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Pai, faz uma palhaçada?

O colunista Ike Levy aproveita cada minuto com os filhos - esteja pertinho, deitado na mesma cama, esteja na China, conversando pelo celular

Hoje é domingo, acabei de sair do quarto da Nina. Tomamos banho e ela me pediu pra deitar em sua cama até dormir. Nem sempre fazemos isso, mas tá aí uma coisa que eu realmente gosto. Ela está num tamanho que encaixa direitinho entre o meu ombro e o meu peito, apoia uma mão e uma perna em cima do papai e dorme em mais ou menos vinte segundos. Eu fico ali curtindo sua respiração e agradecendo pelo momento. Sei que daqui a pouco ela vai crescer e isso não vai mais acontecer. Então eu aproveito ao máximo esse chamego.

Pois é… Continuamos sem babá. Isso não é um lamento, nem estamos tão empenhados à procura da próxima. Mas nos tais finais de semana em que a maioria das pessoas descansa é quando trabalhamos com os filhos.

O Tony está com 5 meses e a Nina com 5 anos. A rotina dele é a mesma durante a semana inteira, seu único alimento é o leite materno e isso é muito prático. Ele é calmo e sorridente. Quer dizer: sorri gengiva, porque nada de dente por enquanto.

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A Nina tem muita energia, ela canta, dança e brinca o dia inteiro. Outro dia, indo pra escola, ela me fez um pedido:

-Pai, faz uma palhaçada?

-Poxa filha, a essa hora? O papai precisa pensar numa palhaçada…

-Pronto, pai, já pensou?

-Ok, filha, vamos lá. Acabei de inventar uma música, é assim… Pocotó pocotó pocotó, meu ursinho pocotó.

O mais importante era a coreografia doida que fiz. Ela teve um ataque de riso e eu fiquei feliz em atender suas expectativas.

-Ai, pai, eu adorei! Faz de novo? 

Eu dirigia e me debatia com o tal pocotó. Chegando à escola, lancei: 

-Filha, resolvi que vou fazer a dança no estacionamento da escola. 

Ela me olhou preocupada e disse: 

-Não, pai, na escola não.

Vi que ela ficou realmente cabreira e tratei de acalmá-la.

-Fique tranquila, filha, o papai não faria isso com você.

Assim que entramos no estacionamento, ela disse: 

-Pai, quer me deixar naquela parte coberta que você me deixou aquele dia que estava chovendo e eu vou sozinha pra minha classe?

Foi aí que vi como ela estava apreensiva com a vergonha do pai dançando loucamente na escola. Eu quis rir, mas segurei a onda.

-Não, eu te levo até a classe e prometo que não vou dançar. 

Cumpri a promessa sob o olhar atento dela. Assim que voltamos da escola e entramos em casa, ela falou toda entusiasmada: 

-Paaaai, agora canta aquela música?

Fizemos uma apresentação pra Lu e caímos na risada. A cantora da família me deu uma semidura dizendo que não é Ursinho Pocotó e sim Éguinha. E que isso não é música boa pra ensinar aos filhos. Me defendi dizendo que às 6:30 da manhã foi a única loucura que veio na minha cabeça. Rimos ainda mais!

Em clima de Copa, outro dia fui buscá-la no ballet de chapéu verde e amarelo e um óculos em forma de coração amarelo que tinha acabado de ganhar numa reunião. Cheguei fazendo uma dança, imitando as bailarinas. Ela me olhou bem séria e disse “TIRA”, quase sem mover os lábios.

Tenho viajado muito a trabalho. Fui para o deserto do Atacama, onde fotografei para uma revista. A próxima viagem será para a China. A saudade de casa, dos filhos e da Lu é um absurdo. Ainda bem que hoje em dia existe Whatsapp, Facetime e tanta tecnologia à nossa disposição. Mas não tem nada mais gratificante que chegar em casa, encontrar todos bem e receber sorrisos e abraços apertados.

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