Criança

Gols chorados

Quando o Brasil marcou o gol do tri, Mauro caiu do colo do pai, o jornalista Joelmir Betting. A expressão "gol chorado" ganhava novo sentido

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

O primeiro jogo de Copa que vi foi o único que não vi até o fim. Culpa do meu pai. Eu tinha 3 anos. Lembro de coisas anteriores a 1970. Mas não recordo de um só golzinho do tri. Eu no colo do meu Joelmir. A grande família torcendo contra a Inglaterra. Até o golaço do Brasil. O lance que derrubou o campeão de 1966 e este que vos escreve do colo do pai.

Tostão arquitetou uma série de dribles, fintas – e até uma falta –, para lançar a bola a Pelé. Dele a Jairzinho. Dali o tirambaço que nem o big Banks defendeu. O Brasil saiu do chão na primeira Copa que se viu ao vivo pela televisão. E eu me esborrachei na frente do Colorado RQ valvulado da vovó Joana. A família celebrando o gol brasileiro no Jalisco na frente da TV, e eu no meu ‘jazigo familiar’, esborrachado no chão. Meu pai esqueceu que estava com o caçula no colo! Pulou para celebrar como de costume. Só foi lembrar do filho quando a expressão ‘gol chorado’ ganhou nova acepção naquela casa no Ipiranga, quase 148 anos depois do mais famoso grito às margens plácidas.

Eu tinha 3 anos e 9 meses quando o Brasil foi tricampeão mundial. No dia do penta, meu Luca tinha a mesma idade. Com 8 meses e 15 dias, o irmão dele, meu caçula Gabriel, não sabia o que era futebol naquele 30 de junho de 2002. Naquela manhã de domingo paulistano, estive com meu primogênito e o avô dele, o Nonno, buzinando pela cidade, com a cabeça para fora da janela, abraçando postes e gente de todo tipo. O mesmo pai que me jogara na frente da TV em 1970 se jogou para cima do Gabriel dizendo a ele que o netinho era pé-quente, campeão do mundo na primeira Copa. Logo depois, perguntou ao neto mais velho se já tinha visto festa daquele jeito:

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– Só vi festa em apartamento, Nonno – com um sorriso que não se descreve, só vendo!

A vitória por 2 x 0 sobre a Alemanha, na decisão da Copa de 2002, não foi o jogo da minha vida. Mas foi o primeiro quecelebrei com o amor que, como o nosso Palmeiras, vai me acompanhar pelos dias. O penta foi o primeiro título mundial que comemorei no Brasil. E no meio da rua. Em 1994, eu derretia em Pasadena comentando o tetra contra a Itália. Foi legal. Mas era trabalho. Por mais prazeroso que seja, não é a mesma coisa.

Em 2002, não fui ao Japão. Cobri daqui a Copa. Madrugadas acordadas. Tardes em pé para estar um pouco com meus filhos. Não sou o pai presente que gostaria de ser para vocês. Mas obrigado pelos presentes que vocês são para mim.

 A culpa é um pouco do Nonno, o (ir)responsável por fazer o pai do Luca perder os fins de semana correndo com os olhos atrás da bola, e o (ir)responsável profissional por fazer o pai do Gabriel jornalista, tentando ser o que o velho Joelmir foi: o melhor pai que um jornalista pode ser, o melhor jornalista que um filho pode ter. Mais do que o amor pelo futebol, lembro da festa que ele fazia, da forma como comemorava.

Em 2012, a vida me deu um novo-velho amor no ano em que o Nonno foi se juntar aos anjos como Gabriel, aos santos como Luca. Minha Silvana me deu Ricardo, Luigi e Manoela. Novos filhotes com quem curtir a Copa no Brasil. Vou estar trabalhando no Mundial e nem sei se a gente vai conseguir se ver durante a Copa. Seja qual for o resultado, se hexa ou Maracanazo-II, já sei que, se não ganharmos a Copa, já ganhei o mundo só de ter vocês pela vida.”