Família

Crônica de um filho

André cresceu imerso em cultura, história e literatura, ouvindo o som incessante da máquina de escrever do pai, o escritor Ignácio de Loyola Brandão

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

“Aprimeira lembrança certa e forte que tenho do meu pai é do dia em que ele saiu de casa. Eu tinha 3 anos e meio mais ou menos. É como se a história dele começasse ali para mim. Ficou gravada a imagem de um caminhão subindo devagar a rampa da garagem, eu triste vendo a silhueta quadrada e metálica saindo do escuro e sumindo, no branco. Já ele lembra diferente, eu na janela do apartamento, lá em cima, triste, vendo ele partir.

As muitas memórias que seguem são de alegrias. Brincando na sala do apartamento da Bela Cintra, cheia de livros com a grande mesa de madeira, jogando futebol no chão de tacos do quarto vazio, paredes também cheias de livros. Deitados na cama e ele lendo O Velho e o Mar para mim e meu irmão, domingos de futebol no Ibirapuera, depois de Tom e Jerry no Cine Sesc. Indo de Cometa para Araraquara e comendo churrasquinho com queijo nas paradas, Paraty, dormindo no colo dele em restaurantes, a viagem de quase dois meses para Salvador. O barulho da máquina de escrever no quarto ao lado, o dia nascendo, ainda escuro. As cartas e os cartões incríveis que ele mandava de Berlim, o envelope AirMail com as bordas coloridas.

Anúncio

FECHAR

Ficar com ele sempre foi leve, alegre, tinha um sabor de escape, sonho, liberdade. Um mundo de pessoas interessantes, livros, lançamentos, visitas a camarins e ensaios de peças, gravações de programas de televisão, entrevistas, palestras, Fellini. Anita Ekberg, deusa na Fontana di Trevi, Gigetto, Hitchcock, Zero, O Pagador de Promessas, Giovanni Bruno, John dos Passos, Faulkner. Mila Moreira, Bruna Lombardi, Fernando de Barros, Getúlio Vargas saudando o povo numa filmagem do João Batista de Andrade, Truffaut, Billy Wilder, Rita Hayworth, Marilyn.

Eu ficava totalmente absorvido, respirava seu amor pela história, pela fantasia, pela literatura. Pelas possibilidades. Ele tem um interesse constante pela vida, uma curiosidade incessante sobre as pessoas, suas histórias, sonhos, desejos, segredos e loucuras.

Uma  sagacidade aguda e simples, universal e interiorana ao mesmo tempo. Que ele expressa pelo seu amor ao escrever. Ele escreve, escreve, escreve, é impressionante. Um ímpeto natural, poderoso. O mesmo, provavelmente, que fez com que já aos 16 anos começasse a trabalhar para um jornal em Araraquara. Ímpeto era só o que ele tinha quando veio para São Paulo, aos 21 anos, em 1957. Para construir uma história linda, admirável. Vê-lo hoje na estatura que sua carreira atingiu, com uma enorme cultura e profundidade, mantendo a humildade e simplicidade dos que ainda querem descobrir, é emocionante.

Há pouco mais de um ano a Stella nasceu, o filho virou pai, que virou pai e avô. Um sábio amigo me disse uma vez que ter filhos é se unir a um elo ancestral que te liga a todos os seus antepassados e às gerações futuras.  Força viva que vem de um começo perdido no tempo.

Talvez na própria força das primeiras sensações, que permanecem em nós, também diluídas, delicadas, sutis. Os primeiros contatos com um filho tem de fato uma força voraz, magnética, implacável, uma verdade instantânea, que me pareceu uma lembrança mais do que um aprendizado. Stella trouxe, de alguma forma, a sensação dos meus primeiros momentos com meu pai. Meu pai e eu, impregnados com o avô, bisavô, tataravô, longo fio de primeiras sensações.

A silhueta sobe a rampa, na garagem uma criança sozinha olha, tomada de confusão, sentimentos novos e fortes. O caminhão some no branco, o pai olha a rua pelo vidro com alívio e tristeza, lá em cima vê a criança acenando da janela. O pai-avô se mistura ao filho, filho-pai, vira pai, que vira avô, a vida segue nos nossos olhos e sobrancelhas. Desde aquele primeiro momento.”