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Dá licença que eu tô grávida…

Nanna Pretto está grávida de 8 meses e constatou: a lei do atendimento prioritário existe, mas pouca gente respeita

A falta de cidadania e a má educação das pessoas me deixam triste. Porque uma mulher, aos quase 8 meses de gestação, não passa desapercebida quando o assunto é prioridade.

“Isso é um absurdo! Só porque ela está grávida ela tem direito à vaga especial? Daqui a pouco teremos que separar vagas para carecas, louras e ruivas!”. Foi com essa frase que eu comecei o meu dia, em pleno espírito natalino, ao entrar num shopping paulistano para uma reunião de trabalho. Frase essa vinda de uma mulher que certamente nunca ficou grávida, mas já ocupou uma barriga uma vez na vida.

O marido, coitado, olhava para mim sem graça, quase se enfiando na lata de lixo, enquanto eu abria a minha caixinha de água de coco e esperava o elevador no mais delicioso estilo slow motion de grávida.

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A realidade é essa, gente! As pessoas odeiam dar preferência. Seja no trânsito, na fila, seja com lei ou sem lei. “Por que você deixou ela passar na sua frente, mamãe?”, questionou meu filho esses dias, na fila da farmácia, quando demos a vez para uma senhora visivelmente mais necessitada do espaço preferencial do que eu e a minha barriga. Agora que estou neste estado preferencial, tenho visto como convivemos com pessoas mal-educadas e sem nenhum espírito de cidadania! Chega a ser inacreditável.

Nessa fila, por exemplo, eu fui a única que atentei para as muletas e pernas mancas da senhora. Todos fingiam que não viam. Com as grávidas, que não estão doentes nem são velhas, o maior desrespeito vem da própria mulher, pelo que tenho presenciado.

Esses dias, na minha volta pra casa, puxei papo com um gravidinha. Estávamos as duas barrigudas em pé no metrô enquanto uma menina cochilava no acento preferencial escutando seu funk nas alturas, tanto que sobressaía aos fones de ouvidos. Eu não sou daquelas que coloca a barriga pra frente e sai furando fila. A não ser que eu realmente precise. Prefiro mesmo é contar com o bom senso da pessoa que queira me ceder o lugar para sentar ou a vez na fila do mercado. E a gravidinha que estava comigo parecia ser da mesma política. “Eu queria ser daquelas que davam um cutucão e mandavam essa menina levantar daí. Mas tenho vergonha”, ela me disse. “Eu também”, respondi. “Prefiro que isso parta da própria pessoa.”

Imediatamente um rapaz que estava ao nosso lado cutucou a moça fazendo sinal para que ela levantasse e uma de nós sentasse. A menina, desconcertada, levantou para que a moça grávida sentasse. Depois a ficou mirando da outra ponta do vagão com um olhar de “te pego lá fora.”

Situações como essa são comuns em transportes públicos, filas e estacionamentos. Falta cidadania nas pessoas e, se alguém tenta exercer o direito, mesmo que em prol de terceiros, como no caso do rapaz do metrô, ainda é encarado com cara feia. Parece que falta gentileza no mundo. Parece que as pessoas esquecem de gestos simples com o próximo. Seria isso drama de grávida???

Esses dias relatei no Facebook que não via a hora da minha barriga crescer para as pessoas pararem de me fitar no metrô como se eu fosse uma mulher folgada fazendo uso do assento preferencial dentro de um vagão preferencial (quando na verdade os folgados não são os usuários da preferência e sim os demais cidadãos que lotam esse primeiro vagão do trem). Há pouco tempo a Pais & Filhos fez uma enquete que constatou que 61% das mulheres grávidas ficam em pé no ônibus porque as pessoas não cedem lugar. Surreal! Olha aqui os números alarmantes da falta de cidadania!

E no meu dia a dia a regra é bem essa: salvo algumas boas almas caridosas, é um salve-se quem puder. Não tem assento azul, fila especial, vaga rosinha para o carro. Não tem barrigão ou barriguinha. Sobra desrespeito e falta gentileza.

Pelo primeiro artigo da lei 10.048, as pessoas portadoras de deficiência, os idosos com idade igual ou superior a 60 anos, as gestantes, as lactantes e as pessoas acompanhadas por crianças de colo terão atendimento prioritário. Isso vale para transportes, filas, assentos, aeroportos e o que mais for necessário. E essa regra não é criada do nada. Essas pessoas, e agora eu me incluo temporariamente nessa lista, precisam de mais cuidado, mais atenção, mais tempo para se locomover e podem passar mal mais facilmente. É normal que elas tenham prioridade por estarem nesse estado.

E digo mais: não é falta de aviso. Sempre há muita placa e informação quando o assunto é prioridade. É falta de cidadania mesmo.

“Filho, quando temos uma pessoa com problemas para andar, mais velha ou grávida, como no caso da mamãe, a gente tem de ceder a nossa vez. É o correto a fazer, e é lei. Está naquela placa”, expliquei ao meu filho, naquele dia na fila da farmácia. “L-E-I”, identificou ele de bate-pronto na placa azul. “Lei é obrigação. Então temos obrigação de fazer isso, né?”. É, filho, o correto seria todo mundo pensar assim…

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