Família

Á moda francesa

Parece que existe uma fórmula mágica para educar filhos na França. A jornalista Pamela Druckerman se supreendeu com a existência desse cenário

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

É  verão em Paris, tempo das famílias saírem de férias com os filhos. Bean é um bebê de 1 ano e meio que vive com seus pais, dois jornalistas típicos estressados, há meses sonhando com uma escapada. Pela primeira vez, a menina sai de férias com eles rumo ao litoral francês. Hospedam-se num pequeno hotel e, à noite, caminham pela orla até encontrar um restaurante agradável para jantar ao som do barulho das ondas batendo nas pedras. Sentam-se em uma mesa na varanda, escolhem os pratos e Bean se distrai com um pedaço de pão e algumas frituras do couvert. A distração dura 30 segundos. Na cena seguinte, a pequena parece ligada no 220 W. Começa a sacudir saleiros, rasgar pacotinhos de açúcar, puxar a toalha, e tenta de todas as formas alcançar a taça de cristal em que seu pai se preparava para dar o primeiro gole em um autêntico Bourbon.  Logo Bean exige ser libertada do cadeirão para poder correr pelo restaurante e sair em disparada na direção do cais.

O episódio é a narrativa de abertura do livro Crianças Francesas Não Fazem Manha (do original Grouwing up Bébé, editora Fontanar, R$ 29,90), best seller escrito pela jornalista americana Pamela Druckerman, que no Brasil já vendeu mais de 75 mil cópias, e que deu origem ao segundo livro Crianças Francesas no Dia a Dia – Um Guia Prático com 100 Dicas para Educar Filhos (do original Bébé Day by Day). Demitida do Wall Street Journal, onde foi correspondente internacional e chegou a trabalhar inclusive no Brasil, Pamela resolveu buscar outros rumos na vida e acabou conhecendo e se casando com Simon, comentarista esportivo inglês baseado em Paris, onde foram morar e tiveram seus três filhos.

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A mudança a Paris trouxe à tona uma série de observações sobre como as crianças francesas são educadas, não só com os pais, mas com a sociedade. Desde a saída a um parquinho até uma refeição no restaurante, tudo chama atenção por tamanha disciplina e educação dessas crianças.

A alimentação infantil é assunto de muitas páginas em ambos os livros. No primeiro recheado de histórias em que Pamela divide os dilemas e angústias que viveu até entender e aprender a fórmula francesa de educar crianças. Ela conta o quanto ficou chocada ao testemunhar como as crianças francesas a sua volta se mostravam incrivelmente bem comportadas. Elas comiam normalmente os mesmos alimentos dos pais – a entrada, o prato principal, os acompanhamentos, os queijos e as sobremesas – enquanto seus pais degustavam calmamente os deles, sem terem que lidar com montanhas de guardanapos picotados, comida derramada pela toalha e pelo chão e, mais surpreendente, sem crises. Pamela desconfiou que havia  “uma força invisível e civilizadora”: na mesa das famílias francesas  e que não havia nas mesas que costumava ocupar com o marido e a filha Bean. Antes de pôr em prática o juramento que fez com o marido ao sair daquele restaurante de Lyon – de nunca mais viajar e  tentar se divertir enquanto Bean fosse pequena e não ter mais filhos –, Pamela resolveu investigar a fundo o que estava por trás daquele cenário  “Ilha da Fantasia” das famílias francesas. Levantou o que elas comiam e, principalmente, qual era o segredo para conseguir fazê-las comer com tamanha naturalidade os mesmos pratos dos pais, sem fazê-los sentir que jantar fora fosse um desafio capaz de levar à loucura qualquer monge budista.

O modelo francês aos olhos brasileiros

Comer direito e com bons modos é na França parte da cultura e um fundamento indispensável no universo da educação infantil, seja na escola (a maioria das crianças francesas vai pra creche antes de completar 1 ano), seja em casa ou em qualquer outro espaço.

Como fazer seu filho acreditar que só se pode tomar refrigerante de vez em quando se toda hora ele vê você abrir a geladeira e sair tomando uma Coca-Cola? “Quando falamos em educação alimentar devemos abrir uma pequena brecha para a alimentação gestacional, pois a partir dos hábitos da mãe podemos quase prever os hábitos da criança”, explica Fabiana Gonçalves Ferreira, nutricionista clínica do Hospital do Servidor Público Municipal, especializada em nutrição pediátrica. “As mulheres parisienses são recordes em disciplina e não vivem fazendo dietas restritivas por períodos sim e períodos não, simplesmente mantêm um mesmo equilíbrio alimentar sempre. As brasileiras, ao contrário, são mestres em alternar períodos de privações com outros de total compulsão alimentar, como acontece na gestação, baseadas numa crença equivocada de que o momento justifica comer por dois. As francesas comem sempre por um e sempre pouco! Até porque os limites de calorias acrescidas por mês de gestação na França são pequenos e elas sabidamente seguem como leis sagradas”, diz Fabiana. “Talvez esse seja um primeiro extremo entre as brasileiras e as francesas, o comer com privação; basta ter em mente que se eu me acostumar a comer com moderação jamais precisarei ter privação”, analisa Fabiana.

Pra quem pretende reproduzir dentro de casa o cenário de sonho que encantou Pamela, o mote é “trate seu filho como um pequeno gourmet e ele vai (pouco a pouco) se tornar um”. Não é como em um passe de mágica que as crianças francesas se tornam educadas e calmas à mesa. Isso tudo é fruto de muito treino e práticas baseadas na teoria francesa que não recompensa as birras, valoriza a autonomia, faz com que a criança entenda que precisa esperar, não faz chantagem, e uma série de outros valores. O capítulo alimentação ganha força para nós, brasileiros, que estamos enfrentando uma epidemia nacional de crianças obesas. Vale ler os mandamentos como regras de pediatra e colocar na cabeça que você é responsável pela educação alimentar do seu filho e que, muito, ele aprende por imitação. Coragem. Vai dar tudo certo.

Os mandamentos da nutrição infantil, segundo os franceses

 1.  Refeições em etapas, sendo legumes e verduras primeiro.“Não seguimos para o prato principal enquanto não tiverem comido pelo menos um pouco, e geralmente comem tudo”, relata Pamela em seu livro.

2.  Hora certa pras refeições. “Bebês e crianças gostam e precisam  de uma rotina bem estabelecida. Sentem-se mais seguros e confiantes ao longo do dia e noite também”, afirma a dra. Renata Scatena, médica pediatra da Sociedade Brasileira de Pediatria. É importante planejar refeições completas e adequadas para cada momento do dia.

3. Kids Menu? Essa moda não existe em Paris. Crianças não têm direito a um cardápio especial, comem os mesmos tipos de pratos oferecidos aos adultos, seja em casa ou no restaurante. “Crianças têm os pais como modelo, e se eles comem alimentos saudáveis, terão curiosidade de experimentar o mesmo alimento”, afirma a dra. Renata Scatena.

4. Abaixo a despensa lotada de doces, com livre acesso.  “Meus filhos vão para a mesa com fome porque, exceto pelo goûter, eles não beliscam. O fato de as outras crianças ao redor deles não beliscarem ajuda, mas chegar a esse ponto exigiu vontade inflexível”, conta Pamela.

5. “Meu sossego por um biscoito.” Resista bravamente a essa tentação. Seu sossego estará garantido se você for firme com a disciplina e a criança perceber que não tem choro nem vela, regra é regra e de nada adianta fazer manha.

6. Seja o porteiro da geladeira. Crianças francesas não têm permissão para abrir a geladeira e pegar o que desejam sem que a mãe ou o pai autorizem.Deixe bem claro para seus filhos que você e o pai deles são os donos da geladeira, ou seja, só quem pode abrir e retirar coisas dali são vocês e ninguém mais.

7. Dia de cozinhar. Crie como rotina o programa de irem juntos escolher legumes e frutas, chamando atenção para os formatos e cores. “As crianças ADORAM ajudar e participar das atividades da rotina da casa. Tudo vira festa!”, afirma a dra. Renata.

8. Capriche na criatividade e apresentação dos pratos. Se um dia ela não se interessou pelo espinafre refogado, no outro dia ele chega à mesa em forma de suflê, em atraentes potinhos coloridos, pode apostar que ao menos ela vai provar. Os franceses acreditam na insistência.

9. Você escolhe, ela escolhe. O que colocar na mesa é sua escolha, o quanto comer quem escolhe é seu filho. É importante ele sentir que é sempre parte do processo da alimentação, na compra, no preparo e também na quantidade que deseja comer.

10. Nada de “faça o que digo, não faça o que faço”. Nada do que foi mencionado vai funcionar se seus filhos presenciarem você comendo porcarias entre as refeições ou determinar que as crianças comam verduras, enquanto você e o pai deles se esbaldam em um prato de frituras. Educação pelo exemplo, como em qualquer lugar do mundo, é lei no território do bem educar na França.

No final das contas, o que talvez esteja por trás do conceito francês de educar é que os franceses têm uma relação mais natural e menos obcecada (ou culpada) com o corpo, o envelhecimento, a comida, a criação dos filhos, o trabalho etc. “E resta a nós, não franceses, sabermos o que aproveitar e o que rejeitar dessa filosofia de vida, afinal, ninguém é perfeito, e todos podem aprender e ensinar alguma coisa. Encare os relatos nos meus livros como inspiração, não como doutrina”, sugere Pamela.