Colunistas

Eu choro minhas mortes

Parir e morrer. É assim mesmo. O que se é depois da chegada da cria?

Têm alguns dias que se rompe. É a percepção parcial, mas próxima à total, de que parimos e então morremos. Tem dia que o cansaço abre a porta para a fragilidade diante da enorme força que é cuidar do outro, para a simples e fatal constatação: morri. E tudo bem morrer. Não é problema não. Mas tem dia que choro mesmo a morte de “mins”. De repente, diante do filho que finalmente dormiu e você tem algum instante que acha que é seu, descobre que não é não.

A roupa acumulou (a de passar e a de lavar), a faxineira sumiu, o marido tem que trabalhar mais, a mãe-avó tá ocupada, e tem um tipo de silêncio no ar que te engana, parecendo haver um “eu”. Mas esse eu morreu. E choro mesmo as minhas mortes, mas choro baixo para não acordar o menino. Melancólica pela perda da minha menina, da minha mulher jovem viajante, da pessoa que andava na rua sem nem mochila nem bolsa, da que ia sozinha ao cinema de tarde, da que namorou, da que flertou jovem, da praia, do sol, de um tipo de brisa que só toca a pele dos que a nada se prendem. Dessa pessoa que dispunha somente de pequenos prazeres ordinários como tomar um café sozinha de tudo num bar de cadeiras na calçada, da que passava horas numa livraria esperando que o livro certo para aquele momento da vida a encontrasse em destino, da que marcava no guia de teatro e cinema as peças e filmes para assistir em breve, da que pensava em silêncio… E que ficaria feliz com essas pequenas coisas. Como se tudo no mundo coubesse ali. Ficaria solta em São Paulo e depois voltaria para casa de metrô direto para um bom banho longo.  E tudo isso sozinha! Não é uma sensação clara de estar viva e de possuir um “eu”?

Agora o filho acorda no banco de trás derretendo o meu devaneio e sorri para mim. Demora em seu ritual de expressões para se abrir em olhos e sorrisos, dizendo acordei! Depois fala ah, bah, bah bah bah, ah. Fica sério e retoma seu discurso: uh buh ah ah ah. Diz coisas desse tipo entre outras e me obriga a sorrir de volta, porém, morta. E me lembra, antes de mais nada, de que é tudo maravilhoso! Vai entender… Então, os mortos também vivem!

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