Colunistas

Meu avô

O colunista Ike Levy dedica o texto ao seu querido Vovô Quilão

O gaúcho Achylles Rocha D’avila era conhecido por todos como Quilão.

Conhecido por todos mesmo. Costumava caminhar pelas ruas do bairro onde morava em São Paulo e era muito popular. Cumprimentava não só os porteiros do seu prédio, como os dos vizinhos.  Ao caminhar por um lado da calçada, ouvia gritos amigáveis do outro lado da rua: “Como vai, Gaúcho?”  Ele sorria e acenava com a mão.

Parece que puxei essa popularidade dele. Desde muito pequeno, converso com todos e me interesso pela história de vida das pessoas.  

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O grande prazer da vida do meu avô sempre foi: comer bem!

Me lembro muito bem dos churrascos que aconteciam em nosso sítio e era ele o churrasqueiro oficial. Todas as lembranças que tenho do vovô são ligadas à comida. Rs

Uma época, eu fazia provas de Mountain Bike e resolvi ir de bicicleta todos os dias pra escola. Até que passei na frente de um lugar que vendia comida árabe e eu estava completamente sem grana. Fiquei sonhando com aquele Kibe.  No dia seguinte, encontrei o meu avô e contei pra ele.

– Mas, Ike, como pode andar por aí sem uma “gaitinha”?

Colocou a mão no bolso e sacou a tal gaitinha / dinheiro pra mim. Disse que neto dele não poderia passar vontade de comer alguma coisa. Rs

Mas a melhor lembrança que tenho é essa: uma vez, o vovô me fez um convite um tanto inusitado. Me convidou para ir com ele até Erechin (RS) levar os ossos da minha tataravó, que chamavam de Noninha. Eu, com apenas 8 anos de idade, falei: barbaridade, Tchê! Vamos até o Rio Grande do Sul levar ossos?  

Ele riu de mim e disse:

– A Noninha era uma pessoa maravilhosa.  Você tem que ter medo dos vivos e não dos mortos. 

Fomos até a rodoviária comprar as passagens de ônibus. O que, pra mim, foi outra aventura.   Eu nunca tinha viajado de ônibus. No dia seguinte, nos mandamos.

Entramos no ônibus e eu fiquei encantado.

– Poxa, vô, isso aqui é melhor que avião!

Me acomodei na poltrona e lá vem o vovô com o isopor dos ossos na minha direção. Gelei!   Ele resolveu colocar a “Noninha” bem embaixo do meu banco.  

– Sabe o que é, vô… Eu tô gostando de viajar com você, mas isso tem que ir embaixo do MEU banco MESMO?  

– Sim, Ike, você vai ver que não terá nenhum problema.  

Sei que dormi a viagem inteira. Quando chegamos ao destino, virei pra ele e disse:

– Nossa, vô, nunca dormi tão bem, acho que a Noninha estava me protegendo.

Encontramos parentes, fomos ao cemitério enterrar os ossinhos e passamos uns três dias bem divertidos por lá.

O vovô estava muito feliz e orgulhoso em viajar comigo. E vice-versa!

– Ike, hoje vamos voltar pra São Paulo, mas antes vou te levar num restaurante típico da região, vamos comer frango com polenta.

Achei uma delícia! E a gauchada ria do “guri” mandando bala no almoço.

Mais tarde, quando já estávamos no ônibus, eu disse:

– Vô, nunca vou me esquecer daquela polenta.  Só de pensar, já me deu vontade… Hummm

Ele deu um sorriso, colocou a mão no bolso da camisa e retirou cuidadosamente um guardanapo com três polentas embrulhadas. 

– Eu sabia que você ia querer mais…

Até hoje, me emociono ao lembrar dessa atitude.

Alguns anos depois, o Vovô Quilão se foi.  Me deixou a saudade e ótimas lembranças de um vovô carinhoso e comilão.

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Ouça a música do Jair Rodrigues, avô dos meus filhos, Nina e Tony, em parceria com o tio Jairzinho.

 

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