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Mulheres são mulheres, aqui e acolá

Em um evento com líderes americanas notei que os dilemas das mulheres é globalizado. A dificuldade em conciliar carreira e vida pessoal ultrapassa fronteiras

Estou por um tempo me dedicando a um Mestrado em Women’s and Gender Studies (ou Estudos relacionados ao Gênero e às Mulheres), na Georgia State University. Por conta disso, mudei-me temporariamente para os Estados Unidos com família e tudo. A experiência, ainda nova, tem sido intensa e de muitas descobertas. O tema do meu estudo certamente traz, todos os dias, muita luz para minhas reflexões sobre o papel das mães, por exemplo, como equilibrar nossos papéis e muito mais. Sempre que possível, vou compartilhar com vocês coisas legais a que tenho acesso por aqui. 

Pra começar, vou recuperar algumas ideias que escrevi no final do ano passado quando tive a chance de participar de um evento para mulheres executivas, em Atlanta, EUA. O formato do evento era de uma mesa redonda. No centro da roda, quatro mulheres executivas, de cargos de liderança, discutindo oportunidades e desafios, moderadas por outra mulher, uma jornalista da CNN. 

 

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O que me chamou a atenção foi que realmente a globalização atingiu as mulheres brasileiras, para o bem e para o mal. Somos globalizadas dos pés às cabeças. Por quê?  Ouvindo-as falar, apesar da língua inglesa, parecia que eu estava ouvindo um debate com executivas/mães brasileiras, diante plateia de leitoras de Pais & Filhos, por exemplo. Assim, divido com vocês alguns temas que são muito atuais e muito próprios das mulheres, independentemente de seu país de origem. Vamos a eles: 

1. Filhos! As três executivas, super bem sucedidas, abriram o debate falando por 20 minutos sobre filhos e sobre como elas gerenciam a agenda corporativa com as demandas da maternidade. O sentimento das três é de que mães que trabalham fora sempre terão o coração dividido e com alguma dose de culpa embutida. Soa familiar? 

2. As mulheres podem ter tudo? A resposta uníssona foi: “Absolutamente sim!”. Mas o que também ficou claro é que não dá para ter tudo ao mesmo tempo, nem também dá para ter tudo da forma perfeita, como muitas desejariam. “É impossível ter tudo junto, é preciso estabelecer prioridades, ter um pouco de cada vez”, ilustra bem Teri, casada, mãe de dois adolescentes e VP da Procter & Gamble. 

3. Um grande homem ao lado. Durante muito tempo falava-se que “atrás de um grande homem existia uma grande mulher”. Hoje, parece que a frase é verdadeira, porem trocando-se os sujeitos. Todas foram unânimes em apontar o apoio que têm dos maridos ou companheiros para que possam levar a vida profissional de forma plena. Ou seja, casais atuam de forma complementar, um ajudando o outro no desempenho das múltiplas funções relacionadas à casa e aos filhos. 

4. Um momento para chamar de seu. A mulher guerreira precisa descansar e reservar para si algum momento durante o dia ou pelo menos semanalmente. Esse espaço reservado para si é crucial para garantir o equilíbrio emocional e a energia para o dia a dia. Julie, advogada e mãe de três filhos dá sua dica: “eu reservo todos os meses meio período apenas para mim. Planejo muito como usar esse tempo e não abro mão disso por nada”. Já Teri acorda por volta das 5 da manhã para energizar-se para seu dia intenso, fazendo corridas diárias pelo bairro onde mora, mesmo com dias frios do inverno americano. A forma de desfrutar esse momento não importa, mas o recado de todas está dado. É preciso também saber desacelerar em alguns momentos. 

5. Esconder gravidez do chefe é coisa do passado? Não! Julie, uma das mães executivas, já ocupou posições de liderança fora dos Estados Unidos e fala chinês! Nem todo esse currículo fantástico evitou que ela ficasse apavorada em contar para seu chefe sobre sua segunda gestação. Isso porque, com seu primeiro filho teve que ouvir do chefe, na época um homem: “sua carreira acabou!”. Para nós que olhamos para os Estados Unidos como um país mega avançado, uma situação assim lembra o tempo das cavernas! 

6. O debate se encerra com uma dica, que acho valiosa, expresso por uma das debatedoras: “mantenha o bom humor no dia a dia e se divirta, ria, desfrute a jornada”. Todas riem aliviadas, inclusive a plateia. 

Relendo esses pontos acima fico ainda mais impressionada com as semelhanças entre brasileiras e americanas. Claro que há diferenças, especialmente em relação à licença maternidade remunerada (que por incrível que pareça, as americanas não têm) e também no que se refere a quem fica com a criança durante o trabalho da mãe. Mas acima de tudo o que pude perceber é que estamos falando de temas universais, que são profundos, coletivos e compartilhados por americanas, brasileiras e, ouso dizer, também por italianas, argentinas, japonesas, sul africanas…Enfim, senti que não apenas somos globalizadas economicamente, mas principalmente nas dinâmicas femininas. 

Somos cidadãs globais não porque consumimos as mesmas marcas, mas porque vivemos dilemas comuns. Sonhamos, sofremos, temos culpas e realizações, com intensidades diferentes, possivelmente, mas na mesma direção. Esse sentimento compartilhado por milhões de mulheres promove um efeito muito positivo sobre nós. Sentimo-nos menos sós nessa jornada, afinal, há milhões de outras mulheres nos acompanhando, vivenciando e lutando pelas mesmas causas. Somos globais, na alegria e na tristeza. Afinal, mulheres são mulheres, aqui e acolá.

 

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