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Quando a babá vira mãe

Nossa colunista Tatiana Schunk tenta entender o que faz algumas mães deixarem para a babá a tarefa de ser mãe

Ontem sentei numa praça de alimentação. Um lugar muito bonito, cheio de mães e filhos. E de babás. Muitas delas, todas com roupas brancas, algumas mais encardidas, outras mais sofisticadas, lá atuantes com as crias de outras. Eu nunca tive babá. Não tenho nada contra uma mãe usufruir desse esquema para dividir as tarefas com as crianças. Deve ser muito bom ter essa chance na vida. Digo chance, porque conhecer alguém de confiança para cuidar do seu filho, não é dos encontros mais fáceis. Justamente por não se tratar somente de uma relação de confiança, mas de afinar princípios, de ajustar rotinas, de afeto, de amor, de proteção… Uma profissional babá pode e muito ajudar uma mãe em ação. Dito isso, espero ter deixado claro que acho a ideia bastante significativa. Depende do jeitão de cada pessoa encarar a maternidade. E depende e muito da quantidade de trabalho e da quantidade de filhos…

Outro dia, conversando com uma mulher, mãe de três filhos, num papo solto sem nos conhecermos ainda –  nem nossos nomes havíamos trocado – , ela me disse: eu sou a louca, a mãe de três filhos! Rimos bastante porque achamos que é um grau de loucura mesmo. Ter um filho é loucura? Ter dois é insanidade? Ter três é o que então? Para mim, esta mulher merece mais do que eu…

Mas voltando às babás. Ou melhor, à mãebá, pois o que eu vi me serviu para considerar aquela babá como a mãe do menino. A situação era a seguinte: estava lá na praça de alimentação com meu computador, trabalhando quando se sentam ao meu lado a mãe de óculos escuros, a babá de roupas brancas e descabelada e o menino de uns quatro anos esperneando por afeto. Digo assim porque este menino chorava mais do que parecia necessitar chorar.

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Sempre é muuuito delicado falar do filho dos outros, da mãe dos outros, da babá dos outros, dos outros… Claro! Sempre e sempre. Uma das primeiras coisas fundamentais que se aprende quando se torna mãe, é que não se deve julgar ninguém… Pois seu filho vai espernear no supermercado algum dia, espere! Por mais lindo que ele seja. Portanto, quando se conta uma situação como esta, é como um exercício de aproximação dessa experiência para poder encontrar sentidos para o que vivemos.

O menino chorava demais, gritava demais e chamava atenção. A mãe, desde que chegou, continuou teclando em seu celular e parecia ausente. Nem vergonha sentia não… A babá corria para lá e para cá tentando distrair a criatura, mas nada funcionava. Ela oferecia suco, não. Oferecia passeio, não. Oferecia chupeta, sim, mas mesmo assim ainda chora. A mãe em silencio no escuro dos óculos e no universo virtual. Pensei então: será que é um daqueles dias em que a gente necessita se ausentar e fingir que não é mãe? Será que essa situação sempre se repete? Será que eu estou julgando mal? Porque, me desculpem, mas me parecia que a mãe tinha que levantar e ir ao encontro do filho. Estar junto.

Desculpem, desculpem a má língua. Mas, essa situação durou tanto tempo que eu já estava de pé para ir até o menino ou falar com a mãe… Sentei-me de novo, pois percebei que não podia fazer assim. Mas havia um acontecimento dentro dos tímpanos, no ouvido do coração e, certamente, da culpa quase eterna de ser mãe que despertou esse alarme em mim. Eu fico exausta do meu filho. Completamente exaurida em muitos momentos. Mas eu sou a mãe! Oh, vontade de escrever um palavrão! Mas pulo…

Para não deixar essa narração sem final, conto que a mãe levantou-se quando deu a hora de ela ir. Deu um beijo no menino, disse tchau e pediu para ele ficar bonzinho. Palavrão de novo! Gostaria ainda de dizer que eu não sei direito o que pensar sobre isso, porque também não compactuo com normas que servem a todos, nem considero que todos têm que ser felizes pelas mesmas razões indiscutíveis, como ser mãe, por exemplo. Porque ninguém diz: que infelicidade, tenho um filho! Apesar desse acontecimento gerar mergulhos profundos que podem e são, sim, desconfortáveis, no mínimo. Sempre é um celebrar a vida que venceu! Então o problema não é a vida vencer e o filho nascer, é o que somos. Mas sim, acho que ser mãe é uma chance na vida.

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