Família

A importância de ter um irmão

Entenda por que nada substitui a experiência de dividir a infância com um irmão

Redação Pais&Filhos

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Eles brigam, quase sempre, mas se amam, quase sempre. O vínculo que une os irmãos é um dos menos estudados, ainda que seja um dos mais expressivos que existem. Até o início dos anos 1990, a maioria dos estudos sobre a família avaliava a estrutura, as relações e as dinâmicas envolvidas nas casas, do ponto de vista dos pais com os filhos. O que acontecia entre os irmãos não parecia tão relevante. Mas, hoje, a relação fraternal tem sido avaliada com lupa, e o resultado é que os irmãos são considerados uma influência às vezes ainda mais importante do que os próprios pais.

Se, na família tradicional, a mãe ocupava o centro do palco como a figura mais importante das dinâmicas, a família contemporânea oferece hoje diversas possibilidades de interação. Irmãos não se divorciam, não criam novas famílias e têm uma presença mais próxima e constante na vida uns dos outros, especialmente na infância, mas também ao longo da adolescência. Um estudo realizado pela Penn University, nos Estados Unidos, aponta que irmãos passarão 33% da vida juntos.

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São eles quem ensinam, na prática, a dividir, ainda que às vezes na marra, objetos e afetos, é com os irmãos que se tem contato com a dinâmica complexa de viver em sociedade, onde é necessário fazer concessões, perseverar, lutar por seus direitos, enfim, conviver. Caso contrário, as consequências podem ser desastrosas. Os irmãos não são escolhidos, como os amigos.São as pessoas com quem você divide a casa e os pais, sem ter pedido. Por isso, aprender a negociar com eles é um passo importante.

Os casais se separam muito mais hoje. Segundo o Núcleo de Estudos Populacionais da Unicamp, o Nepo, são mais frequentes as separações nos casamentos nos primeiros dez anos de relacionamento. Até a nova lei que tornou o divórcio mais fácil, era mais comum que os casais se separassem a partir de 20 anos de casamento.

Com o aumento dos recasamentos, as novas famílias são formadas muitas vezes com filhos dos casamentos anteriores. Também há núcleos em que a figura paterna inexiste (como é o caso de mulheres que optam por inseminação artificial). Também se tornam cada vez mais corriqueiras as famílias em que há dois pais ou duas mães. Ou seja: muita coisa mudou, mas a constante em nos relacionamentos são justamente os irmãos.

Eles continuam a exercer um papel parecido com  aquele que sempre exerceram: são os primeiros iguais com quem aprendemos a lidar. Se a relação com os pais é vertical, os pais são os chefes da família, a relação entre irmãos é em tese horizontal: têm os mesmos direitos.

“Irmãos podem se tornar cúmplices e se apoiar em situações difíceis. Mas isso depende de como a família se organizou para acomodá-los”, diz a psicanalista Maria Cecilia Pereira da Silva, mãe de João e Maria,  membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). Para ela, a qualidade do vínculo depende dos pais e de sua capacidade de se dividir entre os dois. Ou seja: permitir a criação desse vínculo e apoiar o seu fortalecimento é papel dos pais, sim.

“O nascimento de um irmão para o filho mais velho é um problema, a primeira coisa que ele pensa é que se os pais gostassem tanto dele assim não precisariam ter outro filho. Como o casal lida com isso e como evita dar mais atenção a um do que a outro é o que vai determinar a qualidade do relacionamento entre os irmãos, é o que determina se eles vão criar uma relação de cumplicidade ou não”, explica Maria Cecilia.

Cabe aos pais mostrar que cada um tem seu lugar e é esse percurso que permite aos irmãos criar vínculos que podem durar a vida inteira. “Se os irmãos conseguem superar esta primeira etapa do ciúme e da disputa pela atenção dos pais, terão dado um passo para ficar mais fortes em sua relação e também com o resto do mundo”, afirma.

A relação entre irmãs tende a ser mais forte

Tanto em seu lado positivo, quando há cumplicidade, tanto na rivalidade. Para os estudiosos do London King´s College, mesmo quando irmãs se afastam, tendem a se unir novamente na velhice. Entre as razões para reforçar vínculos, estão as lembranças das brincadeiras partilhadas na infância.

Hoje, os casais brasileiros têm em média 1,9 filho, segundo os dados do último Censo, realizado em 2010. Em menos de 20 anos, estima-se que a taxa de natalidade no país chegue a 1,5 filho por casal, os mesmos parâmetros europeus, os mais baixos do mundo. Com a queda da natalidade, irmãos pareciam ter os dias contados, mas, graças a essas novas dinâmicas familiares, surgiu a figura dos “novos irmãos”.

“Como em um casamento tradicional, irmãos e meio-irmãos também precisam aprender a conviver e criar uma dinâmica para se entender uns com os outros. São relações mais complexas, mas que estamos todos aprendendo a entender”, diz a psicanalista Maria Angela Santa Cruz, coordenadora do Núcleo de Referência em Atenção à Adolescência e Juventude do Instituto Sedes Sapientiae, de São Paulo.

É o caso das irmãs Mariana e Ana Elisa, filhas da diretora de arte Ana Cristina Milano Franco, mas de pais diferentes. Mariana, a mais velha, com 14 anos, nasceu no Canadá, para onde Ana se mudou quando se casou pela primeira vez. Ana Elisa nasceu 12 anos mais tarde e hoje divide a atenção da mãe com a irmã mais velha. “A Mari é a ídola master da Ana Elisa. Aliás, a ciumenta aqui em casa é ela!”. Para ela, a grande diferença de idade entre as duas ajudou a criar uma relação forte entre as irmãs.

“Ter uma irmã mais velha para a Ana é o máximo. Mas cabe a mim preservar a relação que eu tenho com a Mari. No meio do ano, fizemos uma viagem só nós duas para termos um tempo juntas, sem nosso terremoto”, brinca. Estudos mostram que, depois da mãe e do pai, o irmão mais velho é, de fato, a figura mais importante.

Esse é o tipo de formação familiar que tem tido mais crescimento no país, a das chamadas novas famílias. É uma maneira de ter a experiência de conviver com irmãos, já que a taxa de fecundidade não vai voltar a crescer tão cedo. Segundo Lucia Mayumi Yazaki, mãe de Guilherme e de Gustavo, demógrafa da Fundação Seade, a tendência maior no momento é a de estabilização.

A taxa de fecundidade no país caiu muito e rapidamente: nos anos 80, era de 4,4 filhos por casal e hoje, apenas 30 anos mais tarde, é de apenas 1,9. No Estado de São Paulo, é 1,7 – ainda mais baixa. Mas isso não significa que haverá menos irmãos no mundo. “Temos toda uma nova gama de arranjos familiares para preservar esse relacionamento. Mesmo no caso de quem mantém o casamento original, é preciso conviver com diferentes famílias, onde há irmãos de outros casamentos”, diz ela.

O fim do filho do meio

A tendência de menos filhos por casamento marcou a quase extinção do filho do meio. “Hoje as famílias tendem a ter dois filhos. Percebo que, nas classes econômicas mais baixas, em que o número de filhos é maior, as mulheres têm mais filhos do que gostariam, enquanto o oposto acontece nas classe mais alta, as mulheres têm menos filhos do que prefeririam”, diz Glaucia Marcondes, filha de Roberto e Nair, do Nepo.

O ponto fora da curva são as mulheres que optaram por ter três filhos ou mais. “Existe uma fatia da população, ainda que muito pequena, com três filhos, menor ainda com quatro, e quase inexistente com cinco. Mas elas não existem em número grande o suficiente para alterar a curva demográfica. Isso porque, na outra ponta estão mulheres que não querem ter nenhum filho.”

Essa é a média tanto em famílias ditas tradicionais, quanto nas compostas por adoção. As irmãs Marina, 16, e Tatiana, 9, são exatamente como outras irmãs no país, segundo a mãe, a editora de imagem Eleonora Casali: ambas passam por fases de ódios e de amor, brigam por tudo e por nada. Tati foi adotada pela família quando tinha 2 anos.

“Não vejo muita diferença no dia a dia. Como em qualquer gravidez, tivemos de esperar por Tati, e a Marina participou do processo todo. Se eu tivesse engravidado novamente, ela também teria esperado. Só que pela Tati esperamos dois anos em vez de 9 meses.Talvez para a Marina tenha sido mais complicado, porque ela não era mais um bebê, já interagia e sabia se defender muito bem, já que chegou com 2 anos.”

Segundo Eleonora, o casal não ficou elaborando grandes teorias para criar as duas filhas. “Acho que não interferimos muito, claro, o que podia, podia o que não podia, não podia. Mas elas criaram sozinhas o vínculo entre si. Não forçamos a aproximação nem a intimidade, elas mesmas construíram isso e a gente acha que tem dado muito certo”, diz Eleonora.

Os estereótipos relacionados aos filhos também começam a ruir, o filho mais velho nem sempre é o mais mimado nem o caçula, o rebelde e o do meio, o que tem menos atenção.

As novas formações rearranjam essas “castas” e um caçula pode encontrar um novo irmão ainda mais novo em uma família recasada. “Todas essas relações ganharam novas complexidades. E, na verdade, o que acontece é que as expectativas e os desejos dos pais podem ser diferentes quando nascem seus filhos. O primeiro é muito festejado, é um sonho que se realizou; o segundo filho encontra um casal mais maduro e mais sábio, que aprendeu a dosar as expectativas”, diz Maria Ângela.

E quando não há um irmão? A falta de um companheiro para dividir a infância não torna os filhos únicos despreparados. A observação de caso com filhos únicos em estudos de diferentes países e por instituições diferentes mostra que eles encontram substitutos para os irmãos entre os amigos e aprendem a interagir com eles. Não há registros de que o filho único enfrente problemas de relacionamento por não ter tido irmãos.

Ter um irmão previne alergias

Talvez não seja exatamente como entre irmãos, que dividem tudo, desde os pais até o quarto, e disputam o último chocolate no armário. Não passam juntos por festas de família em que os cortes de cabelos duvidosos ficam estampados para a posteridade em fotos. Nem tiveram de participar, juntos, de uma aula de artesanato de que nem gostavam. Essa intimidade e a cumplicidade de quem passou poucas e boas juntos é mesmo um privilégio de irmãos.

Como os pais podem ajudar que os irmãos se tornem amigos

• Crie um “dia do filho único” e faça programas separados com cada um;

• Permita que façam atividades e tenham interesses diversos: natação pode ser ótima para os mais velho, mas o mais novo pode preferir teatro;

• Não comparar notas ou desempenho escolar: cada filho deve ser estimulado a melhorar em relação aos seu prório desempenho, não em relação ao do irmão;

• Não incite a competição entre eles;

• Adote uma postura apaziguadora nos conflitos;

• Garanta que saibam que são igualmente amados;

• Respeite as diferenças etárias de cada um;

• Permita que tenham amigos e uma vida particular exclusiva;