Família

Com nossos pais: Mauro Beting

Segundo Mauro, quem entende de economia em casa não é o famoso comentarista

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

29/11/2012

Quantas coisas que não gostaríamos de ter dito às pessoas queridas e deixamos de fazê-lo por falta de tempo, coragem ou detalhes do cotidiano? Hoje, faleceu um dos ícones da imprensa brasileira, o jornalista Joelmir Beting, que estava internado há mais de um mês em estado de coma decorrente de um acidente vascular encefálico hemorrágico, ocorrido no dia 25 de novembro. Seu filho, Mauro Beting, também jornalista, escreveu uma carta emocionante dedicada ao pai e publicada na Folha de S. Paulo de hoje.  

Há cinco anos, o jornalista esportivo já havia escrito um depoimento sobre seu orgulho de ser filho de Joelmir. Confira a declaração de Mauro Beting publicada na edição 444 da Pais & Filhos:

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Mauro Beting, filho de Lucila e Joelmir

Aprendi com meus pais (aliás, a expressão deveria ser “minhas mães”, mas essa é uma outra história – até porque esta revista teria de mudar de nome) tudo o que aprendo com meus filhos: amor.
Porque isso não se explica, não se quantifica, não se fala. Se faz.


Meu pai e minha mãe não são do tipo “faça-isso” ou “tira-o-pé-de-cima-da-mesa”. Eles fazem. Eles se amam e se respeitam. Eles transmitem essa lição de berço. (Sei que está piegas. Mas tem como falar da mãe e do pai de outro jeito? Tem, se você nasce Drummond, não um esforçado jornalista esportivo. Mesmo que filho de quem sou, não posso aprender tudo).


O meu pai é o melhor jornalista que um pai pode ser. E é o melhor jornalista que um filho pode ter como colega de profissão. Minha mãe resolveu ser mãe profissional. Aluna brilhante como o meu pai, largou a faculdade para cuidar de mim e de meu irmão mais velho. Depois, voltou às aulas, continuou nota dez, mas resolveu trabalhar com o marido que sempre trabalhou como um pai precisa, nem sempre como os filhos gostariam que fosse preciso.

Não fosse a Mamma, o Babbo não seria o brilhante profissional de TV, jornal, rádio e internet, sem contar as palestras tão boas como o Palestra Itália da família. Sabe como é: à frente de todo homem de sucesso existe sempre uma mulher que sabe mais e faz tudo. Em casa, que o Brasil não escute: quem entende de economia é a dona Lucila, não o seu Joelmir.


Virei jornalista por DNA. Sou neto, filho, sobrinho, primo e marido de jornalistas. Culpa de pai e mãe. Mas a responsabilidade não pode ser considerada materna. Quando viu que eu só queria fazer isso na vida, ainda conseguiu que eu fizesse Direito – o mais torto possível. Desiludida, só fez um pedido: ‘Tudo bem, pode ser jornalista. Mas, por favor: só não seja jornalista esportivo’.


Filho ingrato, trabalho em TV (aberta e fechada), rádio, jornal, blog, internet. Tudo por esporte.
Talvez os meus pais pudessem ter me ensinado a ser mais organizado, menos bagunçado, menos folgado nas coisas da casa, mais responsável para lembrar das contas e das tarefas do lar como lembro do lateral-esquerdo do Olaria. Mas já estou meio grandinho para saber que certas coisas não precisam ser ensinadas.

 
Como uma lição que eles nunca me deram, mas me passaram em cada gesto que não se gasta e não tem preço: não tento ser o melhor no que faço na vida. Tento, apenas, ser o mais feliz. E isso fica fácil quando tenho os filhos que me iluminam, quando tenho a mulher que amo. E quando os pais ensinam, pelo amor que têm pelos netos, que tudo vale a pena.
Porque os avôs não estragam os meus filhos. Eles trazem para eles a vida como ela deve ser. Uma doação irrestrita. Um amor que não pede explicação, muito menos devolução.
Não por acaso o meu mais velho, sem saber, como sempre, me ajudou a terminar um texto sem fim. Soube explicar – perguntando – o que eu não consegui nestas linhas, depois de um dia de férias e de passeios na casa da avó:
— Nonna, onde você aprendeu a ser tão legal?
               
 

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