Família

Não é o fim

A separação pode ser o início de uma vida mais feliz. Com isso em mente, fica mais fácil livrar-se da culpa

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

Em um jardim de gramado verdinho, um casal – com dois filhos lindos e um cachorro brincalhão, claro – toma café da manhã em um domingo ensolarado. Por mais gasta que essa imagem possa parecer aos olhos dos nossos tempos, quando nos casamos e decidimos compor família a ideia que nos passa pela cabeça em geral não é tão distante dessa. Mas casamentos às vezes acabam. E, muitas vezes, acabam antes de terminar. Pois é, parece incoerente, mas, se as brigas passaram dos limites ou a indiferença tomou conta da casa, acabou. Mesmo sem ter terminado oficialmente.

Para nós, pais, a separação geralmente causa culpa. Tudo passa pela cabeça, inclusive que estamos desmanchando a família e os planos feitos lá atrás. Mas adiá-la pode ser pior. Sim:  o sofrimento da criança pela perda da família é grande, mas ela sofre também ao testemunhar ou intuir os atritos entre os pais. “Em geral, os casais pensam que a separação vai produzir uma perda, e vão levando um casamento em condições muito difíceis. O que eles não percebem é que nesse momento uma outra perda já está acontecendo, que é a do desmantelamento conjugal”, diz a psicanalista Ana Laura Giongo, mãe de Anita e Marina.

Quando decidiu se separar, há cinco anos, Simone Boletta não tinha mais um casamento. Moravam na mesma casa, no bairro paulistano da Mooca, ela, a filha Juliana e o ex-marido. Simone, no entanto, dormia no quarto da filha. “A gente só dividia a casa e as contas, mas éramos dois estranhos”, conta. “A Juliana não era muito de falar, mas a gente sabe que filho sofre com esse tipo de coisa.” Entre o casamento acabar e terminar de fato, se passou quase um ano, em que nenhum dos dois conseguia seguir em frente. Até que chegou o momento do basta. Antes de mais nada, Simone falou com Juliana. “Acho que o fato de a conversa ter sido sempre muito aberta contribuiu para que ela passasse por esse processo de uma forma relativamente tranquila.”

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Efeitos colaterais
Durante o processo do divórcio, é importante deixar claro para a criança que a decisão não diz respeito ao amor que pai e mãe sentem pelo filho. “Sempre é importante reforçar que o pai continua sendo o pai, e a mãe continua sendo a mãe, e nenhum tipo de rejeição está acontecendo em relação à criança”, diz a psicóloga especializada em educação infantil e terapia de família Andrea Bellingal, mãe de Hannah e John Lucas.

Nessa hora, aliás, é fundamental que pai e mãe não se deixem cair em armadilhas, na ânsia de tentar compensar a criança pela perda da família. “É frequente que, por culpa da separação, os pais deixem de exercer suas funções de pai e mãe – não impõem limites, toleram maus comportamentos, tentam apagar os sofrimentos dando presentes e brinquedos ”, explica Ana Laura.

O desacordo entre os pais a respeito de aspectos básicos na vida e na rotina dos filhos também pode trazer consequências ruins. Segundo Ana Laura, não é incomum que essas crianças aprendam a manipular regras. “Na infância pode ser que isso não seja especialmente problemático, mas, ao chegar na idade adulta, pode ser que a pessoa não tenha aprendido a lidar com limites onde não há escolha a não ser respeitá-los.” O resultado, por exemplo, é um adulto que repete padrões de desistência – empolga-se facilmente com novos projetos, mas desiste deles com a mesma facilidade.

Por isso, quaisquer que sejam as desavenças entre você e seu ex-parceiro, entre pai e mãe, guardá-las entre vocês dois é o melhor. “A separação é um jogo entre os  adultos”, ressalta Andrea. “O maior erro que os pais podem cometer é usar a criança para atingir um ao outro – ela deve ficar fora do conflito”, diz.

Tudo nas costas de um
Às vezes acontece de um dos dois – frequentemente a mãe – se sentir carregando o piano. É aquela sensação de estar sobrecarregada: arruma para a escola, dá almoço e jantar, manda fazer lição de casa, manda para o banho, dá bronca quando precisa… Aí, quando chega o final de semana do outro, é só alegria: passear no parque, levar ao cinema, jogar videogame. A mãe ou o pai que lida com o dia a dia sem a ajuda do outro pode se sentir injustiçado. Reverter essa situação requer uma mudança de postura e, às vezes, de perspectiva.

“A dinâmica com o filho após a separação em geral reproduz a relação que havia até então. Muitas vezes uma pessoa se separa da outra por se incomodar com a postura em relação ao filho e espera que, após o divórcio, essa postura mude”, comenta Ana Laura. Segundo ela, pais que dividem tarefas antes da separação, em geral, continuam assim depois que ela acontece. Mas a psicanalista alerta: “Forçar a barra de alguém que não está disponível pode ser muito ruim para a criança, gera um sentimento de rejeição”. Ana Laura pondera que há pais que não têm muito mais do que o final de semana para dar – e isso não quer dizer que eles não possam estabelecer uma relação significativa com a criança. “O pai  pode ser desligado do dia a dia, mas, quando leva a criança para seu universo, fornece referências simbólicas importantes”, diz.

Redescobrimentos
No final de um casamento, quando o afeto está desgastado e o amor já acabou, é bastante comum que a autoestima dos dois esteja em estado de calamidade. A escritora Sofia Fada, mãe de João, conta que, entre saber que precisava terminar o casamento e se separar de fato, transcorreu-se um ano inteiro. “O casamento foi conturbado, eu acabei me afastando um pouco das minhas amigas, e fiquei mal comigo mesma. Aquele foi um ano de retomada de autoestima”, diz. Algum tempo depois de terminado o casamento, Sofia conheceu seu atual marido, de quem ela agora espera o segundo filho – muito aguardado por João, que hoje tem 12 anos.

Segundo Ana Laura, essas novas configurações, mais felizes e gratificantes do que as anteriores, têm efeitos muito positivos para os filhos. Primeiro porque, quando os pais estão mutuamente envolvidos, e não apenas com a criança, ela deixa de ocupar a posição de “reizinho”, percebe que não é o centro único da vida deles. Além disso, a maneira como o companheiro percebe e se comporta em relação ao pai ou à mãe da criança afeta a forma como ela os percebe. “Quando os casais se reconstituem e o pai, por exemplo, encontra outra pessoa que se apaixone por ele, a criança vê que ele não é só aquilo que a mãe via”, diz.

Arthur Siqueira Jorge Neto passou por uma separação bastante traumática. A mãe de sua filha, Ana Beatriz, hoje com 10 anos, chegou a impedir que o pai a visse enquanto corria o processo da separação, durante quarenta dias, quando a menina tinha apenas 1 ano. Em desespero, ele chegou a cogitar pedir uma ordem judicial para buscar a menina na casa da mãe, mas, aconselhado por uma amiga psicóloga, desistiu da ideia pelos possíveis traumas que a ocasião poderia deixar na menina. Depois de nove anos e de muitas sessões de terapia, Arthur está agora em um casamento feliz – coisa que acredita tê-lo ajudado a manter uma relação saudável com a filha. “É muito legal, porque elas são amigas, e a Ana chega a trocar confidências com a Mariana”, relata. “Minha filha é muito família, e torço muito, sem demagogia, para que a mãe dela encontre alguém e seja feliz, porque a melhor situação é aquela em que todo mundo está feliz.”

Separação e felicidade não são conceitos antagônicos. Mas é a longo prazo que eles se tornarão harmônicos. Inclusive para as crianças.

O QUE É ALIENAÇÃO PARENTAL?
A lei federal 12.318/2010 assegura à criança ou adolescente e ao pai ou mãe a garantia do direito às visitas, a não ser nos casos em que há risco para a integridade física ou psicológica do filho, o que deve ser constatado por um profissional designado pelo juiz. A alienação parental acontece quando quem ficou com a guarda desqualifica sistematicamente o outro diante da criança, dificulta que exerça o papel de pai ou mãe, omite de propósito informações importantes sobre a vida da criança, muda-se para um lugar distante para dificultar a convivência ou ainda faz acusações falsas ao ex ou a sua família, para tentar manter o filho longe. Caso isso aconteça, quem estiver sendo lesado pode entrar com uma ação.

A ARTE IMITA A VIDA – Livros infantis que falam do assunto

Mamãe é grande como uma torre, de Brigitte Schär
A protagonista do livro tem uma mãe do tamanho de uma torre – ou da falta que ela faz – e um pai do tamanho de uma caixa de sapatos.
Cosac Naify, R$ 49
editora.cosacnaify.com.br

Duas casas e uma mochila, de Sonia Mendes
O livro conta a história de Clara, uma menina que vive a separação de seus pais e fica dividida entre as casas dos dois.
Editora Mar de Ideias, R$ 21,50
mardeideias.com.br

Quando os pais se separam, de Emily Menendez Aponte
A autora, ela mesma filha de pais separados, aborda o fato de que os filhos não são culpados pela separação.
Girassol, R$ 19 
girassolbrasilcom.br