Colunistas

Que tipo de mãe você é?

Nas propagandas, as mães ora são representadas como “mulheres-maravilha”, ora como desesperadas, segundo a análise da colunista Cecilia Russo. Na vida real, somos um pouco de cada

Recentemente tenho visto várias matérias na mídia comentando sobre as modelos que são apresentadas nos anúncios. Alguns apontam que as consumidoras querem ver uma mulher real, mais parecida com uma mulher de “verdade”, exibindo as imperfeições estéticas sem retoques. Outros dizem que isso é uma ilusão e que não há produto que consiga atrair a atenção se ele não inspirar uma pitadinha de sonho nas consumidoras. Ou seja, as modelos sempre precisam ter algo aspiracional que faça com que a marca seja desejada e consumida. Tendo a concordar com esse grupo e ver que, dentro de certos limites, a propaganda precisa nos inspirar. Não de forma falsa, mas de forma que nos seduza e encante. Para isso um pouco de sonho é fundamental.

Mas deixando isso de lado e indo ao que me interessa: e as mães como são retratadas pela propaganda? Mais sonho ou mais realidade? Mais fantasia ou mais verdade nua e crua? Resolvi fuçar e divido aqui com vocês o que vi nesses anúncios e propagandas.

Encontrei 2 tipos de mães retratadas: as “mães-maravilha” e as “mães-desesperadas”. Não há meio termo! É uma coisa ou outra. Ou aparecemos como aquela mãe que está sempre atenta às necessidades dos filhos, que antes do filho pedir já estamos com tudo pronto, que sempre tem os filhos mais limpinhos e cheirosos da escola toda, que é dedicada, carinhosa, prendada e ainda está super arrumada mesmo estando atarefada e sem um segundo para si própria. Ou o extremo oposto: somos aquela mãe descabelada, que parece que sempre está devendo alguma coisa, que se atrapalha para gerenciar suas múltiplas tarefas, que esquece os filhos na escola, perde as apresentações de balé e não tem tempo para dar tchau para o filho que está indo com a escola em sua primeira excursão.

Anúncio

FECHAR

A primeira mãe é só sorrisos. A segunda mãe não tem um fio de cabelo no lugar. A primeira mãe é celebrada socialmente e pela propaganda. A segunda mãe é a antítese do ideal de mãe e a propaganda põe todas as tintas (as mais escuras) nela. Uma é pura dedicação. A outra é pura culpa. Uma é consagrada. A outra é criticada. Para a primeira mãe as marcas mostram que reconhecem seu “bom” trabalho e que estão ao lado dela para que assim demonstre, ainda mais, sua dedicação à família. Para essas mães, as marcas surgem como parceiras de algo que elas já são, mas que serão ainda mais, agora com a marca anunciada a seu lado. Para a segunda mãe, as marcas surgem como solução. Sua vida vai se transformar e rapidamente você se tornará uma mãe muito “melhor”, mais atenta, mais preparada, mais amparada. Para as “mães-maravilha” temos as marcas aliadas. Para as “mães desesperadas” temos as marcas salva-vidas.

Quem está certa? Quem é a mãe de verdade e quem é a mãe fantasia? Chego à seguinte conclusão: ambas existem e são verdadeiras. Somos um pouco de cada uma delas, todos os dias. Migramos de um estado de mãe para outro. Combinamos esses dois lados. Somos, ao mesmo tempo, “mães-maravilha” e “mães desesperadas”.

Vivemos essas polaridades intensamente, cotidianamente, visceralmente. E aí é que está a beleza da maternidade. Ou seja, não é ser uma coisa ou outra. É poder viver ambas as possibilidades plenamente. É ser um pouco perfeitinha e um pouco atrapalhada. Infelizmente poucas marcas conseguem nos mostrar dessa forma e se restringem a retratar as polaridades da maternidade. Ora ela é a “mãe-maravilha”, ora ela é a “mãe-despeserada. Mas mãe “de verdade” é um pouco de cada coisa, um pouco de fantasia e um pouco de realidade. Mãe de verdade tem esse tempero, essa mistura gostosa, esses “altos” e “baixos”, sem saber exatamente onde é o alto e onde é o baixo. Mãe de “verdade” é a mãe que acorda como “mãe-maravilha” e vai dormir como “mãe deseperada”, ou vice-versa. 

Pais&Filhos TV