Criança

Tudo junto e misturado

Dislexia não é uma doença e nem mesmo uma deficiência, mas um distúrbio de aprendizagem que afeta duas em casa dez crianças.

Carolina Piscina

Carolina Piscina ,filha de Ana Maria e Osvaldo

dislexia

(Foto: Shutterstock)

Esas fasre rpretesena a viãso de uma posesa com dxiseila. Não entendeu a frase anterior? Erramos de propósito, para que você possa ter a ideia de como um disléxico se sente ao ler um texto. Ali no começo está escrito “Essa frase representa a visão de uma pessoa com dislexia”, pode conferir, todas as letras estão ali, mas é difícil de ler, quase impossível.

“Descobri que o Luiz tem dislexia no começo da idade escolar, na época da alfabetização, no terceiro ano. Ele começou a apresentar dificuldades na escola, de leitura e escrita”, conta Alessandra Cartolano, mãe de Luiz e Ana Luisa. Antes mesmo de o menino apresentar essas dificuldades, ele já demonstrava sinais de ser uma criança de risco, como são denominadas aquelas que podem vir a ser disléxicas. Segundo dados estatísticos, a cada dez alunos em sala de aula, dois têm dislexia em algum nível. O problema está no diagnóstico, que muitas vezes não é realizado. A criança disléxica que não passa por acompanhamento profissional acaba sendo taxada como preguiçosa, burra e até chega a sofrer bullying dos colegas de sala. Mas a dificuldade é genuína e merece atenção.

Esses sintomas aparecem desde cedo e alguns sinais podem ajudar a identificar o distúrbio de aprendizagem. Quando a criança em fase pré-escolar é muito dispersa, tem pouca atenção, sente dificuldade em aprender rimas ou canções, possui fraco desenvolvimento da coordenação motora, falta de interesse por livros, pode significar que ela tenha algum grau de dislexia.

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Obviamente, apresentar esses sintomas não qualifica um diagnóstico claro, há outros fatores a serem observados, mas certamente essa criança precisa de mais estímulos e atenção na hora do aprendizado. Além disso, nós, pais, somos responsáveis por observar os sintomas, mas quem deve avaliar é o médico. Claro!

Cada quadro é um caso

Como explica a dra. Maria Angela Nico, mãe de Alessandra, Andrea, João Cristiano e Luiz Rodrigo, fonoaudióloga, psicopedagoga clínica e coordenadora científica da Associação Brasileira de Dislexia, existem três níveis diferentes de dislexia. Em um quadro leve, a criança consegue ser alfabetizada, exigindo apenas um maior esforço. A dislexia média na maioria das vezes não permite que a criança se desenvolva sem um acompanhamento, precisando de ajuda profissional. Já nos casos severos, não são capazes de aprender a ler ou escrever.

Além disso, existem três tipos de quadro. A dislexia visual, que atinge somente 2% da população e resulta na troca de letras visualmente parecidas, como “b” e “d”, e acontece por causa de problema com a orientação espacial. Já nos casos auditivos, a troca se dá entre fonemas próximos, ou seja, aquelas letras que soam muito parecidas, como “m” e “n”. Por fim, existem os casos mistos, com um quadro visual e auditivo.

Quem tem?

A dislexia não é uma doença e muito menos uma deficiência, “é um distúrbio de aprendizagem, um funcionamento diferente do cérebro. Disléxicos são muito quietinhos e costumam se sobressair em alguma área”, explica a dra. Maria Angela. Apesar da dificuldade na hora de aprender, quem tem dislexia geralmente é bastante inteligente, já que possui um enorme potencial em diversas áreas do conhecimento. Outra coisa importante que você deve saber sobre a dislexia é que é um distúrbio genético, costuma ser passado entre gerações. Se o pai tem dislexia, provavelmente o filho terá e o neto também.  A vantagem nesse processo é que a família não é pega desprevenida, sabendo como tratar e acompanhar o caso.

Tratamento diário

Esse distúrbio de aprendizagem não tem uma cura. Quem nasce disléxico permanecerá assim para o resto da vida, mas calma: se seu filho for diagnosticado com dislexia e fizer o acompanhamento e os tratamentos disponíveis, a melhora chega a ser de até 90%.

1+1

O disléxico tem muita dificuldade em aprender outras línguas, por causa da grafia e dos sons. Assim como na matemática, a dificuldade está na compreensão de problemas. Além disso, eles enfrentam problemas com a memória, ou seja, tabuada e operações de divisão se tornam mais complexas.

Por isso, quanto antes for identificada, melhor será para a criança. Normalmente, o quadro começa a ser percebido na fase da alfabetização, quando a criança tem o primeiro contato com a leitura e a escrita. Cabe ao professor e aos pais notarem a dificuldade do aluno em sala de aula e também em casa. A partir dessa primeira constatação, deve-se procurar um especialista. O tratamento pode ser iniciado com uma fonoaudióloga, que vai lidar com a formação dos sons. Depois, o acompanhamento pode ser feito com o pedagogo ou até o psicopedagogo, tudo de acordo com o quadro apresentado e o nível de dislexia da criança.

Ajuda
Os tipos de letra que facilitam a vida de uma criança com dislexia são “Arial 11” e “Times new Roman 12”. Além disso, as avaliações escolares podem ser complementadas com desenhos e provas orais.

Atenção merecida

O diagnóstico deve ser levado à escola. O especialista deve entrar em contato com a instituição, para que seja feito o acordo. Normalmente, os erros ortográficos não são contados e a escola aplica ao aluno provas especiais, com fontes específicas, assim como uma avaliação oral para complementar o que foi escrito.

Luiz estuda no Colégio Porto Seguro e recebe a devida atenção nas provas: “Ele tem que fazer prova separado das outras crianças, mas ele percebeu que ajuda. Tem um tempo maior para realizar as questões e uma professora lê as questões para ele”, conta Alessandra. Além disso, a mãe reforça o aprendizado em casa.

Não desanime

O papel dos pais não se restringe à busca de especialistas no caso, tratamentos e suporte da escola. A autoestima da criança disléxica fica muito abalada e cabe aos pais ajudá-la a superar e enfrentar. “Cuidar da autoestima é muito importante, porque fica abalada. Você vê que é uma criança esperta, inteligente, mas tem dificuldade”, nos conta a mãe de Luiz, ao relatar que o maior problema não está na aceitação da família e dos colegas, mas dele mesmo em relação à sua dificuldade de aprendizagem. Os pais devem sempre estar atentos, e não é fácil. Procure sempre exaltar as qualidades do seu filho, para que ele saiba o quão inteligente é e tudo o que pode conquistar com suas qualidades e habilidades.

Apoio institucional

No Brasil, não existe uma escola específica para crianças com dislexia, mas a maioria está preparada para receber esses alunos. Como não existe uma lei específica para regulamentar as exigências, cada um lida de  uma forma. Entretanto, não pense que esse quadro é desculpa para corpo mole!

“Alunos com dislexia podem, sim, repetir de ano. Mesmo sendo muito inteligentes, precisam de ajuda, mas são extremamente capazes, só tem que se esforçar mais que os outros colegas”, defende a dra. Maria Angela. Hoje em dia, disléxicos já conseguem inclusive passar em vários vestibulares. As provas são feitas em salas individuais, com o auxílio de profissionais capacitados, que leem as questões para o aluno.

Todo mundo participa

O maior esforço deve partir da criança, afinal, é ela que precisará aprender a ler e escrever apesar de suas dificuldades. Porém, nós, pais, devemos estar sempre presentes, sendo positivos, pacientes, perseverantes e, principalmente, atentos. Com essa combinação de fatores, a dislexia deixa de ser um grande bicho de sete cabeças e passa a ser uma pequena montanha a ser escalada, como ilustra Alessandra: “Não é uma deficiência, é um jeito especial de ser. Temos que saber contornar as dificuldades”.