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Terceirização da Intuição

Nossa colunista Cecília Troiano incentiva o relacionamento direto com os filhos

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(Foto: Shutterstock)

Há algum tempo já escrevi sobre isso, mas esse tema continua a me intrigar. Sinto que há um sentimento generalizado entre pais e mães de que a forma deles se relacionarem com seus filhos está muito pouco espontânea. Tudo é calculado, pensando, discutido. A intuição fica em segundo plano e no primeiro plano entram vários profissionais e empresas que se aproveitam dessa “brecha” de mercado, muito bem identificada por sinal. Pais se sentindo incapazes para fazerem seus filhos dormirem a noite toda, por exemplo, recorrem a um profissional  assim denominado “encantador de sono”. Outros, ansiosos por verem seus filhos hiper estimulados, matriculam crianças de 3 meses em sessões de musicalização.

Há também aqueles que buscam apoio para saber como amamentar, como brincar, como contar histórias e por aí vai. O que está acontecendo? Por que esse mercado existe? Certamente os pais não compram esse tipo de produto porque há oferta. O que acontece é o contrário. Existe a oferta porque há demanda. Se é assim o mecanismo, me pergunto: de onde vem essa demanda que se torna ano a ano mais visível nos jovens casais e seus filhos? Por que dessa “terceirização” excessiva que vemos acontecer nas famílias de classes média para cima?

Antes que eu seja acusada de dar pouca atenção à informação, à leitura ou aos avanços, posso afirmar que de maneira alguma sou contra sermos pais bem informados e bem preparados. Aliás, não faria sentido nenhum, no mundo em que vivemos, não sugarmos toda a informação que está a nosso dispor. Isso é uma coisa e sou a favor.  Mas o que discuto aqui é bem diferente. Meu ponto é a substituição da intuição dos pais pela informação ou sapiência de um terceiro, um estranho. Alguém que não está no dia a dia, não gerou a criança e tampouco conhece a realidade dos pais e dos filhos.

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Vejo isso de forma recorrente: pais sentindo-se incapazes de lidar sozinhos com seus filhos buscam apoios profissionais para coisas que, no meu entender,  são de responsabilidade da família, em primeiríssimo lugar. Uma mãe me diz: “mas meu filho não dorme, acorda várias vezes à noite por isso fui buscar alguém que me ensinasse a fazê-lo dormir!”. Isso para mim não faz o menor sentido. Todos os pais sabem, mais do que ninguém, fazer seus filhos dormirem. Uns podem sofrer mais ou demorar mais, mas todos os pais são capazes de ensinar seus filhos a dormir. Esse é apenas para citar um exemplo que me intriga nesta indústria dos “encantadores do sono” ou da terceirização da intuição.

Atrás dessa terceirização vejo alguns sinais. O primeiro é um sentimento que observo em alguns pais de que eles não vão dar conta de criar seus filhos sozinhos. Sentem-se inseguros e impotentes. O segundo é uma sensação de necessidade de controle absoluto. Precisamos aprender, desde o momento da gestação, de que não podemos controlar tudo em relação às crianças. Não será terceirizando funções que vamos controlar mais nossos filhos.

O que precisamos é aprender a lidar com a frustração pelo não-controle. É, parece contraditório e fora de moda para os tempos atuais quando controlamos quase tudo. Filhos não obedecem, em muitas vezes, a esta dinâmica contemporânea. Terceiro é a perda da intuição, do tal instinto dos pais. Parece que não mais confiamos nas nossas experiências, no “meu” jeito de fazer meu filho dormir, comer ou brincar.

Os pais intuitivos são substituídos pelos “pais-Phd”, aqueles que estudam, estudam e estudam para saber como serem melhores pais. De novo, não sou contra sermos bem informados para não cometermos idiotices. Mesmo bem informados, posso garantir que faremos várias. Mas entre isso e passar a pautar a paternidade/maternidade a partir do que vem de “fora” há uma grande diferença.

Em quarto lugar, há um sentido de “desempoderamento” dos pais. Sim, eles perderam o poder de decidir e o poder se transferiu para os filhos (para os bebês). Filhos têm poder sobre os pais e não o contrário. Tanto poder que deixam pais apavorados e receosos e, nesse estado, clamam ajuda de terceiros.

Por fim, há nos pais um desejo natural de que seus filhos cresçam saudáveis, físico e emocionalmente. Isso sempre existiu, ainda bem. Mas parece que isso hoje ganhou ares de neurose. Tudo o que fazemos ou deixamos de fazer vai impactar o sucesso futuro de meu filho. Em parte pode ser verdade mas, novamente insisto, não temos controle sobre tudo e precisamos saber lidar com os imprevistos.

Pronto, cheguei onde queria: pais precisam aprender a lidar com frustrações, imprevistos e com a permanente falta de controle. Não será com encantadores de sono, com aulas de música aos 3 meses ou com orientadores para contar histórias que nossos filhos serão mais felizes, mais saudáveis ou mais bem sucedidos no futuro.

Na minha visão, mais do que isso, os pais terão perdido uma grande chance de tentar, errar, tentar de novo, descobrir e conhecer seus limites, seus filhos e sua própria forma de ser pai ou mãe. Se eu puder  neste fechamento dar algum conselho para os pais mais novos eu diria o seguinte: acreditem em suas intuições. Vocês são as pessoas que melhor conhecem seus filhos, os que mais os amam e os mais preparados para enfrentar os desafios juntos. Não percam essa chance terceirizando experiências de descobertas. Pais sabem das coisas!

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