Criança

Inclusão social é pouco

Escola de São Paulo adota método diferenciado para que crianças especiais tenham inclusão social e intelectual

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

Já eram 17h e esperava o táxi me pegar. Estava no portão observando o movimento enlouquecedor que só o final do dia em um colégio com mais de 600 crianças pode ter. Mães e pais, avôs e avós paravam o carro, ou desciam para buscar os pequenos. Marcela corre de um lado para o outro e, como as crianças chamam todos por aqui, ela é a “prô” que os leva e os coloca no carro. Eu olho e tento “adivinhar” quais das crianças são autistas, quais não. Sim, parece um pensamento estranho, sem contexto, ou bobo. Mas foi essa a sensação que tive e o desafio a que me lancei após passar o dia todo na escola Paulicéia, no Campo Belo, em São Paulo.

Por mais de quarenta minutos eu só olhei e sorria com a animação das crianças que ainda pulavam, gritavam, se alegravam e chegavam contando aos pais sobre seu dia. “Foi muito legal eu brincar na escola hoje, papai”, disse um menino de uns 2 anos. Bom, quando chegou o táxi, pensei ‘é, eu não sei diferenciá-los’. A não ser por uma dificuldade muito grande ao se locomover ou por traços típicos, no caso da Síndrome de Down, eu não diferenciava os pequenos com deficiência daqueles que não possuem nenhuma.

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E no Colégio Paulicéia é assim. Todo mundo junto e misturado. Cada um visto de forma particular e única, mas incluso de forma completa. “Inclusão social não basta. É pouco. Escola não é clube, é um lugar para se ensinar e se aprender. Aqui, eles vão ter a convivência social, mas vão aprender de verdade. De verdade e de acordo com suas condições. Aqui não é faz de conta”, afirma a psicóloga e pedagoga, diretora do Paulicéia, Carmen Lydia da S. T. de Marco. Lá estudam 600 crianças, sendo que 20% delas são deficientes e 50% dos deficientes apresentam um quadro de autismo (em diferentes níveis).

De acordo com a diretora, é possível um tratamento dessas crianças deficientes. “O autismo é uma condição sem cura, mas tem um tratamento sim, que é a educação”, defende.

Um método de tecnologia social

Carmem é referência nacional no assunto, dá palestras e cursos em todo o Brasil sobre o modelo de inclusão monitorada, um método de “tecnologia social”, adotado no Paulicéia que permite aos alunos deficientes e não deficientes conviverem e aprenderem juntos, na mesma sala de aula (escola regular), as matérias básicas da grade curricular, além de música, teatro, educação física e artes. O método educa crianças desde os dois anos até o ensino médio. Ademais, Carmem também coordena um Projeto de Trabalho Integrado (PTI) que permite a inclusão dos deficientes no mercado de trabalho depois que terminam os estudos.

Apesar de trabalhar na escola, fundada por sua mãe há 53 anos, desde que tinha 14 anos, a diretora admite que cada criança que chega ainda é um desafio para ela e sua equipe, que, aliás, é seu ‘maior patrimônio’, segundo Carmen.

O método funciona, simplificadamente, da seguinte maneira: cada aluno da escola é avaliado de forma particular, sendo vistas suas facilidades e suas dificuldades. Depois de analisada, a escola busca canalizar “o lado bom” de todos os alunos, buscar seus talentos.

As crianças e adolescentes com autismo, por exemplo, recebem o material personalizado – com mais detalhes e figuras, já que seu aprendizado é muito mais eficiente com ilustrações. Além disso, o colégio dispõe de professoras bastante preparadas, uma equipe de psicólogos, pedagogos, terapeutas ocupacionais e das “APs”, profissionais que fazem um atendimento personalizado nas aulas, ou seja, acompanham os alunos deficientes em sala. Por conhecerem a criança profundamente, garantem que apreenda o conteúdo conforme suas condições. Para incluir, é preciso personalizar e, depois, generalizar.

Além dos profissionais bastante envolvidos e treinados semanalmente (no colégio trabalham 140 funcionários e 80 estagiários no total), o material é personalizado (com mais detalhes, desenhos e fotos pessoais, ao invés de desenhos abstratos, por exemplo), os alunos aqui podem contar com a última tecnologia que garante a comunicação alternativa. Por exemplo, os autistas com quadro não-verbal contam com softwares em notebooks e tablets que traduzem seus sentimentos, dores, vontades. Em um clique no desenho correto, uma voz diz para a professora o que ele quer ‘batata frita’, para onde quer ir ‘sala de música’, ou alguma dor ‘cabeça’, ‘barriga’, e assim por diante. Um desses programas se chama ‘Que fala!’ e é usado não só na escola, mas em casa também.

Para facilitar a comunicação, os comandos são personalizados por uma especialista da escola em comunicação alternativa. Ela interpreta e dispõe no material, contendo os lugares e as comidas preferidos, as dores mais freqüentes e animais e objetos que fazem parte do cotidiano da criança. No programa de Paula, uma das alunas da escola, tem a foto da Tchutchuca, sua cachorra de estimação. Quando deseja ‘brincar’ com o pet, aperta o botão. Uma das possibilidades, por exemplo, são números e um dos botões diz ‘celular da mamãe’, caso a criança se perca ou esteja em algum lugar sem a presença dos pais.  “Você já imaginou que coisa maravilhosa é esta tecnologia? Antes, essas crianças não conseguiam se comunicar de forma tão efetiva. Sentiam ansiedade, ficavam desesperados. Esses dias, a Paula estava querendo algo e a frase era longa… Quando terminou de nos mostrar o que queria dizer, sentou-se e suspirou aliviada. Foi uma cena linda, ela estava feliz por conseguir se comunicar”, conta a diretora.

“A gente aprende no acerto”

A diretora do colégio acredita que a gente aprende no acerto. “Não tem isso de aprender no erro. Quando fazemos uma atividade e acertamos, nossa sinapse é direta, entendemos aquilo e da próxima vez que formos realizar, conseguiremos acertar. Mas, para tanto, a gente trabalha com a hierarquia de dicas”, explica.

Com a hierarquia, as professoras vão ensinando, dando dicas e, ao longo do tempo, deixam que a criança realize a atividade sozinha, até chegar ao ponto em que não precisa de ajuda, pois entendeu o que deve fazer. É como se o conteúdo fosse dividido em vários pedacinhos, passado aos poucos.

Para as crianças deficientes ou com dificuldades, existem também as minissalas, onde fazem atividades individuais, que vão desde saber se alimentar corretamente, até reconhecer cores, formas, animais etc. As assistentes personalizadas realizam as atividades e vão anotando o desenvolvimento da criança, que só vai passar de ano ou parar com as atividades na minissala quando realmente tiverem entendido o conteúdo. Esse tipo de atividade só era possível em clínicas particulares até alguns anos atrás. Além disso, as profissionais avaliam se aquele aluno deve ficar numa sala menor, com menos alunos, ou se segue para uma turma mais cheia.

“O que é importante ressaltar é que em nossos estudos nós constatamos que o aprendizado controlado, as adaptações que os autistas (ou crianças deficientes, com síndrome de Down, ou que apresentem TDAH etc) precisam são boas para todos. Não são coisas que atrapalham, muito pelo contrário. E o vice-versa não funciona aí! Ou seja, é só uma mudança de paradigma, é só a gente mudar nossos parâmetros”, explica Carmen.

Mundo da diversidade

As mães e pais procuram o colégio, primeiramente, pelo boca a boca, depois pelo site e buscas na internet e, por último, por indicações de outras escolas. No caso de pais de crianças não-deficientes, a busca é pela convivência pela diversidade, pelo aprendizado da diferença. “Acho legal quando outra escola reconhece que não está preparada e nos encaminha alunos. Temos de tomar cuidado com o conceito de inclusão. Não adianta a criança estar em uma escola regular onde não estará aprendendo, se desenvolvendo. Muito pelo contrário, a gente sabe que muitas sofrem exclusão, bullying e a falta de paciência e tolerância dos colegas, pais e, mesmo, professores”, diz Carmen.

Hoje, sabemos que 1 em cada 100 crianças é autista, um número alto, mas o desconhecimento é inegável. E o preconceito vem daí. “Dá para mudar, é por isso que eu chamo o método de tecnologia social, pois pode ser adotado por qualquer escola que deseja realmente incluir. Mas, mudar dói. E muitas não querem sentir essa dor. Muita gente ainda vive fingindo que não vê. É preciso que se eduque na diversidade, que aprendamos com as diferenças e isso deve ser feito desde que somos crianças, isso torna tudo muito mais natural.”