Colunistas

Cabeça de criança

Pra que terminar com a ideia de mundo criada pelas crianças, isso garante que tenhamos a lembrança de quem somos

Um artista inquieto me contou que sua neta lhe perguntou: de onde vêm os dias quando eles começam e para onde eles vão quando acabam? Ele pegou seu violão e lhe fez uma música. Quanta sorte, não? Eu confesso que não sei responder, não saberia como dizer, pois eu também pergunto essa pergunta. Eis que o mundo não é explicável a uma criança, ela o descobre e lhe sente conforme o tamanho. Eu imagino o globo girando e o dia começando e imagino-o girando e o dia acabando, mas para onde vão? De onde vem? E a pergunta seguinte: donde vem essa inteligência da criança? De onde elas tiram algumas pérolas que nos tocam o coração e nos chocam a pensar. No mínimo a gente perde a compostura. 

Eu passo dias lidando com algumas frases ou perguntas da minha afilhada, por exemplo. Ela disse outro dia: mãe, para sempre é a mesma coisa que nunca mais? Pode? Segundo meu marido, as meninas já nascem mulheres e os meninos vão crescendo meninos. Eu me lembro de acreditar, e mais do que isso, de saber que, por cima das nuvens, viviam os ursinhos carinhosos, todos lá fofinhos e coloridos. Meu sonho era viajar de avião para mudar para lá. Até que, quando gente grande eu viajei e lembrei-me dessa certeza que estava escondida por debaixo da minha adolescente inteligente que não assumia essas infantilidades… Assustei quando a nuvem foi atravessada pela asa do avião e vi que não tinha ninguém por lá. Mas confesso que pensei: ah, eles devem estar mais acima ainda, nas nuvens de cima. Pra que terminar com essa ideia de mundo? Ela me garante a lembrança de quem eu sou, de quem eu era e de quem eu gostaria de lembrar. 

Eu nunca acreditei em Papai Noel, só bem no início eu esperava o seu Nilton (vulgo seu barriga, lá do prédio que eu morava), passar em meu apartamento e me dar logo os presentes desejados. Era isso: Papai Noel igual a… Presentes! Essa era a matemática. Eu sabia que era o meu vizinho barrigudo que vinha de vermelho com aquela barba branca de mentira por cima do bigode, mas eu continuava dizendo: Eba! Papai Noel chegou! E continuava a esperá-lo todos os anos. Esse vizinho passava em todos os apartamentos de todas as crianças e todas nós sabíamos quem ele era, mas ninguém admitia com medo de perder os presentes. Então, firmávamos nosso pacto de crianças espertas que se fingiam enganadas pelos adultos. Daí ontem uma amiga me conta que seu filho de quatro anos estava andando na rua vestido de Batman. A mãe e o filho lado a lado cruzam com um homem gentil que diz: olha o Batman! O menino Batman olha concentrado para o homem e diz: não, é uma criança vestida de Batman (e imaginem a sonoridade dessa fala!). Ok, o homem segue seu rumo, a mãe e o filho também. Três segundos depois ele olha para a mãe e diz em tom de sussurro: enganei ele!

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