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Mães em Pé de Guerra

Uma puxa para cá, a outra puxa para lá. E aí, quem tem razão?

mães em pé de guerra

Tenho testemunhado ao longo dos anos um cabo de guerra persistente. De um lado, mães que trabalham fora. Do outro, mães que não tem uma atividade profissional e se dedicam, quase que em tempo integral, a suas famílias. Algumas vezes de forma velada e outras nem tanto, as acusações entre esses dois grupos são intensas, com troca de olhares desafiadores, palavras ríspidas e provocações variadas. Um lado acusando sempre o outro. Mães que trabalham fora argumentam que as mães que “apenas” cuidam dos filhos ficam limitadas, são dependentes, perdem a voz ativa e andam na contramão dos avanços femininos.

Frases do tipo “elas estão abrindo mão de verem os filhos crescer, eu não perco esses momentos por nada”, resume coisas que já ouvi.  Do outro lado, as mães que se dedicam integralmente aos filhos, acusam as mães que trabalham fora de ao focarem excessivamente na vida fora de casa, estão “abandonando” os filhos e deixando-os em segundo plano e assim perdendo um tempo precioso de convivência com a família. E em tom acusativo falam coisas como “essa mãe não faz ‘nada’, fica ‘só’ com os filhos”. Uma puxa para cá, a outra puxa para lá. E aí, quem tem razão?

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No meu entender, nenhuma das duas. Há verdades dos dois lados. Há falsas acusações dos dois lados. Parece que essa troca de acusações existe para que cada um dos lados tente mostrar a superioridade daquela opção defendida, uma sendo “mais mãe” e “mais” preocupada com os filhos e a outra sendo “mais moderna”  e “mais capaz” já que gerencia mais pratinhos, dando conta de tudo. Mas será que estamos discutindo um tema que mostra a superioridade ou maior autoridade de uma sobre a outra? Não vejo assim. Acho que esses dois polos, se posso chamá-los assim, representam escolhas e possibilidades. O eixo que diferencia esse binômio, trabalhar fora – não trabalhar fora, define caminhos alternativos, decisões de vida e não uma escala de valor. Não acredito que o desempenho da maternidade tenha a ver com a contabilidade das horas que se passa junto aos filhos.

De ambos os lados podemos ter “boas” ou “más” mães, independentemente do número de horas disponíveis que uma mãe tenha para estar junto aos filhos. Quem me garante que a mãe que fica exclusivamente com a criança está sendo uma “boa”  mãe? Da mesma forma, quem me garante que uma mãe que trabalha fora está sendo uma mãe menos atenta, apenas por estar fora de casa mais tempo? Essa matemática não funciona e nem se aplica à maternidade. Da mesma forma, ser independente vai além de sustentar-se economicamente. Não é porque uma mulher recebe um bom salário que ela tem voz ativa dentro de casa.  Já presenciei e conheço várias mulheres que não trabalham fora e que tem uma relação com as decisões da família, as que envolvem dinheiro por exemplo, em pé de igualdade com seus companheiros. Ou seja, trabalhar fora também não é uma garantia absoluta de avanços na questão feminina.

Ser “boa” ou “má” mãe é algo praticamente impossível de ser contabilizado em horas, palavras, salários ou acusações. Mais do que tudo, precisamos ter convicção da escolha que fizemos, seja ela por ser uma mãe em tempo integral, seja por ser uma mãe que trabalha fora. Ao final, o importante é que ambas, cada uma à sua maneira, estejam felizes com suas decisões. Estou totalmente convencida de que cada uma de nós sabe, no fundo de nosso coração, o que é possível e adequado para nós e nossas famílias. Afinal, como diz o velho ditado, “cada um sabe onde o seu calo aperta”. Se as mulheres querem verdadeiramente buscar um mundo onde a igualdade de gênero seja algo verdadeiramente praticado, está na hora de deixarmos a batalha de lado e refletirmos sobre uma forma de fazer junto umas com as outras e não de fazer contra umas às outras. Sou a favor de mais ciranda e menos cabo de guerra.

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