição perigosa. Ela lembra os casos em que as crianças se machucam ou perdem membros em brincadeiras típicas de festa junina ao tentar soltar rojões e fogos de artifício.

Para o psicanalista da Sociedade Paulista de Psicanálise, Fernando Savaglia, é preciso cuidado ao falar sobre negligência. “Existem atos acidentais que ocorrem por despreparo dos pais e episódios em que os pais acabam rejeitando os filhos, que podem ser sinais de uma psicopatologia”.

A psicóloga, terapeuta familiar e diretora do Centro de Estudos da Família, Adriana Zilberman, qualifica como negligência todo tipo de ação que causa um dano físico ou psicológico na criança. “Nem sempre ela é intencional, infelizmente algumas pessoas não tem preparo para exercer a função parental de forma adequada por falta de maturidade, por falhas no caráter e até por um problema pontual que pode até colocar a própria vida do adulto em risco”.

Para Ana Maria, muitos pais não conseguem oferecer todo o zelo que a criança merece porque também foram negligenciados quando crianças. Sendo assim são incapazes de transmitirem algo diferente do que receberam.

Tipos de negligência

Para a diretora do Centro de Estudos da Família, vivemos um período em que as prioridades mudaram e os pais não conseguem priorizar a família, ficam mais preocupados com o trabalho e em driblar as questões rotineiras e se esquecem de prestar atenção nos filhos.

A correria faz parte da vida de todas as famílias, e por mais que os adultos tentem, não conseguem estar presentes em todos os momentos. Mas existem casos em que pequenos esquecimentos podem trazer consequências irreversíveis, como situações em que os pais esquecem os filhos pequenos no banco de trás do carro.

Para Savaglia, assim como os animais, o ser humano é dotado de um amor biológico. “É algo instintivo, nós também temos essa relação de querer proteger as crianças o tempo todo. Quando um filho é esquecido no carro, esse sentimento é colocado de lado. É como se a ansiedade fosse maior do que o amor”.

Esquecer um filho na escola, por exemplo, pode ser uma simples falha de comunicação entre os cuidadores sobre quem buscaria, mas também pode ser um tipo de rejeição. “Isso mexe com a auto-estima e em algum momento a criança vai ter que acomodar isso dentro dela”.

Existem atitudes que podem causar traumas irreversíveis nas crianças e os pais nem se dão conta. A psicanalista Ana Maria Sabrosa conta que a cobrança pelo perfeccionismo, projetar na criança expectativas pessoais e não aceitar suas próprias características também são formas de negligência que podem levar a uma autodepreciação, dificuldade de relacionamento social e doenças.

Reaprendendo a confiar

Depois que uma negligência acontece, o melhor é reconhecer o erro e dialogar com os filhos.

Ana Maria diz que os pais podem usar os deslizes na criação dos filhos para ressignificar a convivência. “Uma relação não se constrói em um ato. Se houve uma falha, é importante fazer uma reflexão sobre o que ocasionou aquele ato. Conversar com a criança, explicar o que aconteceu e pedir desculpas pode ser uma boa forma de reverter a situação”.

Expor a situação com sinceridade para a criança possibilitará que, à medida que ela for se desenvolvendo, entenda que os pais também não são perfeitos, dessa forma, ela também vai adquirindo noção de compreensão.

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