Família

Família é modo de vida

Haroldo aprendeu a ser pai sendo filho, sobrinho, primo e neto.

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

Soube que seria pai no dia 11 de setembro de 2001, quando, já exausto de trabalhar como jornalista e de ver repetidas vezes as imagens dos aviões trombando com o World Trade Center, um teste de farmácia confirmou a notícia mais impactante do dia: Joana estava grávida. Não foi nada difícil.

Helena nasceu no dia 22 de abril de 2002, e, em 15 de dezembro de 2005, virou irmã do Francisco. Nas famílias de meu pai e de minha mãe, esta especialmente numerosa, os adultos sempre foram muito companheiros das crianças. Conversavam sobre os descalabros da política brasileira, futebol, trabalho ou sobre o tempo, e aos menores era sempre permitido participar e palpitar.

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À noite, sob a sombra da árvore mal-iluminada pelo poste da esquina, em Iepê (SP), minha avó paterna reunia os filhos e genros para falar sobre o tudo e sobre nada. E naquela casa todos eram bem-vindos. Como ficava em frente ao posto de saúde, quase todo dia aparecia uma comadre: minha avó foi madrinha de dezenas de crianças. Minha avó materna fazia mais ou menos o mesmo, de outras formas, em outros espaços.

Criança é um igual, nos diziam, com gestos, não com palavras, tios, tias, primos e primas mais velhos. Ser pai, no fundo, não me parecia muito diferente de ser mãe. Tudo bem que minha mãe não jogava futebol, mas ela dirigia centenas de quilômetros por dia para ir trabalhar e nos levar à escola (não estou exagerando), confiava quando o filho de 11 anos dizia que podia trocar o pneu, parava na estrada quando via um pé de gabiroba e levava os amigos no parque de diversões. Meu pai sempre tentou cozinhar, às vezes pintava a parede, e até hoje lava pratos (quando a alergia a sabão e detergente está sob controle) e arruma a cama.

Uma vez, quando eu tinha uns 9 anos, meus pais convidaram uma prima de minha mãe, Valdelis, para passar férias em casa. Cinco dias depois ela pegou um ônibus com a gente, para percorrer os 500 km de distância entre São Paulo e a cidade em que vivíamos, Martinópolis (SP). Valdelis levou os dois filhos (Ricardo e Rafael) e a filha (Cristiane). Eram, portanto, meus primos de terceiro grau. Ficaram, diz minha memória, um mês. Praticamente não nos conhecíamos, mas na viagem de ida já havíamos nos tornado grandes amigos. Neste ano de 2013, fui visitar Cristiane em Viena (Áustria), onde ela mora com o marido e duas filhas. Ficamos na casa deles. As meninas falam português com leve sotaque e têm mais ou menos a idade dos meus filhos. Lamentei não ter levado Helena e Francisco, para muvucar de vez o apartamento. Se tudo correr naturalmente, outras oportunidades surgirão, e as quatro crianças – primos em quinto grau, se não errei a conta – serão também grandes amigos.

O texto era sobre ser pai e acabei escrevendo mais sobre como fui neto, filho, sobrinho, primo. No fundo, é isso que me emociona: família para mim nunca foi uma instituição sagrada, a ser preservada. Foi sempre um jeito de viver, compartilhar experiências, brigar, aprender, divertir-se e, principalmente, praticar a igualdade. Quando sinto que cumpro esse papel, apoiando na lição de casa, ajudando as crianças a lidar com uma prova ou com a desatenção de amigos ou amigas, a conhecer novas pessoas e enfrentar novos problemas, entendo que estou sendo o pai que eu gostaria de ser. Mas o que sei mesmo é que tenho filhos muito bacanas, me orgulho deles, choro com eles, às vezes eles me irritam, normalmente me acalmam. Paro o texto por aqui, porque está na hora de brincar.