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Pais, bem-vindos a bordo

Ajuda, colaboração, divisão. Qual a participação dos maridos na rotina doméstica e na educação dos filhos?

O casal contemporâneo vive seu descompasso. Se a mulher tem queixas por estar fazendo demais e diz que o marido não ajuda o suficiente, para ele as tarefas que cumpre em casa já estão de bom tamanho. Quem sabe todos têm razão e isso tudo não passa de uma questão de perspectiva. Entender os comportamentos e as razões de um e do outro é um tremendo desafio, ainda mais considerando o período de transição em que vivemos. Até pelas conversas que tenho com vários pais e mães, vejo que apesar dessa jornada das mulheres, com vários pratinhos, já ter começado há um bom tempo, deu para perceber o quanto a realidade ainda é diferente do desejo de ambos os lados. 

Colaborar e ajudar, tudo bem. Colocar a mão na massa, realmente, é virtude de poucos pais e companheiros. Sim, porque a rotina da casa ainda sobra demais para a mulher, mesmo depois da entrada com força total no mercado de trabalho. Segundo o IBGE, mulheres que trabalham fora dedicam 4 horas e 24 minutos por dia aos afazeres domésticos, enquanto homens só gastam 2 horas com essa atividade. Em 2004, 35,4 milhões de mulheres estavam ocupadas, dessas, 32,3, milhões também se dedicavam aos serviços domésticos. A pesquisa também mensurou: 91,3 % das brasileiras que trabalham fora dedicam em média 22hs por semana aos afazeres domésticos. Não é pouco, considerando que a jornada semanal de trabalho costuma ser de 40 horas. Está lançado um novo desafio: o de mudar a cabeça – ou melhor ainda, a rotina – dos homens. 

São poucas as mulheres que conseguem viver essa nova mentalidade apregoada – a de delegar mais aos homens. Sylvia Mello Silva Baptista, no livro Maternidade & Profissão, oportunidades de desenvolvimento, a certo ponto discute se as mulheres estariam dispostas a perder o poder em casa, como seres centralizadores que são, para repensar papéis e tarefas socialmente demarcadas. “A mulher parece estar mais ligada a uma pluralidade de papéis e sofre as múltiplas interferências que aí se dão. O homem naturalmente delega à mulher a responsabilidade da casa e dos filhos e a mulher naturalmente aceita este encargo.” Segundo ela, a mulher não se livrou do trabalho doméstico ao dirigir-se ao mercado de trabalho, e sim o adaptou ao seu novo cotidiano. “Para que haja uma alteração efetiva e profunda na relação da mulher com seu lar e seu cônjuge, é necessário mais do que uma atuação, uma saída ao trabalho fora. É preciso uma disponibilidade interna e um grande empenho, fato que não é tão frequente quanto gostaríamos”, elabora, em sua análise, publicada em 1995, mas ainda extremamente atual. 

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FECHAR

Feliz o pai que não tem mais aquela imagem só de provedor, que sai para trabalhar atrás do sustento, viaja muito e quando chega em casa, cansado, quer sossego. Essa falta consentida do pai ainda é realidade em muitos lares, mas já me parece ter poeira, mofo. É uma dinâmica que alguns desejam perpetuar? Com certeza, não as mulheres. Hoje ambos os pais trabalham, viajam, estão cansados na mesma medida e dividem a lida igualmente. Se a sinergia do casal é intensa, a vida transcorre com poucos sobressaltos. Alguns maridos dão até uma força extra quando percebem que a hora de investir na carreira é dela. 

Enfim, pais, bem-vindos a bordo.

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