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As novas avós

As novas avós

Redação Pais&Filhos

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Apesar de terem menos tempo para ficar com os netos, elas têm uma relação com as crianças hoje que pode ser muito mais bacana

Por Marcia Lobo, avó de Carol, Duda e Babi

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O telefone tocou no final da tarde de quinta-feira. Era a Duda, minha neta mais nova, de 4 anos. Toda animada, contou a novidade: “Vovó, vou dançar na festa junina da escola no dia 7. Vou usar uma saia rodada colorida. Você vem pra me ver?”. Fiquei com o coração apertado. Não podia ir. Moro a uns 300 km de distância, o dia da festa caía num sábado e tinha uma montanha de trabalho para entregar na segunda. Expliquei e acho que aceitou numa boa. Carol, a mais velha, de 6 anos, faz tempo que entendeu que, se a vovó não aparece num aniversário ou na apresentação de fim de ano, é porque está trabalhando. Mas, nessas horas, tudo que eu queria era ser uma avó à antiga, sempre disponível.

Tenho certeza, porém, de que a gente não se curtiria tanto se as coisas fossem diferentes. O barato da nossa relação está nesse jogo aberto: sabem que tenho outros compromissos e nem sempre dá para nos vermos. Em compensação, quando dá, é para valer, com paparicação e conversa. É uma das maiores vantagens que as avós do terceiro milênio levam: como temos vida própria e fazemos mais o gênero figurinha difícil do que móveis e utensílios, a qualidade do relacionamento está acima de qualquer obrigação. Temos também mais a oferecer do que nossa simples presença. Nada disso acontece por acaso, se bem que a sorte tenha a ver – a sorte que nos fez nascer na época certa. Porque, lembra a psicoterapeuta Lidia Aratangy, co-autora de O Livro dos Avós, pertencemos à primeira geração de mulheres liberadas que foram à luta por uma carreira e tiveram filhos a partir dos anos 70.

Não chego a ser uma mistura de Vovó Donalda com Dercy Gonçalves, como minha contemporânea Rita Lee se descreve, mas tenho lá meus momentos. Considerei  um elogio daqueles de lavar a alma o que Carol me disse, há dois anos. Estávamos deitadas contando histórias. Eu contava um pedaço, ela continuava, e assim por diante. De repente, falei alguma coisa bem absurda sobre uma família de pica-paus que tínhamos inventado e minha princesinha caiu na risada: “Vovó, você é muito maluca!” Adorei. Poucas coisas são mais gratificantes do que ter o que a dra. Lidia chama de “um mundo de experiências diferentes” para estimular a imaginação de uma criança e conseguir esse tipo de retorno. O que, com raríssimas exceções, avós de outras gerações não conheceram porque elas e os netos falavam línguas diferentes.

Dona Benta não mora mais aqui

Significa também que temos pela frente um desafio sem precedentes. Antigamente, esperava-se que uma avó fosse parecida com a Dona Benta: doce como as receitas que preparava, sessentona, possuidora de fascinante sabedoria, mas que não ultrapassava a porteira do Sítio do Pica-Pau Amarelo. No início do clássico Reinações de Narizinho, da década de 20, Dona Benta aparece assim: “Numa casinha branca (…) mora uma velha de mais de sessenta anos [eu não me sinto velha e tenho certeza de que muitas avós de hoje também não]. Quem passa pela estrada e a vê na varanda, de cestinha de costura ao colo e óculos de ouro na ponta do nariz, segue seu caminho pensando: – Que tristeza viver assim tão sozinha neste deserto…"

Engana-se quem pensa isso. Segundo Monteiro Lobato, Dona Benta é a mais feliz das vovós, pois tem a netinha para preencher os seus dias… Era mais do que suficiente. Hoje, se você não for o que se convencionou chamar de “uma avó moderna”, vai levar um baile. Crianças de 4 anos sabem ligar e desligar todos os aparelhos eletrônicos da casa, pilotam controles remotos como se tivessem nascido com eles nas mãos, ficam antenadas no noticiário da tevê, são capazes (como a Carol fez várias vezes) de ensinar ao motorista do táxi o caminho até o consultório da médica, pedem (do jeitinho que a Duda me pediu) para você tirar uma foto e mandar pelo computador.

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Mais cumplicidade

Não é necessariamente que a meninada de agora seja mais esperta (embora eu, como toda avó, ache as minhas uns gênios). Da mesma forma que no nosso tempo de criança, para os nossos netos tudo também é novo, digno de atenção. O problema está no fato de que este “tudo” tornou-se infinitamente maior. Suas chances de ter um bom diálogo dependem do quanto domina o mundo que se abre para eles. Por isso, para a maioria das mulheres que foram mães que trabalhavam (e agora são avós que trabalham ou recém-aposentadas), criar cumplicidade com os netos é até fácil. Sem contar que o tipo de vida que levamos nos tornou mais cheias de energia. Um estudo feito por geriatras ingleses descobriu que, em média, nos sentimos 20 anos mais moças, independentemente de idade. No que me diz respeito, acho que estão cobertos de razão.

E sabe o melhor? Ter netos faz bem à saúde e prolonga a vida, segundo o dr. Renato Maia Guimarães, da Associação Internacional de Gerontologia e Geriatria. Porque a sensação de sermos importantes para eles é um estímulo como poucos. Também concordo. E foi Carol quem me fez ver isso muito claramente. Sentada no meu colo, assistia a um desenho na TV. Não me lembro qual, mas me lembro como seu corpinho se contraiu na cena mais triste da história, quando a heroína (uma menina de 4 anos, sua idade na época) perde a avó. “Ela morreu, não foi, vovó?”, perguntou baixinho. Tentei tratar o assunto com a maior naturalidade possível: “Foi sim, querida. Mas já era beeeeemmm velhinha”. Depois de alguns segundos, ela voltou para mim aqueles grandes e brilhantes olhos castanhos: “Vovó, você já é beeeemmm velhinha?”.

Foi a mais linda e sincera declaração de amor que ouvi na vida. Garanti que não – porque era verdade e porque naquele momento me sentia ao mesmo tempo quase uma adolescente e mais avó do que nunca. A pergunta também me fez pensar na minha avó, que, como minha neta, se chamava Carolina e comigo nada tinha em comum além do DNA. Não chegou à minha idade; mas, ao morrer, com quase 60 anos, já era bem velhinha. Casou-se com o primeiro namorado, teve cinco filhos e, depois disso, nenhuma vida própria. Cozinhava divinamente e a máquina mais sofisticada que usou era a de costura. Fotos antigas mostram uma senhora gordinha, de óculos, cabeça quase branca, expressão severa – não porque fosse assim, mas porque detestava tirar retrato.

Só depois de adulta, ouvindo histórias sobre ela, me dei conta de que tinha sido mulher de grande senso de humor. Alguém, enfim, que não cheguei a conhecer porque o fato de ser sua neta punha entre nós uma barreira de “respeito” que aumentava o abismo das gerações. Imagino que teria uma síncope se imaginasse que, um dia, eu me comportaria tão “mal” – por  exemplo, tomando banho com as minhas netas. Por outro lado, aposto que se deliciaria se soubesse que os filhos não tinham razão quando faziam a eterna reclamação: “Mãe, você vai estragar esses meninos”. Especialistas dizem que não é bem assim. Desde que não passe por cima dos pais, é até bom a vovó de vez em quando liberar geral. Para a educadora Tânia Zagury, os mimos fortalecem a auto-estima das crianças. A psicoterapeuta Olga Tessari concorda: é importante que elas tenham alguém para lhes conceder alguns caprichos. É importante, também, para as avós, que já tiveram de ser rígidas ao educar os filhos.

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Avós mais novas

Com a expectativa de vida passando dos 70 e uma parcela das mulheres voltando a se tornar mães mais cedo, calcula-se que uma típica avó moderna tem, em média, 54 anos e continuará firme até os netos se casarem. Hoje vivemos uma situação bem inusitada. Por um lado, temos uma turma crescente de mulheres se tornando mães pela primeira vez depois dos 40 – o número de mães de primeira viagem entre 40 e 49 anos aumentou 26,9% no Brasil –; na outra ponta, um alto índice de mães com 20 anos ou até menos, fazendo de suas próprias mães avós na faixa dos 40.

É o caso de Rosangela Lyra, 43, mãe de Caroline, 20, e avó de Luca, primeiro fillho do jogador Kaká, que nasceu em 10 de junho de 2008. Ser mãe jovem é quase uma tradição na família de Rosângela, que nasceu quando a mãe tinha 18 anos e teve Caroline aos 21, em 26 de julho, Dia das Avós. “Hoje há as duas realidades: a madrinha de minha filha vai ter gêmeos agora, aos 44, quase a mesma idade em que me tornei avó.”

A vantagem de ser avó cedo, para ela, é ter energia para sentar no chão e brincar, inventar jogo e estragar o neto mesmo. “Ser avó é muito gostoso. Fiquei horas com o Luca nos braços, só olhando- o respirar. Quando tive a Caroline, a sensação foi diferente, aquela tremedeira. Hoje posso ficar curtindo o neto”. E, claro, mantendo a elegância total e tocando seu trabalho na Dior, grife que dirige no Brasil há mais de dez anos.

Quer dizer, nós, as avós do terceiro milênio, poderemos curtir durante cerca de 20 anos esses que a escritora Rachel de Queiroz comparava a heranças porque “você os ganha sem merecer. Sem ter feito nada para isso, de repente lhes caem do céu”.

Na verdade, mesmo quando um compromisso nos impede de ver nossa Duda dançar, todas nós, lá no íntimo, somos iguais. Como diz a inglesa Lois Wyse, autora de mais de 40 livros sobre relações familiares, “uma mãe se transforma numa avó no dia em que pára de prestar atenção nas bobagens dos filhos porque está encantada demais com as coisas maravilhosas que os netos fazem”. Bem que eu gostaria de estar lá, mas não preciso ver para ter certeza de que Dudinha vai arrasar.

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