Criança

5 motivos pelos quais ter uma ‘blogueira fitness infantil’ é preocupante

Uma menina de 9 anos que mostra na internet sua rotina de exercícios gerou polêmica. Pais&Filhos acredita que não podemos acelerar a infância!

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

Na tarde da última segunda-feira (2), o perfil no Instagram de Anna Clara Mansur, de apenas 9 anos, que se define como “A primeira blogueira fitness infantil”, gerou polêmica nas redes sociais. Entre 150 imagens e vídeos, ela usa a página para exibir sua rotina de exercícios na academia e de sua dieta para manter a “vida saudável”.

Em entrevista ao Brasil Post, Mileny Mansur, mãe de Anna Clara, disse que acredita ser normal a rotina de exercícios que a filha pratica e revelou que ela quer ser blogueira quando crescer. Blogueira fitness.

Apesar de defender que a filha está saudável e que é aceitável uma criança frequentar academia desde cedo, Mileny pondera: “A vida dela não é a academia. Nós somos totalmente presentes. Existem regras e ela sabe disso”.

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Mas, mesmo sabendo que Anna Clara está saudável em termos de saúde, listamos 5 pontos para prestar MUITA atenção neste caso:

1. Culto ao corpo nessa idade?

É possível que Anna Clara seja realmente saudável em termos de saúde, já que se alimenta bem e faz exercícios que são aceitáveis para a idade com a orientação dos pais. Mas o problema pode ser outro. O mercado batizado de “fitness” é legítimo, mas é mestre em reforçar padrões de beleza, incentivar a cultura da magreza, a anorexia ou até a obtenção de uma barriga negativa a todo custo.

2. Instagram não é coisa de criança!

Segundo o Instagram, a idade mínima para ter uma conta na rede social é de 13 anos.O que já diz muita coisa. Tanto que, na manhã desta terça-feira (3), a própria rede social bloqueou o perfil de Anna Clara. Assim que foi descoberto, o perfil passou de 988 seguidores para 21.800 mil.

3. Musculação pode prejudicar o desenvolvimento da criança

Há pesquisas que sustentam que a musculação pode ser benéfica para as crianças, desde que ela seja muito bem supervisionada.

Mas a maior parte dos médicos não recomenda a prática da musculação na infância e na adolescência. O levantamento de peso em excesso pode prejudicar o desenvolvimento da criança, porque causa microlesões nas extremidades dos ossos, diminuindo o crescimento longitudinal ósseo.

Além disso, crianças que começam cedo demais na malhação podem ter problemas hormonais. O treino de hipertrofia só é recomendado quando o adolescente já tiver finalizado sua maturação óssea.

“Em termos de carga, o recomendável para uma criança de 9 anos seria no máximo do máximo um, dois quilos. Nada de peso, quanto mais próximo do aeróbico, melhor”, explica Ana Lucia Balbino, hebiatra membro do Departamento de Adolescência da Sociedade de Pediatria de São Paulo. “Se ela estiver fazendo uma atividade de repetição com baixo peso, não há problema”.

4. Academia é lugar de criança?

Existem academias que oferecem treinos de musculação orientados para crianças, com peso e periodicidade adequadas para cada fase de crescimento.

No entanto, nessa faixa etária há uma série de outras atividades mais interessantes, como a natação, os esportes coletivos e as lutas não-competitivas. Eles proporcionam a sociabilização com outras crianças.

Além disso, são mais lúdicos e ajudam a criança a sair do sedentarismo sem tenderem para o outro lado, do culto ao corpo. “A atividade física nesta idade deve estar associada ao prazer e à brincadeira. Natação, caratê e basquete, por exemplo, estimulam o desenvolvimento motor, sem sobrecarregar a musculatura da criança”, diz Balbino.

5. Pais devem orientar a criança

A mãe de Anna Clara, Mileny Mansur, disse ao Brasil Post que sua filha faz exercíciose mantém seu Instagram por vontade própria. Mas afirmou também que é inegável que os pais tenham influenciado o gosto da menina pelos aparelhos da academia.

Fica então a questão: até que ponto a “vontade própria” da criança é, de fato, vontade própria? Uma das responsabilidades dos pais é orientar a criança para que ela seja um indivíduo emancipado no futuro. Sobre isso, a cientista e mãe Ligia Sena opinou em seu blog:

“Qual a sua responsabilidade, como ser detentor do poder de escolha daquilo que outro ser irá viver, sobre a formação social, política, emocional e emancipatória das nossas crianças? A falta de reflexão crítica sobre as escolhas que você faz não estaria contribuindo para a coisificação das crianças sob seus cuidados? Inserir as crianças no mundo dos iguais, da norma, dos que não contestam, dos que aceitam, dos que se subjugam e caminham em silêncio tal qual rebanho, não as tornaria iguais a coisas?”