Família

Minhas duas mães

Mãe só tem uma? Nem sempre. Cada vez mais, casais de mulheres decidem ter filhos, seja por meio de adoção ou inseminação artificial

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

As crianças estão bem. Essa é a tradução literal do título do filme “The kids are all right” ou “Minhas mães e meu pai”, como foi chamado por aqui. A história da família formada por duas mães e seus filhos Joni e Laser, concebidos por inseminação artificial, mostra isso: que fica tudo bem – mesmo sem um pai por perto. Entre 8 milhões e 10 milhões de crianças crescem em famílias homoafetivas nos EUA, com dois pais ou duas mães, segundo o Child Welfare Information Gateway. Essas crianças podem ter sido geradas por um casal heterossexual que se separou e depois foram criadas  pela mãe e sua namorada (ou pai e namorado) ou ter sido fruto de uma inseminação ou adoção planejadas pelo casal homossexual.

Casamento gay deve ser realizado pelos cartórios

Anúncio

FECHAR

Idade máxima para ser mãe: 50 anos

Adoção passo a passo

Uma pesquisa do Datafolha feita em 2010 mostrou que 39% das pessoas já são favoráveis à adoção por homossexuais, enquanto 51% são contra. A tendência é que o grau de aprovação aumente com o tempo, já que entre os mais jovens, entre 16 e 24 anos, a prática é apoiada por 58%, enquanto que entre os que têm 60 anos ou mais, por apenas 19%. Quanto maior a escolaridade, menor o preconceito também. Assim como, logo que o divórcio foi aprovado, em 1977, a preocupação com o futuro das crianças de pais separados era grande, o mesmo acontece com os filhos de duas mães ou dois pais. Mas, assim como é melhor ter pais separados do que viver numa casa em que o conflito e as agressões entre os pais são constantes, pode ser bom ter duas mães.

Um estudo publicado em julho de 2010 no periódico médico Pediatrics mostrou que filhos de mães lésbicas têm mais autoestima e confiança, além de terem melhor desempenho na escola e menos probabilidade de ter problemas comportamentais, como agressividade. Não está muito claro o motivo dessas diferenças, mas a pesquisadora Gartrell tem uma teoria: as mães homossexuais são muito envolvidas na vida dos filhos. Ser presente, ter uma boa comunicação e estar informada sobre os eventos escolares são alguns dos ingredientes para formar uma criança saudável, lembra a pesquisadora. Apesar desse envolvimento não ser exclusividade das mães lésbicas, Gartrell mostra que, para elas, isso é uma prioridade. Como seus filhos estão mais vulneráveis ao preconceito, essas mães têm mais facilidade em abordar tópicos complicados, como sexualidade, diversidade e tolerância. Essa base pode dar às crianças mais confiança e maturidade para lidar com diferenças sociais e preconceitos conforme ficam mais velhas.

Em janeiro de 2011, duas mulheres conseguiram na Justiça brasileira o direito de aparecer como mães na certidão de nascimento de seus filhos gêmeos, Ana Luiza e Eduardo, que já tinham 1 ano e 8 meses na época. Os gêmeos são filhos de Munira e Adriana e foram gerados por inseminação artificial no útero da Adriana com os óvulos de Munira. Alguns casais já conseguiram certidões como duas mães ou dois pais ao adotar uma criança. Em relação à inseminação artificial, o Conselho Federal de Medicina divulgou novas regras explicitando o direito dos casais homoafetivos que recorrem ao tratamento.

Nos EUA, alguns grupos se referem a essas famílias como “intencionais” ou planejadas, em oposição a famílias cujos filhos nasceram de uniões heterossexuais e agora são criados por dois pais ou duas mães, mas nem todo mundo gosta desse termo. “Se eles são intencionais, eu sou o quê?”, disse uma menina de 13 anos para a escritora Abigail Garner, autora do livro (e agora site) Families Like Mine: Children of Gay Parents Tell It Like It Is” (Famílias como a Minha: filhos de Pais Gays Contam Como é). O pai de Abigail contou para ela que era gay quando ela tinha 5 anos. Em seu site, Abigail conta que sofreu durante a adolescência principalmente por causa do preconceito da sociedade. “Não é fácil crescer ouvindo todo dia dos meios de comunicação, líderes políticos, professores e vizinhos que pessoas gays são más, pecadoras ou erradas. Quando falam dos gays assim, eles ofendem a mim e a meu pai e seu parceiro, dois homens que eu amo e respeito.”Em alguns países, estimular a convivência com as diferenças, incluindo famílias homoafetivas, é política pública. A antropóloga Érica Renata de Souza apontou, em sua tese de doutorado intitulada “Necessidade de filhos: maternidade, família e (homo)sexualidade”, feita em 2002, que as escolas públicas de Toronto, no Canadá, têm programas contra a homofobia desde a primeira série do ensino fundamental. Isso já acontecia no Canadá há quase uma década. Por aqui, as escolas pouco ou nada falam sobre o assunto. Os livros infantis traduzidos para o português ou escritos por autores brasileiros também são escassos. Há algumas publicações sobre crianças com dois pais, mas praticamente nada a respeito de duas mães.

Mas aos poucos, vamos caminhando. O filme “Minhas mães e meu pai” foi recebido numa boa, ajudando a dar mais visibilidade ao tema. “Tem mais visibilidade, mas isso não significa mais aceitação”, afirma a antropóloga Érica de Souza. É verdade. Foram poucas as mulheres que quiseram revelar seus nomes e rostos à Pais & Filhos. A maioria delas preferiu não se expor. Talvez por causa de seu instinto materno (em dobro) de querer proteger os filhos.

Duas mães, nenhum pai

Tem de  haver uma mãe e um pai, mesmo num casal homossexual? Não necessariamente. “Não tem pai. É mãe e mãe. As duas desempenham o papel de mãe”, afirma Munira. “Acho demagogia falar que uma família é composta por pai, mãe e filho”, acredita. Na casa de Vanessa e Patrícia, mães de Davi, de 2 anos, também há duas mães – e ambas tiveram licença-maternidade na época da adoção. Uma é a “mamãe” e a outra é a “mama”.Mesmo sendo mães, elas cumprem funções diferentes. “Eu cuido quando ele fica doente, e a Patrícia fica mais com a parte da diversão”, conta Vanessa. “Sou contra chamar uma das mães de pai. A gente luta muito pelos direitos da mulher. Fazer isso é machismo”, garante Yone Lindgren, vice-presidente da ABGLT (Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais), mãe de Janaína, Rafaela e Wagner, que foi assassinado há três anos (suspeita-se de um crime de homofobia).E o tal do exemplo masculino? “Freud descrevia que é necessário que toda criança tenha convivência com o pai e com a mãe. Aí os anos foram passando e a gente passou a ter mães solteiras, casais divorciados, e os filhos eram maravilhosos. Desenvolviam-se bem”, diz a psicopedagoga Claudia, que é homossexual e mãe de Vitor, mas não quis revelar seu nome verdadeiro. “O pai representava o que trabalhava fora, dava a regra, o limite. A mãe ficava em casa. A mãe era a emoção, e o pai, a regra”, completa. Na opinião dela, não precisa de duas pessoas para cumprir esse papel. Uma mulher sozinha pode dar limites, regras e ser afetuosa. Um homem também. E um casal homossexual também.Referenciais masculinos não faltam no mundo. Tem os tios, primos, amigos, professores… “A gente não vive num universo só de mulheres, as crianças lidam com ‘n’ homens na vida”, diz Yone. Além disso, o pai presente é uma conquista recente. Até alguns anos atrás, quase não havia a presença masculina em casa, porque eles saíam cedo e voltavam tarde do trabalho. E não é pela falta de um homem em casa que o filho vai se tornar gay. “O menino, se não tiver uma tendência para a homossexualidade, vai encontrar modelos para se identificar e para formar a sua identidade”, explica a psicoterapeuta Alina Purvinis, mãe de Larissa, Letícia e Liana. Filhos de mães lésbicas têm a mesma probabilidade de se tornarem gays que qualquer outra criança.

Crianças felizes

“Os filhos de casais homossexuais são crianças que respeitam mais aquilo que é diferente. Não vão olhar torto para um cadeirante na rua, não vão desrespeitar uma criança com necessidades especiais. Não colocam rótulos”, acredita a psicopedagoga Claudia.A  psicóloga Lídia Aratangy, mãe de Claudia, Silvia, Ucha e Sergio, brinca: “Já pensou duas mães em cima delas?”, mas complementa, falando sério: “Duas mães é melhor que uma mãe sozinha sem pai”, acredita.Numa cena do seriado Friends, em que Carol, namorada de Susan, vai ter um filho de Ross, o ex-marido de quem engravidou e de quem se separou ao se descobrir lésbica, surgem várias brigas entre o pai e a namorada da mãe. Susan reclama: “Você é o pai da criança! Quem sou eu? Tem dia das mães, dia dos pais… Não tem Dia da Amante Lésbica”. E Phoebe entra na conversa: “Quando eu era criança, meu pai saiu de casa, minha mãe morreu, meu padrasto foi preso. Nunca pude juntar os pedaços para ter um pai por inteiro. E essa criança tem três pais que ligam tanto para ela que estão brigando para ver quem pode amá-la mais. E ela nem nasceu. É a criança mais sortuda do mundo”.