Família

Não faça como eu faço

Educar não é só dar exemplo: certas coisas você pode fazer e seu filho não. E quando comete seus deslizes, não quer que ele imite, normal

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

A gente vive buscando a perfeição, mesmo sabendo que ela não existe. Cometemos nossos erros, o tempo todo, e acabamos nos culpando por isso. Claro que você já saiu do sério, já gritou mais do que deveria e já se pegou soltando palavrões. Ou talvez você fume e beba de vez em quando (ou mais que de vez em quando). Com certeza já mentiu para a sogra e tirou notas ruins na época do colégio. Vivem dizendo que educar é dar exemplo. É mesmo, mas nem sempre. Seu filho não vai fazer tudo de errado (nem de certo) que você faz. Em vez de ficar se culpando, converse com ele e explique o que fez e por que fez.

“Um dia, durante os meus berros pedindo que eles parassem de gritar, o Mateus me olhou e também gritando, disse: ‘por que você grita comigo?’ Fiquei sem reposta”, conta Ana Paula Puga, mãe de Mateus e Maria Vitória. Assim como esse, existem outros comportamentos que ela não quer ver nos filhos, mas que se flagra tendo. O sentimento de culpa da Ana quando leva uma “bronca” dos filhos, é normal. Somos, sim, diferentes de nossos filhos e devemos achar uma maneira de mostrar isso a eles.

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FECHAR

 Que as crianças se espelham na gente é fato. Se por um lado elas copiam algumas das suas atitudes legais, como jogar lixo no lixo ou comer uma salada, podem adquirir um hábito não tão saudável, como o de preferir refrigerantes a sucos ou até começar a fumar precocemente.

Se você sabe que comete deslizes, é capaz de identificar mais facilmente esse hábito nos filhos. Isso ajuda na hora de conversar e mostrar que não é legal. “Tem uma coisa que é importante: estabelecer regras. E as regras em casa devem ser diferentes para os adultos e para as crianças. Os pais podem, sim, tomar um vinho ou uma cerveja na frente dos filhos. E isso não é um mau comportamento ou algo proibido. A criança deve entender que aquilo ela não pode, pois é proibido para criança”, diz a psicóloga e psicanalista Cynthia Boscovich, mãe de Buno e Giovanna. O mesmo acontece com o horário de ir dormir, um comportamento muito complicado de ser administrado em muitas casas. “Horário de adulto é diferente do de criança. Criança tem rotina que começa cedo, criança precisa de mais horas de sono. Se a regra da casa é a criança dormir cedo ela tem que obedecer, independente dos horários dos demais”, diz Cynthia.

Assumir a diferença entre adultos e crianças é o primeiro passo para estabelecer os limites do que os pais podem e os filhos não. Tem horas que tem que por um ponto final. “É assim e pronto. Senão as crianças ganham espaço, começam a argumentar e os pais acabam cedendo”, diz Quézia Bombonatto, mãe do Rodrigo, psicopedagoga clínica e presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia (ABPp).

Mônica Brandão Turquetti, mãe de Isabela e Úrsula, impôs a regra do ‘eu tomo Coca-Cola e vocês suco de fruta’ e funcionou bem. “Sou louca por açúcar. Mas no leite das minhas filhas não coloco nada. E sou verdadeira com elas: digo que isso é um vício meu, que não faz bem, e que não quero que elas tenham o mesmo problema”, explica.

Mônica foi ainda mais longe. Colocou o documentário “Muito Além do Peso”, de Estela Renner, para as meninas assistirem. O filme mostra o mal que o consumo de comidas industrializadas, lanches e fast food fazem às crianças. Destacando, inclusive, a quantidade de açúcar de determinados alimentos. “Depois do filme ficou ainda mais claro para elas, porque associam açúcar a ficar gorda, e ficar gorda é não conseguir brincar porque se cansa rápido.”

Luiza Aranha é mãe de Maria Eduarda e de Pedro Henrique e, por ter sido mãe aos 16 anos e fumar dois maços de cigarro por dia, vê a gravidez precoce e o fumo com as maiores preocupações, principalmente com a  filha de 16 anos. “Respeito, conversa e limites são a base de tudo. Ela sabe o quanto é difícil largar o vício e como pode se tornar complicada a vida dela. Falar a verdade para os filhos e explicar as coisas como elas realmente são é o segredo aqui em casa para tudo funcionar”, diz.

Vício x hábito

Roer unha, beber ou fumar são vícios. E, certamente, quem tem identifica rapidinho a ponto de tentar fazer com que a criança não passe por isso. Já o hábito é algo que vai sendo construído ao longo do tempo. É gritar, comer mal, dormir tarde, não escovar os dentes ou gastar demais. Isso faz parte do comportamento humano e, muitas vezes, passa despercebido. É aí que mora o perigo. “O vício, em geral, a pessoa tem consciência que tem. Ela sofre de um transtorno por algo que não lhe faz bem. O hábito pode passar no dia a dia, na rotina. E aí, quando menos se espera, a criança está imitando o comportamento”, diz Quézia.

“Quanto menor a criança, menos palavras são necessárias e mais atitudes. A criança se baseia pelo concreto”, diz Cynthia. Ou seja, não adianta dar inúmeras explicações de teorias para uma criança de 2 anos. Com 4 e 5 anos eles começam a perguntar, então é preciso mais conversa.

Hábitos à mesa

A alimentação talvez seja o principal desafio na educação dos filhos. Quem tem hábitos saudáveis queixa-se de que o filho come mal. Quem come mal, por mais que tente, acaba cedendo à tentação para si e, de lambuja, para o filho. “Obesidade pega, sabia? E passa de pai para filho”, ensina Quézia.

Dados de 2013 do Jornal de Pediatria mostram que os hábitos alimentares e a prática de atividade física em crianças de 7 a 12 anos está diretamente ligado ao perfil de um dos pais da criança. Ou seja, pais preguiçosos tendem a gerar filhos preguiçosos. E mais: além da mesa, os hábitos de higiene bucal da criança também estão associados a bons ou maus hábitos dos pais.

Em vez de se culpar porque seu filho anda mal-educado, não escova os dentes ou come demais, corra pra mudar de atitude!

Lado A

“Um dia, durante os meus berros pedindo que eles parassem de gritar, o Mateus me olhou e, também gritando, disse: ‘por que você grita comigo?’ Fiquei sem reposta. Para meus filhos não gritarem eles precisam ver que existem maneiras diferentes para se comunicar. Mas eu sempre gritei demais”, Ana Paula Puga, mãe de Mateus e Maria Vitória.

Lado B

“Sou louca por refrigerante, mas elas não tomam. E nunca pediram, porque desde sempre instituí que era bebida de adulto. Nunca teve discussão por causa disso. Acho que elas percebem o quanto eu sofro com as dietas e entendem que não precisam disso no futuro”, Mônica Brandão Turquetti, mãe de Isabela e Úrsula.

Como meu filho se comporta?

Meu filho tem febre, não dorme, é muito ansioso antes de uma viagem.

“Converse com ele, aponte as coisas legais da viagem, dê segurança e diga que o brinquedo ou a festa estarão lá à espera dele.”

Beatriz Zogaib, mãe de Leonardo, 4 anos

Ela rói unhas

“Sempre roí unhas e ela me via fazendo isso. Na fase que roeu, expliquei como eram tão bonitas as unhas pintadas de quem não roía. Com muita paciência e diálogo ela parou.”

Luísa Aranha, mãe da Eduarda, 16 anos, e do Pedro Henrique, 10 meses

Falo palavrões e meu filho repete

“Primeiro se controle e tente não falar palavrões na frente das crianças. E explique pra eles que não é uma coisa bonita e que a mamãe ou o papai errou ao falar.”

Gabi Hayakawa, mãe de Eduardo, 5 anos, e Camila, 1 ano

Ela está dormindo muito tarde e acordando após as 10h

“Sou notívaga desde criança e acabo dormindo menos do que eu preciso. Para a Victoria, estabeleci uma rotina que eu considero saudável e não deixo de prestar atenção, senão ela vara a madrugada comigo.”

Camila Perlingeiro, mãe de Victoria, 3 anos

Ele é vidrado em celular e computador

“Como estou viciada em redes sociais, o meu filho me vê o tempo inteiro teclando no Facebook e Instagram. Estou me policiando para não fazer isso na frente dele, já que é bebê e ainda não entende.”

Michelle Mariotto, mãe de João, 6 meses

Meu filho grita

“Para meus filhos não gritarem eles precisam ver que existem maneiras diferentes para se comunicar. Mas eu sempre gritei demais. Experimente falar baixinho ou num tom de voz normal, mesmo quando estiver brigando ou com raiva.”

Ana Paula Puga, mãe de Mateus, 5 anos, e Maria Vitória, 3 anos

Consultoria:

Cynthia Boscovich, mãe de Buno e Giovanna, psicóloga e psicanalista membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise Winnicottiana e autora do site www.cuidadomaterno.com.br

Quezia Bombonatto, mãe do Rodrigo, psicopedagoga clínica e presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia (ABPp)