Colunistas

Viva Jair Rodrigues

Pela primeira vez, o colunista Ike Levy fala sobre a morte do sogro, Jair Rodrigues. “Parece que perdi meu pai pela segunda vez.”

Faz tempo que não escrevo por aqui. Fui contratado pra fotografar em dois lugares muito especiais. A Ilha de Páscoa e o deserto do Atacama. Eu não escrevi durante os dez dias de viagem: só fotografei. E isso me fez um bem danado! Pude vivenciar a cultura desses dois lugares incríveis. Recomendo os dois destinos.

Voltei com muitas saudades da Luciana e dos meus lindos filhos, a Nina, 5 anos, e o Tony, 4 meses. Cheguei em São Paulo na quarta-feira à noite. Passei rapidinho no Free Shop pra comprar o perfume do sogrão e fui pra casa. Sempre que viajamos, ele pede o mesmo perfume. É uma tradição da família comprar o “Narciso Rodriguez” para o Jair Rodrigues. Cheguei em casa e a Luciana me esperava com brilho nos olhos e um lindo sorriso! Nos abraçamos com força. Contei um pouco da viagem e ela falou sobre as crianças e trabalhos. Fui tomar um banho e resgatei a Nina pra dormir com a gente. Ela abriu os olhos, sorriu, colocou as duas mãos no meu rosto e disse com a voz rouquinha de sono: 

– Papaaaai!

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Claro que chorei e dormi com ela deitada no meu peito.

Foi já de manhã que recebemos o pior telefonema de todos os tempos: a Clô, aos prantos, dizendo que o Jairzão tinha falecido. Meu Deus!
Ainda bem que eu já estava por aqui pra segurar essa barra com a Luciana.

Quando fui viajar, sugeri que a Lu e as crianças ficassem na casa dos pais dela. Assim, ele passou os últimos dez dias do jeito que mais gostava, com a filha e os netos em casa. Conviveu também intensamente com o Jairzinho nos últimos dois meses. Sempre foram muito unidos, mas nos últimos tempos, produziram um belíssimo CD em duo e estavam ainda mais ligados.

Eu tive a honra de conviver com o Jairzão por dez anos de maneira muito próxima. Restauramos carros antigos juntos. Eu apaixonado por Kombis e ele, por Fuscas. Nos divertimos comprando peças para os carros e acompanhando as restaurações no funileiro. Fazíamos intercâmbio de cocada. Quando um descobria uma cocada boa, trazia pro outro. Fotografei o Jairzão em Paris, Nova York, Cabo Verde e em muitas viagens que fizemos juntos. Mas uma das fotos mais importantes, fizemos no canavial em Igarapava, em São Paulo, onde ele nasceu.

Meu casamento com a Lu foi ecumênico: o amor falou mais alto e um respeitou a religião do outro. Fiz até um dueto com o meu sogrito no palco. Foi o casamento mais lindo que já fui!

Nos chamávamos de Sogrito e Genrito. Pra falar de música, o Jair era melhor que o Google. Mas, pra lembrar o nome das pessoas, “deixa isso pra lá”. Só rindo!

Parece que perdi meu pai pela segunda vez. Há um mês, eu fiz uma sessão de fotos com a Lu, Jairzão e Jairzinho. De tempos em tempos, a gente renovava as fotos para divulgação dos shows. Dessa vez o Tony foi junto e eu fiz essa foto dele com o vovô. Vejam a felicidade e o orgulho do Jairzão com seu primeiro neto homem. Ele estava com turnê de shows marcada na Europa. Feliz da vida com os netos e lançando um novo trabalho quando resolveu se despedir. No dia do aniversário de sua mãe, Dona Conceição, ele foi em “disparada” parabenizá-la pessoalmente.

No velório, o padre me chamou para dizer umas palavras. Eu, completamente emocionado, disse ao microfone:

– Difícil… 

O padre se aproximou e disse: 

– Mas não é impossível.

Nessa hora eu ganhei força e agradeci ao Jair pelo exemplo que ele foi pra todos nós. Aproveitei e prometi cuidar muito bem de sua filha, netos e da Clô. Uma mulher que dedicou a vida à família.

Contamos a notícia de forma leve pra Nina, dizendo que o vovô virou uma estrelinha. Quando anoiteceu, ela deu um grito feliz para a primeira estrela que surgiu no céu: 

– Vovôôô! 

E mandou beijos.

Ainda bem que ele deixou uma extensa discografia para a humanidade. Assim a sua linda voz nunca irá se calar.

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