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Mães executivas, pais donos de casa

A psicóloga Cecília Russo Troiano fala das possibilidades de organização entre as tarefas do casal

Há pouco tempo, comentei nesta coluna sobre como os “contratos” que os casais fazem podem ser bem resolvidos, independente do formato. Alguém trabalha mais fora de casa e outro assume responsabilidades domésticas e familiares em maior quantidade. Um ganha mais do que outro e partilham as receitas em nome dos objetivos familiares. Há fases em que alguém decide fazer um curso que consome muito tempo e a cobertura de várias necessidades fica nas mãos do segundo. É difícil imaginar todas as equações possíveis.

Todos nós sabemos, no entanto, de duas coisas. Primeiro, como diz o velho ditado, o que é contratado não é caro. Acordos onde as regras são claras e aceitas a priori não machucam e nem desgastam as relações entre os que celebram o contrato. Duro é quando as regras são mudadas no meio do jogo. Mas quando o pacto contratual não é quebrado, as relações se revigoram. A renovação dos compromissos entre os dois membros do casal oxigena o vínculo.

O segundo é que, na maior parte das vezes, os acordos são feitos em nome de objetivos que transcendem projetos individuais. Exceção feita aos casos de propostas egoísticas e narcísicas, que não nascem da identidade afetiva e amorosa do casal, em todos os demais o que está jogo é um modelo de contrato que projeta benefícios futuros para o casal e seus filhos.

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O curioso de tudo isso é que esses, como estou denominando, “contratos”, assumem formas aparentemente inviáveis à primeira vista. Mais curioso ainda é que funcionam bem quando a base em que se apoiam é fruto da compreensão e de um autêntico interesse comum na construção de uma vida familiar equilibrada e feliz. Vejam por exemplo o que encontrei em minha leitura de domingo. A matéria de primeira página do New York Times do domingo, dia 8 de dezembro. A minha tradução do título é mais ou menos assim: Mães que trabalham em Wall Street e seus maridos que ficam em casa. É a história de milhares de esposas que abraçaram com absoluta determinação a vida corporativa no mundo das finanças. E dos respectivos maridos que abriram mão de qualquer atividade profissional que comprometesse o tempo de dedicação à casa, filhos e responsabilidades familiares.

Os números são impressionantes: de 1980 a 2011, cresceu de 2.000 para 22.000 o número de mulheres em cargos importantes de finanças que têm um marido SAHO ou stay-at-home (que fica em casa). Atrás de uma mãe bem sucedida em Wall Street, há sempre um marido SAHO!

Li com cuidado a longa matéria. Salvo uma ou outra aresta nesse modelo de arranjo entre a profissional e o marido, tudo indica que o modelo tem funcionado bem. O número que eu indiquei com estrondoso crescimento de caso é mais do que esclarecedor.

Uma das coisas que achei mais curiosas é que homens em casa não repetem as rotinas femininas. Muitas mulheres dizem que a estratégia deles diante da paternidade é muito diferente. Enquanto as esposas que não trabalham reúnem-se para aulas de spinning, yoga etc., os maridos SAHO preferem desenvolver hobbies de vão de pintura a velejar. E mais, os SAHO preferem evitar babás, baby-sitters “enfrentando com estoicismo gritos, choros das crianças, enquanto preparam a comida”.

Há algumas mulheres que levam ao limite a exigência aos SAHO. Uma delas declarou irritada, ao saber que ele tinha arranjado uma ocupação part-time: “Quisera eu tivesse uma esposa”.

Mas o balanço geral, segundo a matéria, é positivo. A mensagem que fica para mim, e espero que vocês compartilhem dela, é a seguinte: a substância afetiva que rege as nossas relações é uma fonte de inesgotáveis possibilidades de organização da vida de um casal.

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